Estado deve agir para tirar Angola no topo mundial de queima florestal

Segundo a NASA, entre 15 e 22 de Julho, a plataforma de monitoramento de incêndios Global Forest Watch Fires, enviou 178.484 alertas de incêndio para seus assinantes na Rússia, 136.087 alertas para os assinantes da República Democrático do Congo e 109.512 alertas para os assinantes de Angola

A agência de informação financeira Bloomberg noticiou, citando dados do satélite MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) lançado pela NASA em 1999, que Angola registou 6.902 fogos, nos dias 22 e 23 de Agosto, mais do dobro dos 3.395 na República Democrática do Congo e mais do triplo dos 2.127 fogos registados no Brasil. Segundo a NASA, entre 15 e 22 de Julho, a plataforma de monitoramento de incêndios Global Forest Watch Fires enviou 178.484 alertas de incêndio para seus assinantes na Rússia, 136.087 alertas para os assinantes da República Democrático do Congo e 109.512 alertas para os assinantes de Angola. Salientando que este número não é um fenómeno invulgar na África central, a agência de notícias escreve que só numa semana de Junho foram registados 67 mil incêndios quando os agricultores fizeram queimadas para ganhar terra para as colheitas. Esta é uma informação muito preocupante, segundo o engenheiro agrónomo Fernando Pacheco, que quando contactado pelo jornal OPAÍS achou estranho uma vez que, para ele, há muito tempo que a comunicação social angolana não fala dos incêndios florestais que acontecem no nosso país, tendo preferido falar dos outros países. Tem sido frequente, nesta época do ano, o registo de queimas do género, e ultimamente aumentou também pelo facto de a população estar cada vez mais empobrecida e procurar com a queima fazer caça, que é uma tradição no nosso país. “Antes, as queimadas eram controladas, havia um certo now how para se fazer as queimadas.

Embora houvesse problemas, porque há sempre prejuízos do ponto de vista da flora, solo, etc., nos outros tempos havia mais perícia ou habilidade. Hoje não existe e re gistamos muitos prejuízos”, disse. Fernando Pacheco acredita na existência de várias soluções para este problema, pelo que aponta o dinheiro do OGE cabimentado para o sector da Agricultura e Ambiente como um deles. O país tem poucos fiscais para uma extensão territorial muito grande para ser controlada e, para além disso, reclama-se contra a falta de recurso e a capacidade de formação.

Com muito menos fiscais é difícil controlar a queima, por um lado. Por outro, segundo o especialista, temos de ter  para pagar os fiscais e comprar meios para os fiscais trabalharem. “Quem vive no interior do país convive com este problema e este é um assunto que infelizmente não está na agenda prioritária do Executivo”, lamenta. Sugere ainda que os administradores deviam tomar a iniciativa no sentido de coordenarem com as autoridades tradicionais (sobas) o controlo dessas queimadas, por exemplo. “Existem várias soluções.

É necessário realizarmos um debate nacional sobre o assunto. Um debate a sério, e não um debate mais para o show off do que discutir os problemas. Um debate com pendor técnico para que os problemas como as queimadas e muitos outros sejam realmente resolvidos”, finaliza.

Biodiversidade, fazendas e residências estão a ser afectadas

Para o ambientalista Valdemiro Russo, esta informação não é nova, porque nos últimos 12/13 anos tem assistido a queimadas regulares em todo território nacional, com particular realce para as províncias do Cuando Cubango, Moxico, Cuanza-Norte, Huambo e Cuanza-Sul, quer para abertura de campo agrícola, bem como fogo usado como mecanismo de caça, principalmente no final do cacimbo. “São milhares de hectares a serem queimados por caçadores e por pessoas que põem fogo só por pôr e que, ao longo dos anos, vão criando um desequilíbrio nestas áreas, na flora e na fauna. Não afecta só a biodiversidade, mas também há fazendas e residências que estão a ser queimadas porque o fogo não é devidamente controlado”, disse. O entrevistado lembrou que, no tempo colonial, qualquer queimada tinha de ser aprovada pelas autoridades e inclusive tinha de se pagar uma espécie de licença, quer às autoridades governamentais, quer aos sobas (ali onde as instituições do Estado não estejam presentes). Infelizmente, agora toda a gente faz queimada e não se tem o controlo da situação.

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