Estamos à procura de caminhos e estes acham-se procurando e não sentados em Luanda”

Filomena de Oliveira é detentora de uma experiência de trabalho no meio rural com estágio efectuado pela Europa. Acredita que a reversão da precariedade que assola o meio rural, só acontecerá quando o produtor familiar for mais valorizado. Para ela, o cooperativismo pode ser uma saída, daí o seu engajamento em duas iniciativas. Empresária e activista pelas causa do meio rural, Filomena de Oliveira, é a mentora da COOPE RAGRO, a primeira inciativa do genero no Cuanza-Norte

Cuanza Norte acaba de trazer a luz uma cooperativa. Até agora conhecíamos a intervenção da senhora na midia e, muito particularmente, sobre os assuntos relacionados com a província da Huíla. Como aparece associada a esta iniciativa?

Primeiro devo explicar que a ideia das cooperativas não é nada de novo no nosso país e no mundo. Elas começaram logo a seguir à Revolução Industrial, particularmente no Reino Único e aparece como um movimento para criar sinergias e resolver-se dificuldades comuns.

Neste caso por quê Cuanza- Norte?

Porque foi da minha parte encontrado um conjunto de potenciais investidores que pudessem dar corpo a uma iniciativa ligada ao sector produtivo e não de carácter político. Foram persuadidos 20 investidores (empresas) que já estão a trabalhar no sector da agricultura, quer no produtivo, quer em maquinaria, pesticida, sementes suplementos e insumos.

Juntaram-se 20 investidores concretamente para fazer o quê?

Com um depósito de aproximadamente Kz 2 000 000 00 (dois milhões de Kuanzas), cada, permitiu a constituição do capital inicial. Esta cooperativa foi fundada em Março deste ano, no mês de Abril abrimos a primeira infra-estrutura. Com o capital inicial foi possível fazermos pequenas coisas como a loja do produtor. Cada uma das empresas fez questão de entregar à consignação lotes de equipamentos, medicamentos para a veterinária, pesticidas, adubos, insumos, etc. Agora temos uma pequena sala de reuniões para cerca de 30 pessoas, acondicionamos uma sala do gestor, uma secretaria uma copa, wc e temos também a sala do engenheiro agrónomo que esta contratado para dar apoio aos produtores locais. Na parte de trás temos um espaço para armazenamento. O passo seguinte é o registo e angariação dos sócios que são no essencial as famílias, pequenos produtores, micro, pequenas e médias empresas, que queiram estar associados a cooperativa. Para estes fixamos uma quota de 40 mil kwanzas/ano, com acesso a um cartão que lhes permite ir acumulando desconto, mas também a assistência do engenheiro agrónomo que se desloca às lavras para poder apoiar não só com boas técnicas de cultivo, mas também com o tratamento das pragas. Esta é a primeira fase do projecto.

Isso é o que já está feito. Daqui para frente o que teremos?

Daqui para a frente é a segunda fase do nosso projecto que arranca efectivamente com a criação do Mercado Abastecedor Grossista (MAG). Ao invés dos produtores andarem a vender anarquicamente e com muita dificuldade deviam concentrar- se naquilo que sabem fazer bem, que é produzir. Neste sentido e também com recurso a material rural, criamos de forma organizada standes para que os produtores associados possam às Sextas-feiras e aos Sábados ter um mercado devidamente organizado. A partir de agora, a cooperativa passa a receber encomendas de todo as partes interessadas, porque está localizada a 23 km de Ndalatando, no município do Lucala, bem juntinho a Estrada Nacional 230, com grande movimento para o Norte. Leste e Luanda.

Por quê Cuanza-Norte?

Porque tem tudo para dar certo. Uma excelente bacia hidrográfica, as maiores barragens hidroeléctricas do país, muitos jovens desempregados, está a 200 km de Luanda (grande mercado consumidor) e ainda temos o caminho-de-ferro. Portanto temos aqui uma espécie de infra-estrutura natural necessária para que um projecto dê certo, daí ter dirigido parte da minha energia para a criação de um modelo que a seguir pode ser replicado em outras províncias. Em primeira mão posso anunciar que a Associação dos Jovens Agricultores de Angola, sediada na província da Huíla já decidiu disponibilizar um terreno para permitir replicar aquilo que estamos a fazer aqui no Cuanza Norte.

Ao programarmos um acto de inauguração permitiu-nos que tivéssemos tido aqui a imprensa, à qual agradecemos a divulgação da nossa iniciativa e esperamos inspirar outros actores do mercado, mas também foi oportunidade para convidar ministérios chaves detentores de vários programas do governo para mostra-los que têm aqui um interlocutor válido, já instalado, sem acesso a nenhum crédito até agora. Veio o INEFOP na senda da identificação das necessidades de formação nas profissões com intervenção directa nos processos produtivos no campo, veio o IDA, (infelizmente por sobreposição de agenda o senhor Ministros não conseguiu chegar). O IDA pode ser de grande valia em termos de extensão agrária, disseminando técnicas de cultivo e planificando melhor os processos de sementeira e colheita…

Parece tudo muito bem gizado mas em teoria. Como pensa que isso poderá passar à prática?

Olhe, posso dar um exemplo existente em várias das nossas comunidades, apesar de vir a ser um exemplo não aplicável ao Cuanza- Norte. As nossas populações ainda colhem o abacate e a maçã à paulada o que danifica o produto. Ora, precisamos de melhorar os processos de colheita para que tenhamos um produto mais perfeito possível a chegar ao consumidor final. O produto precisa de estar com aspecto apetitoso! Precisamos melhorar os nossos conhecimentos no uso dos agro-tóxicos porque eles interferem na saúde humana.

Os produtores precisam de saber onde e quando, e em quais intervalos, aplicar tais produtos. Trouxemos o ministério da Justiça que pode ajudar no processo de emissão de documentos, até de identidade pessoal dos agricultores, tivemos a AGT na perspectiva de deixarmos de olhar para aquilo que é chamado de “mercado informal” como sendo marginal, mas uma parte importante da nossa própria economia e logo trazê-la para a base tributária. Portanto estamos a procurar caminhos, e estes acham-se procurando e não sentados em Luanda

De facto, vi um stand da AGT e lembrei- me de que a senhora parece ter uma animosidade pessoal com esta instituição?

Não que seja uma animosidade em si mesmo. Veja, por exemplo, que eu vi os senhores da AGT fazerem compras, mas não sei se por via disso acabaram por pagar impostos… (risos) …Aqui os mecanismos não estão operacionais. A ideia é confrontar a realidade e sermos criativos o suficiente levando a que os executores da legislação ajudem a responder à questão: agora fazemos como? O portal do cidadão vai ajudar no cadastramento, mas simultaneamente qual é o grau de instrução em termos de utilização das novas tecnologias no seio das nossas populações? Temos energia e acesso a internet? Estas são as outras questões logísticas que é necessário constatar na prática e acabamos por concluir que o INEFOP pode entrar com a componente de formação em novas tecnologias de comunicação e de informação. Tivemos aqui o ministério da Economia. O Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA). Tivemos a representação da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas. Trouxemos uma série de instituições que podem ter como interface a cooperativa. O passo a seguir é a formação de uma cooperativa de crédito, pelo que estamos a pedir apoio nesse sentido, tendo em mira o facto de podermos ter pequenos créditos para ajudar os próprios agricultores dando simultaneamente formação em literacia financeira que faz falta ao país como um todo e não apenas aos agricultores desta cooperativa. Em resumo, o que quisemos fazer, foi iniciar um projecto e depois dizer às várias instituições e departamentos do governo que têm sob tutela vários programas de uma forma aparentemente descoordenada, aqui está uma iniciativa como um projecto-piloto que pode ser replicado com sucesso noutras partes do país, agrupando as capacidades produtivas.

Para que esta iniciativa corresponda às expectativas, faltam componentes como a produção intensiva, a conservação, etc. Estes aspectos estão acautelados?

A fase seguinte do projecto é iniciarmos o processo de recepção de encomendas de todo o país, onde pretendemos interagir com quem precisar, para por via disso, fazermos a identificação dos produtos e produtores. Veja que na sua vinda de Luanda de carro viu várias exposições de produtos à beira da estrada e as senhoras, grande parte delas próprias produtoras, ficam ali também expostas a todos os riscos durante o dia e a perder muito tempo.

Entendemos que o trabalho dos produtores é produzir e o trabalho da área da comercialização é este que estamos a propor que seja o mercado grossista da cooperativa e assim liberta mais tempo para as pessoas dedicarem-se àquilo que melhor sabem fazer, mas sobretudo a terem também uma melhor qualidade de vida porque vendem sob égide de um preçário normalizado, apoiado por uma base logística que permite a lavagem, embalagem, refrigeração, transformação e consequentemente um incremento na renda dos próprios produtores.

Falou em conservação e transformação. Por exemplo, compramos o tomate a bom preço em comparação a Luanda. Entretanto é um produto perecível?

Na base logística preconizamos ter cadeia de frio e isso, por si só, permitiria conservar o tomate por mais tempo. Estamos a promover entre os associados a possibilidade de montagem de pequenas indústrias transformadoras, e temos pena que o ministério da Indústria não tenha aceite o nosso convite, acabando por não estar representado, porque ele tem programas interessantes que visam a transformação dos produtos a nível local o que pode aumentar consideravelmente o emprego e também o rendimento. Aqui o tomate tem de duas a 4 variantes de produtos possíveis, desde o tomate seco, a polpa do tomate, a massa do tomate ao doce do tomate. Isso aumentaria a cadeia de valor do produto. Um agrónomo local chamou a nossa atenção para o seguinte: os preços praticados na loja do produtor não estão ao alcance da grande maioria dos agricultores.

Quer comentar?

Nós ainda importamos tudo, desde as sementes, agrotóxicos, adubos, e por aí em diante. Existe um programa do governo para apoio a produção local, mas uma vez por essa razão tivemos aqui o IDA, mas como ao iniciarmos o projecto era difícil, senão mesmo impossível vendermos a “ideia”, nasceu a concertação de começarmos com produtos entregues a consignação pelos próprios associados fundadores.

Temos a consciência que esses preços são altos e fora do alcance da maioria da população alvo. Temos feito um levantamento de produtos mais baratos, porém contamos, acima de tudo, com o próprio Ministério da Agricultura e Florestas para que dentro das suas campanhas possa utilizar as nossas infraestruturas para que o camponês tenha acesso a produtos mais baratos e as vezes certificados. Não é o caso da nossa cooperativa, mas muitas vezes os produtores têm acesso a produtos baratos, e, por falta de literacia, acabam por gastar dinheiros mas não alcançam os resultados pretendidos. Imagine que compram sementes e elas depois não germinam. Ou porque põem um produto para a peste e nada acontece.

Portanto é dinheiro mal empregue. A outra grande vantagem que temos é que com a extensão rural poder- se-á fazer a reconversão. Veja por exemplo que a região do Cuanza- Norte (um pouco o Norte todo) planta muita mandioca e batatadoce, mas as mudas já são antigas e algumas até portadoras de doenças. Então a ideia é utilizarmos um centro de mudas de mandioca na província de Malanje. Com apoio da cooperativa pretendemos ajudar os cooperados a substituir as mudas por outras de variedades mais resistentes a algumas pragas e muito mais produtivas. Portanto este é o tal beneficio, de uma vez criada a infraestrutura da cooperativa, os vários programas do governo pode ser acoplados a ela e ali ser um centro até de formação técnico- profissional, e fornecer formação especifica ao agricultor no que tange a produção em si, a conservação, a transformação, ao transporte, em suma uma cadeia de valor para que se crie mais riqueza e mais desenvolvimento. Assim se combate a pobreza pela via da criação de rendimento para as famílias.

“Felizmente os bois do Curoca não comem terra”

Parece uma cidadã que muito aposta nas causas das comunidades rurais. Sei que está associada a uma iniciativa similar na Huíla?

Na realidade a primeira cooperativa que está na forja é aquela a que estou associada, a cooperativa do Curoca, uma comunidade que, como sabe, está a passar tempos terríveis, e a procura de soluções levou-me a arranjar aqui (Cuanza-Norte) 1000 hectares para transferirmos gado de lá pra cá para que aquela comunidade tenha mais possibilidades de manter o seu efectivo, que de resto é a única riqueza que têm enquanto povos ligados à pastorícia.

Explique-nos melhor essa ideia de transportar gado do Curoca para as férteis terras do Cuanza- Norte?

Faz todo o sentido. Tradicionalmente e, no tempo colonial vi isso. Tenho que dizer que não nasci no município do Curoca. Nasci na Do lado de cá, com as populações do Cuanza-Norte, pode surgir outro conflito? A situação està prevenida. Já falei com o senhor Governador da província, com o senhor Ministro da Agricultura. Sabemos que existe muita terra no Cuanza- Norte, que, apesar de ter dono, não está a ser utilizada. Felizmente os bois do Curoca não comem terra.

Eles (os bois) vão chegar para comer temporariamente capim. Até porque a solução para combate ao capim nesta região é atear fogo? Está a ver? Vindo o boi para comer capim seria uma solução mais sustentável. E, por outro lado, apesar das boas terras de cá terem donos, não podemos continuar a despender avultados valores em moeda nacional e divisas naquilo que eu chamo “os meninos vaidosos de Camabatela” que até agora já receberam mais de 5 mil cabeças, um moderno matadouro, mas não conseguem produzir o mínimo possível. Nova- Inclusivamente, as doenças agora começam a aparecer porque o gado não foi vacinado durante os dois últimos anos porque o Ministério da Agricultura não conseguiu trazer a vacina. O que acontece de momento é que as pessoas estão desesperada com a morte de muito gado, seu principal activo e optaram por rotas de transumância impossíveis para o estado dos animais, ou seja, estão a migrar para as regiões do Caiundo, Cuando Cubango, um pouco para lá do Cuchi, estão a ir para Cabolongo, Parque do Bicuar. No outro sentido sobem até Quilengues chegando mesmo ao Catengue, já na província de Benguela. Tudo isso por desespero das pessoas. Esta migração desregrada, desorganizada e descoordenada sem apoio de ninguém, está a criar focos de tensão nas regiões destinatárias que tem concentração populacional e, logo detentoras de lavras.

O gado quando chega ávicidade do Lubango, mas fui bebé para o Curoca e cresci com os meus amigos a pastar gado (cabritos e bois) e o que vi e retive, para a recria do gado os efectivos eram vendidos aos dois anos para recriadores na região do Cuanza- Norte porque ela é detentora de um excelente clima para engordar e finalizar o gado de corte, aquele destinado a produção da carne. Olhando para as dificuldades que temos agora tenho de dizer que não temos estado a ser capazes de coordenar os diferentes departamentos ministeriais para conjugar programas assertivos e objectivos em prol da populações. Veja que andar a comprar e a levar um pouco de capim e sacos de sal (que até não devia ser sal, mas blocos de sais e minerais) e água para que o gado possa reabsorver as substâncias e reconstituir a sua enorme fraqueza, é muito mais caro do que as soluções que temos à mão. do por comida, come tudo e depois as populações reagem com catanadas sobre os animais ou obrigam por cada porção de milheiro consumido uns tantos bois ou ainda os sobas que estão a cobrar 200 mil kuanzas/mês pelo usufruto de uma terra que nem se quer é deles. Perante essa situação precisamos de um projecto de emergência. Felizmente temos actualmente um novo ministro na pasta do Interior que é um dos quadros que mais formação recebeu em termos de gestão de catástrofes via Nações Unidas e o actual ministro da Agricultura é uma pessoa sensível e que não esta ligada aos “bisness” como nós dizemos, porque até a pouco tudo era “bisness”.

Então agora depois de ajudar a trazer à luz o projecto COOPERAGRO estou concentrada em ajudar os meus conterrâneos e amigos de infância a estabilizarem o gado sob ponto de vista de sanidade animal e depois transporta-lo para esta região do Cuanza Norte, porque acredite que não vai chover no Curoca e arredores até próximo ano e o gado e as pessoas só vão estar em situação cada vez mais vulnerável de agora em diante. Aqui já temos 1000 hectares disponíveis e é nisso que me vou concentrar proximamente enquanto cidadã e por via disso conseguirmos melhorar as hipóteses de sobrevivência do gado e das populações detentoras do mesmo, já que é o único activo que possuem.

Os criadores de gado são pessoas muito apegadas às suas manadas. Elas também vêm com o gado?

Eles vêm. Como deve saber os jovens são os pastores do gado porque ele não é pertença de um individuo mas sim da família e a riqueza é transferida por via matriarcal.

O que acontece é que os sobrinhos maternos são normalmente os protectores das manadas e daí acompanharem o gado. Não estará a desunir famílias?

É uma emergência. O mais importante é sobrevivermos a ela. Todos os dias falo com sobas e isso foi decidido assim, não por minha autoria sozinha, mas com eles. Ainda fim-de-semana passado tive em minha casa em Luanda três enviados e estivemos a debater o projecto. A questão é essa: precisamos de ter uma solução emergencial, capaz de garantir sobrevivência aos animais até que haja outra solução. A solução na qual o governo esta concentrado é de médio e longo prazo.

“Chega de mimos para os meninos vaidosos de Camabatela”

Do lado de cá, com as populações do Cuanza-Norte, pode surgir outro conflito?

A situação està prevenida. Já falei com o senhor Governador da província, com o senhor Ministro da Agricultura. Sabemos que existe muita terra no Cuanza- Norte, que, apesar de ter dono, não está a ser utilizada. Felizmente os bois do Curoca não comem terra. Eles (os bois) vão chegar para comer temporariamente capim.

Até porque a solução para combate ao capim nesta região é atear fogo? Está a ver?

Vindo o boi para comer capim seria uma solução mais sustentável. E, por outro lado, apesar das boas terras de cá terem donos, não podemos continuar a despender avultados valores em moeda nacional e divisas naquilo que eu chamo “os meninos vaidosos de Camabatela” que até agora já receberam mais de 5 mil cabeças, um moderno matadouro, mas não conseguem produzir o mínimo possível.

Nova- Inclusivamente, as doenças agora começam a aparecer porque o gado não foi vacinado durante os dois últimos anos porque o Ministério da Agricultura não conseguiu trazer a vacina. O que acontece de momento é que as pessoas estão desesperada com a morte de muito gado, seu principal activo e optaram por rotas de transumância impossíveis para o estado dos animais, ou seja, estão a migrar para as regiões do Caiundo, Cuando Cubango, um pouco para lá do Cuchi, estão a ir para Cabolongo, Parque do Bicuar. No outro sentido sobem até Quilengues chegando mesmo ao Catengue, já na província de Benguela.

Tudo isso por desespero das pessoas. Esta migração desregrada, desorganizada e descoordenada sem apoio de ninguém, está a criar focos de tensão nas regiões destinatárias que tem concentração populacional e, logo detentoras de lavras. O gado quando chega ávicidade do Lubango, mas fui bebé para o Curoca e cresci com os meus amigos a pastar gado (cabritos e bois) e o que vi e retive, para a recria do gado os efectivos eram vendidos aos dois anos para recriadores na região do Cuanza- Norte porque ela é detentora de um excelente clima para engordar e finalizar o gado de corte, aquele destinado a produção da carne.

Olhando para as dificuldades que temos agora tenho de dizer que não temos estado a ser capazes de coordenar os diferentes departamentos ministeriais para conjugar programas assertivos e objectivos em prol da populações. Veja que andar a comprar e a levar um pouco de capim e sacos de sal (que até não devia ser sal, mas blocos de sais e minerais) e água para que o gado possa reabsorver as substâncias e reconstituir a sua enorme fraqueza, é muito mais caro do que as soluções que temos à mão. do por comida, come tudo e depois as populações reagem com catanadas sobre os animais ou obrigam por cada porção de milheiro consumido uns tantos bois ou ainda os sobas que estão a cobrar 200 mil kuanzas/mês pelo usufruto de uma terra que nem se quer é deles. Perante essa situação precisamos de um projecto de emergência. Felizmente temos actualmente um novo ministro na pasta do Interior que é um dos quadros que mais formação recebeu em termos de gestão de catástrofes via Nações Unidas e o actual ministro da Agricultura é uma pessoa sensível e que não esta ligada aos “bisness” como nós dizemos, porque até a pouco tudo era “bisness”. Então agora depois de ajudar a trazer à luz o projecto COOPERAGRO estou concentrada em ajudar os meus conterrâneos e amigos de infância a estabilizarem o gado sob ponto de vista de sanidade animal e depois transporta-lo para esta região do Cuanza Norte, porque acredite que não vai chover no Curoca e arredores até próximo ano e o gado e as pessoas só vão estar em situação cada vez mais vulnerável de agora em diante.

Aqui já temos 1000 hectares disponíveis e é nisso que me vou concentrar proximamente enquanto cidadã e por via disso conseguirmos melhorar as hipóteses de sobrevivência do gado e das populações detentoras do mesmo, já que é o único activo que possuem. Os criadores de gado são pessoas muito apegadas às suas manadas. Elas também vêm com o gado? Eles vêm. Como deve saber os jovens são os pastores do gado porque ele não é pertença de um individuo mas sim da família e a riqueza é transferida por via matriarcal. O que acontece é que os sobrinhos maternos são normalmente os protectores das manadas e daí acompanharem o gado. Não estará a desunir famílias? É uma emergência.

O mais importante é sobrevivermos a ela. Todos os dias falo com sobas e isso foi decidido assim, não por minha autoria sozinha, mas com eles. Ainda fim-de-semana passado tive em minha casa em Luanda três enviados e estivemos a debater o projecto. A questão é essa: precisamos de ter uma solução emergencial, capaz de garantir sobrevivência aos animais até que haja outra solução. A solução na qual o governo esta concentrado é de médio e longo prazo. mente vão receber, segundo se diz através de um projecto 73 milhões de euros, para importarem mais 10 mil cabeças. Por outro lado andam os fundos públicos a ajudar a fazer as vedações aos meninos, os estábulos etc., etc.. Por amor de Deus, temos estes concidadãos, que não são população, como é vulgo dizer- se, com os mesmos direitos e as mesmas obrigações e que, durante estes anos todos de independência, alimentaram este país sem nenhum programa de apoio à sua produção, nem sequer a sua capacitação técnico-profissional e muito menos dos seus filhos.

As nossas escolas do campo não têm qualquer informação, nem sobre agricultura, nem sobre gestão pecuária, nem sobre coisa nenhuma. Penso eu que chegou a altura de enquanto Estado o Ministério da Agricultura preocupar-se mais com estas questões, ao invés de importar 10 mil cabeças para a sua maioria ser de recria. Peguemos este gado, o estabilizemos aqui na região do Cuanza-Norte e demos a estas pessoas as mesmas condições que estamos a pretender dar a meia dúzia de pessoas que já usufruem de fundos e mundos.

Meninos vaidosos de Camabatela. Uma nomenclatura interessante. Quer explicar-se melhor?

Eu divido os criadores de gado em 3 categorias. A primeira, a dos criadores tradicionais, que detêm mais de 90% do efectivo bovino, caprino e suíno em todo nosso país. Temos os criadores profissionais, que estão sobretudo concentrados na região Sul do país e temos aí um grande interlocutor que é a Cooperativa de Criadores de Gado do Sul de Angola, que detêm cerca de 50 mil cabeças de gado e depois temos então aquilo que chamo “Os Vaidosos do Gado”, que são pessoas detentoras de poder, que tiveram acesso a fundos infindáveis e que vieram instalar-se essencialmente no Planalto de Camabatela e um pouco por todo o lado com boas condições que nos oferecem os grandes desastres que tem sido com a importação de milhares de bovinos do Brasil e que morreram às centenas e aos milhares, porque o gado foi atirado para a mata sem qualquer preparação.

Estas pessoas não tinham o mínimo de noções do que é criar gado. Eu vi gado de raça atirado no meio dos picos, as vacas a parirem no meio dos picos e o resto a morrer porque não estava confinado de manhã, altura em que circula um sapo até bater o Sol.

Ou seja os animais comiam o capim com sapinhos e logo morria envenenado. Não observaram as quarentenas no gado importado e hoje temos doenças que não tínhamos no país, uma prática que pode ser considerada criminosa. Portanto é hora de dar apoio àqueles que durante séculos tem estado a fazer nada mais do que criar gado com os conhecimentos por eles adquiridos e que agora clamam pela componente técnica e científica para poderem melhorar a sua produção. Da mesma forma que existem o conceito “A TERRA A QUEM TRABALHA” também vamos dar recursos aos criadores que trabalham, é uma questão de justiça e equidade, porque essas pessoas com muito pouco são capazes de fazer muito mais do que estes meninos vaidosos do gado de Camabatela

Em conversa com os camponeses presentes na feira, retive uma frase: estamos cansados de fazer lavras com enxadas. Acredita que essa forma de pensar vai ser invertido um dia?

Não só vamos inverter, como vamos melhorar a condição de vida das pessoas. A ideia da cooperativa com apoio do IDA é precisamente fazermos o cadastro das terras de cada um dos associados, olhar para as suas dimensões e fazer aquilo que é a chamada planificação agrícola. Fazer a correcção dos solos com apoio da extensão rural. Temos calcário, mas precisamos de técnicos para auxiliar no doseamento e para fazer a formação das pessoas. Vermos as várias culturas que temos e começarmos a planificar e mecanizar.

Aquilo que pretendemos com ajuda do ministério de tutela é o apoio à extensão rural. Assim, conseguimos tirar mais produtos da terra e vai igualmente produzir-se com maior regularidade, com menos pestes, com maior qualidade e preparado para as encomendas ao invés de estarmos a produzir só por produzir, devemos produzir para fins e objectivos já contratados e pré-estabelecidos.

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