Famílias sobrevivem do negócio da pele de bovinos no Lubango

Os efeitos nefastos que a estiagem está a causar aos criadores tradicionais de gado, principalmente no Sul do país, passaram a ser encarados como uma oportunidade de negócio para muitas famílias residentes no município do Lubango. As peles de animais mortos estão a ser transformadas em cabedal exportado, tanto para outras províncias do país como para países como o Senegal e Mali

Por:João Katombela, na Huíla

A província da Huíla é considerada a maior detentora de gado bovino, de acordo aos dados fornecidos pelo Governo local, estimado no total em 2 milhões, 354mil e 398 cabeças. A seca que assola a região Sul do país já provocou, até ao momento, a morte de milhares de cabeças de gado nesta província, sendo que as mais afectadas estão localizadas nos municípios do Quipungo, Gambos, Chibia, Matala e Humpata. Entretanto, o Executivo local traçou políticas para minimizar os seus efeitos, tendo em conta que o gado constitui a principal riqueza da região. Segundo o governador provincial, Luís da Fonseca Nunes, está prevista a construção de cerca de 71 sistemas de água nas zonas afectadas. Mas, os efeitos nefastos que a seca está a provocar aos criadores tradicionais de gado, nessa parcela do território nacional, estão a ser encarados como uma grande oportunidade de negócio para muitas famílias residentes no município do Lubango.

As famílias dedicam-se à arte de curtir peles de animais para a produção de cabedal que se usa no fabrico de vários artefactos, como calçados, cintos, bolsas e outros derivados dessa matéria-prima. Pedro dos Santos, de 60 anos, trabalha numa oficina montada na própria casa com os seus três filhos e mais cinco jovens que também encontraram na arte uma forma de sobrevivência.

Na oficina, foram construídos seis tanques com a capacidade para 150 peles, nos quais é feito todo o processo para a produção do cabedal de forma rudimentar. De acordo com este chefe de família, a aquisição dessa matéria- prima não tem sido fácil por existirem poucos matadouros na província e, particularmente, na cidade do Lubango. Para ultrapassarem esse empecilho, acorrem aos matadouros dos mercados informais do Mutundo, no Lubango, e do município da Chibia, ao preço módico de 5.000 Kwanzas, dependentemente do tamanho.

Por semana, segundo ele, são curtidas na oficina de Pedro dos Santos 900 peles. Além da Huila, os vendedores têm a clientela espalhada pelas províncias do Namibe, Cunene, Luanda e Benguela. “Cada tanque destes tem a capacidade para amolecer numa semana cerca de 150 peles. A quantidade ainda é irrisória em função da procura”, disse. Oportunidade para os criadores tradicionais de gado Além da seca, que está a matar milhares de bovinos, os criadores tradicionais debatem-se igualmente com algumas doenças que afectam o gado, como é o caso do carbúnculo hemático e sintomático.

Estas e outras doenças fizeram com que as autoridades sanitárias tomassem algumas medidas de segurança, através da incineração dos animais mortos por forma a se evitar o contágio da doença aos humanos pelo consumo da carne. Tais medidas fazem com que os criadores tradicionais de gado registem maiores prejuízos. No entender de Pedro dos Santos, estes prejuízos podem ser minimizados caso se faça o bom aproveitamento da pele e dos cornos. “Nós já pensamos em se deslocar aos municípios dos Gambos e da Matala, na localidade de Mulondo, onde apuramos que terão morrido cerca de 4 mil cabeças de gado, mas desistimos por falta de transporte. Se houvesse condições para a transportação, seria uma forma de minimizar os danos causados aos criadores”, afirmou. Estudante da 11ª classe, António dos Santos, de 15 anos, trabalha com o seu pai Pedro dos Santos desde tenra idade.

No seu entender, para que seja possível minimizar os prejuízos é preciso que se tracem políticas viradas para o apoio aos criadores que perdem os seus rebanhos em consequência da seca. “Se o Governo Provincial pudesse abrir zonas de comércio da pele nas localidades afectadas pela seca, seria mais fácil para nós e para os criadores, pois assim haveria maior controlo durante o processo de depilação dos animais que morrem”, assegurou. Pele da Huíla vendida no Senegal e Mali Não obstante a exiguidade de matadouros, os artesões do couro na província da Huíla disputam o mercado da pele com alguns exportadores. OPAÍS constatou que a pele pre

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