“O keynesianismo está na nossa Constituição”

O economista Yuri Quixina defende, em declarações ao Economia real, que qualquer processo de privatização deve estimar o valor a ser arrecadado. Sobre as sanções impostas aos bancos comerciais, o especialista afirma que o excesso de regras é nocivo à actividade bancária

Ainda sobre as privatizações, não está estimado o valor a ser arrecadado com a venda das empresas, segundo o ministro das Finanças, Archer Mangueira. É normal?

Quando se faz um estudo aprofundado e se avaliam melhor os activos, é possível estimar seguramente o valor a ser arrecadado. Isso significa que escolheram apenas as empresas e houve uma ligeira pressa na apresentação da lista. Num processo de privatização, todo e qualquer detalhe é fundamental para o investidor, porque não quer comprar gato por lebre. Na década de 90 falhámos, porque entregámos a empresa aos amigos, que não souberam recapitalizar. Insisto, continuamos atrasados, até porque as pessoas são as mesmas ligadas ao processo, a não ser que estejamos à espera da consultoria do Banco Mundial para estimar.

É o mesmo que colocar um produto na prateleira sem preço, certo?

É nessa perspectiva. Até as zungueiras fixam preços. Por outro lado, num cenário de crise económica dá um bom trabalho privatizar empresas. Portanto, as empresas correm o risco de serem vendidas a preços baixos em função da procura.

 Está previsto o processo de privatizações ser feita via bolsa de valores, mas a BODIVA aparece aqui na lista das empresas. Como compreender isso?

É fácil compreender isso. A BODIVA foi criada pelo Estado e o Estado também está dentro da bolsa. No meu entender a BODIVA seria a primeira instituição a ser privatizada, na medida em que o novo dono iria alterar determinadas regras, porque é um lugar onde investidores encontram-se para fazerem transacções.

A livre iniciativa consagrada na Constituição é o tema da rubrica ‘Direitos e Deveres’. Que comparação faz entre o texto e a prática?

A Constituição na parte económica não é efectivamente liberal, porque determina que o Estado é o coordenador e regulador da actividade económica.

 A livre iniciativa pressupõe autoregulação?

A livre iniciativa é autonomia, as famílias e as empresas têm gostos, logo não se pode coordenar gostos e preferências. Essa teoria de colocar o Estado como coordenador e fiscalizador da actividade económica é o pior erro. O Estado tem muitas preocupações com a Saúde, Educação e Segurança.

Todos os processos carecem de alguma supervisão.

O supervisor também tem os seus interesses. Quando comprar e vender é objecto de regulação, o primeiro a ser comprado é o regulador. É essa coordenação que faz o Estado ao criar políticas expansionistas e eleitorais. Quando a Constituição confere ao Estado a coordenação da economia é intervencionismo puro, tem de ser revista. O keynesianismo está na nossa Constituição.

A BIOCOM queixa-se de estrangulamento na sua produção porque o PEODESI está a falhar na sua estratégia. Qual a sua opinião sobre essa reivindicação do director-geral adjunto, Luís Bagorro?

A primeira impressão com que fiquei foi de que, quando prometes mimos e protecção aos teus filhos, eles vão cobrar-te. A BIOCOM só está a cobrar isso. A protecção que o Estado garantiu nos seus programas. Mas o mimo e o protecionismo na economia tira a inovação e a invenção. Os nossos empresários e as empresas devem compreender que a nossa economia está em guerra. A sobrevivência de um empresário hoje resulta de uma luta enorme. A BIOCOM está a pedir a materialização do PRODESI. Mas devo dizer que o proteccionismo é coisa do passado, são modelos que não se usam. Nem a China nem a Coreia do Sul usam. A estratégia seria a promoção das exportações. Seria pegar na BIOCOM e identificar, juntos, o mercado externo para exportar. O keynesianismo tem boas intenções, mas os resultados são péssimos.

BNA aplicou 130 sansões aos bancos comerciais no primeiro semestre, revertidas em multas acima de 529 milhões de Kwanzas. O que achou das medidas?

É normal que os bancos tenham infringido, porque são muitas normas e o BNA aumenta cada vez mais normas. Era bom que essas normas evitassem as crises financeiras. Esse dinheiro devia financiar o crédito ao invés de ir ao BNA. Deve-se reduzir o número de regras. Por outro lado devemos avaliar se a imposição dessas multas melhoraram o sistema bancário

O BNA destaca, entre as várias infracções, o incumprimento do tempo limite para carregamento de cartões de bandeira internacional.

 Isso pressupõe que não é a procura e a oferta, mas o BNA. Isso transforma os bancos comerciais em departamentos do banco central.

Donald Trump qualifica o líder da Reserva Federal de ‘inimigo dos EUA, por não ter baixado as taxas de juros, como esperava, fazendolhe perder uma ‘batalha’ da guerra comercial contra a China. Mais uma ‘trumpada’

. Trump quer apoio, porque sente estar sozinho nessa guerra comercial. Parece que os empresários americanos não lhe dão ouvidos, quando ele esperava que fossem o seu último bastião – a Reserva Federal, na perspectiva da desvalorização do dólar, em relação ao yuan chinês, não está a acontecer. Daí essa declaração, alegando que Jerome Powell é inimigo dos EUA mais do que Xi Jin Ping.

 

 

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