Ritos de iniciação em Nharêa submetem-se ao calendário escolar

Conhecido como Evamba, Ekwenje ou Efiko, o processo de passagem de um infanto-juvenil para a vida adulta é ainda um imperativo para as comunidades afastadas das consideradas grandes cidades, que, na maior parte das vezes, se circunscrevem às sedes provinciais

O regedor da localidade de Nharêa, província do Bié, Timóteo Severino, revelou a O PAÍS que, de algum tempo a esta parte, os instrutores tradicionais que levam a cabo a efectivação do processo de circuncisão e inserção de infanto-juvenis das comunidades, ainda consideradas “genuínas” na vida adulta, viram-se obrigados a encurtar o tempo da escola tradicional, conhecida, na região Centro e Sul do país, como Evamba, Ekwenje ou Efico.

“Por causa do tempo actual da escola, que começa em Fevereiro e termina em Maio, depois recomeça no fim deste mês ou princípio de Junho e vai até Agosto, os mais velhos das povoações que tratam das crianças no Evamba decidiram diminuir o tempo do ensino lá na mata, para as crianças não ficarem sem ir à escola”, disse o soba Timóteo Severino, que se expressava, rigorosamente na língua umbundu, prontamente traduzida por um jovem da vila, cuja identificação não se aconselhou, para não se esvaziar o peso das palavras do líder tradicional.

Timóteo Severino admitiu existirem edições em que a referida cerimónia cultural da região que dirige consome o período inicial do tempo que o calendário escolar dá ao segundo trimestre de cada ano lectivo. Normalmente, acontece no fim de Maio ou princípio de Junho, como informou, por conta dos acertos que tiveram de fazer a uma fase que também obedece à estação do ano mais fria, não são poucas as ocasiões em que o processo que envolve os ritos de iniciação tem de começar na segunda quinzena de Maio.

Importa referir que, à semelhança de outras regiões de Angola, o Evamba, Ekwenje ou Efiko, nessa circunscrição da província do Bié, se realiza(va) taxativamente nos meses de Julho e Julho, sendo que o princípio de Agosto estava reservado para o regresso dos miúdos tornados adultos à comunidade. Segundo o soba Timóteo, o anterior calendário escolar, que contemplava as provas finais para Junho, facilitava os instrutores tradicionais, de tal forma que estes podiam cumprir com os 44, 60 ou mais dias necessários para a circuncisão, curativos, instrução de conhecimentos de filosofias adaptadas às realidades locais e cerimónia de regresso à área residencial de diferentes povoações. “Não se deve desprezar a necessidade dessa escola tradicional, porque é a mesma que transforma a criança em adulto.

E aqui nas nossas comunidades, quem não passou no Evamba, ainda não é homem”, assegurou o decano de Nharêa, tendo esclarecido que, sob o contexto que acabava de evocar, a idade cronológica não tinha muita relevância. Aliás, os seus colaboradores directos da regedoria, o secretário Francisco Sapalalo e o “Mestre” Dinis Elavoko, conhecido nessas paragens como “Mwendalu”, termo umbundu, que, traduzido para português, significa, literalmente, o homem do fogo, ao ponto de estender a sinonímia para cerimoniário ou aquele de quem depende a abertura dos ritos ou das actividades de carácter cultural, disseram que a escola moderna era composta por dirigentes, professores e alunos que já tinham passado pelo processo tradicional em causa, razão pela qual os estabelecimentos de ensino reconheciam a validade que os ritos de iniciação detinham, até mesmo na moralização das sociedades.

Os membros do sobado manifestaram, na ocasião desta reportagem, o desejo de verem o Governo de Angola a voltar a adoptar o calendário escolar usado até antes dos Acordos de Paz de 1992, conforme fizeram referência, o secretário e o mestre que pretendem igualmente testemunhar épocas em que os alunos estejam de férias entre Junho e Agosto de cada ano. “Porque, se desse para fazer a circuncisão de crianças e adolescentes no tempo de calor, nós não teríamos muitos problemas em alterar o processo de instrução para a vida adulta para os meses de Dezembro, Janeiro e parte de Fevereiro, até porque a passagem de um para outro ano, daria um significado maior ao procedimento”, ironizaram os adjuntos do velho Timóteo.

Desobediência às tradições gera problemas Quanto às tentativas de desafios que vêm enfermar ou denegrir a crença nas tradições e nas suas filosofias de actuação, o regedor Timóteo Severino apelou dizendo que os mais velhos, normalmente, não se responsabilizavam pelas consequências advindas do desafio propositado que alguns jovens protagonizam contra a cultura. “É muito importante que as crianças ou os mais jovens sigam aquilo que foram as tradições antigas, não podem proceder de forma contrária às orientações dos mais velhos, normalmente, apegadas aos traços culturais característica à região”, asseverou o soba, sublinhando que os problemas causados pela fuga às normas costumam a custar caro às famílias, que, depois, recorrem mais à regedoria.

Realçou que não é conveniente que na nova geração já cedo queiram pegar a terra, porque a encontraram nas mãos dos mais velhos, por isso, a maneira de viver dos tradicionais tem de ser adoptada e seguida, à risca, pelos jovens, a fim de se verem reconhecidos e assegurados pelos anciãos.

“Os que não seguem a doutrina arranjam só problemas graves para a sua família. Por exemplo, um infanto-juvenil que se furta à circuncisão, apesar de a globalização permitir a convivência com os outros, ele mesmo vai-se afastar e o afastamento costuma ser o primeiro resultado da desobediência”, detalhou o entrevistado, tendo salientado que, no modelo que deu, a acção é voluntária.

Nhanlehã, não Nharêa

A referida autoridade tradicional entrevistada por este Jornal aproveitou a oportunidade da imprensa para corrigir a denominação do município. “Havia aqui caçadores que capturavam animais e, quando cortavam os bichos, iam estender a carne sobre o capim localizado à beira do rio, entre a sede e a região da Lúbia. O acto de estender, em umbundu, denomina-se Okunhalehã ou NHalehã, que é a designação exacta do município, mas que o colono passou para NHarêa”, explicou o aldeão, tendo apelado às entidades governativas que já era tempo de se corrigir o erro.

Noutra vertente, o velho contou que, em tempos idos, do mesmo rio saia, quase sempre, no período da manhã, ao nascer do sol, um tipo de cobra grande que se estendia sobre a erva já referenciada para aproveitar a insolação.

Francisco Sapalalo e Dinis Elavoko acrescentaram, assegurando, que tanto uma como outra narrativa exposta pelo líder tinham razão de ser, até porque os elementos tempo e espaço da história eram os mesmos. “Oko kwatunda onduko yaco, onhonhã ya linhanlehã”, remataram os aldeãos que asseguraram ser exactamente daí saíu o nome, “a cobra estendeu-se”, traduzido do idioma local para o português

 

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