‘A Angola do leste é uma terra que foi esquecida

 

entrevista de Dani Costa
fotos de Lito Cahongolo

Tinha apenas 28 anos quando chegou a Angola. Mas o argentino de nacionalidade nunca mais abandonou o país. lidera a Diocese do luena, a maior no território angolano e provavelmente do Sul do Sahara, razão pela qual tem desbravado os caminhos mais tortuosos à procura de soluções para os inúmeros problemas que afligem as populações. A educação é uma das suas principais apostas, mas é comum vê-lo com catanas, paus, galochas e outros artefactos para montar pontes, recuperar estradas e locais para o ensino dos mais carenciados. Jesus tirso Blanco, 62 anos, o bispo da Diocese do luena, é o entrevistado desta semana

Chegou a Angola com apenas 28 anos?

É verdade. Foi num dia 5 de Março de 1986.

Que Angola encontrou na altura?

O que mais me impressionou era estar extremamente militarizada, especialmente porque fui imediatamente para o Luena, que era, digamos, o epicentro da guerra, no sentido. A segunda impressão é que depois as actividades cessaram e muita gente via o que levava. Impressionava- me também a pobreza e o espírito de solidariedade entre as pessoas. Penso que era muito mais acentuado do que hoje.

É verdade que quando o convidaram para vir não conhecia o que era Angola, onde estava situado e teve que o procurar no mapa? (Risos). Podemos dizer que sim e não. É verdade que tinha que procurar onde estava Angola, porque não conhecia. Sabia que era África e poucos anos atrás era uma colónia portuguesa. Mas, depois, não tinha mais informações sobre Angola. O meu oferecimento foi para ser missionário no lugar em que fosse preciso.

Não se arrepende?

Claro que não. Digo isso absolutamente. Diz-se que, se você quiser conhecer um país, pergunte a um padre, madre ou bispo.

Hoje já conhece profundamente Angola?

Estou a conhecer, porque a cada dia é uma aprendizagem. A pessoa é uma espécie de tesouro inesgotável, então estamos a aprender.

Qual é a imagem que tem desta Angola que já diz conhecer?

Há muitas Angola’s. E isso é verdade, porque aquilo que nós encontramos no litoral em geral e vemos no leste de Angola, tem uma certa diferença. Não é a mesma coisa. A Angola do leste de Angola, no Moxico, é uma terra que penso que foi esquecida.

Há uma Angola profunda e uma outra que os decisores políticos pensam que existe?

Temos vistos que os investimentos, as atenções, estão virados para este litoral, talvez um pouco para o Huambo e Lubango também e menos para estas regiões do leste de Angola. Que podemos dizer é metade do país ao menos.

Chegou numa altura de guerra. Hoje vive-se um momento de paz. O Moxico recebeu a importância devida pelo facto de ter sido lá onde terá começado e terminado esta guerra fratricida?

A paz é um bem inestimável que nos dá a oportunidade de reconstruir o país. Enquanto houver guerra é difícil. Podemos encontrar exemplos heróicos e de solidariedade, de amor, ajuda, mas não temos a possibilidade de um desenvolvimento real em situação de guerra. Eu vi no Moxico em situação de guerra. Vivi os primeiros cinco anos, depois fui para Ndalatando, mas também tive a sorte de conviver com o povo em situação realmente extrema de vida. É difícil. Hoje em dia temos a oportunidade de reconstruir o país e construir uma sociedade nova, certamente reconciliada e, sobretudo, perspectivar um futuro diferente para os angolanos. Então, há uma diferença muito grande. Quando hoje por analogia falamos que há guerra, não é verdade, porque a guerra impede. Estamos com uma oportunidade que não podemos deixar passar.

A paz faz-se sentir no Moxico?

Em certos sentidos, sim. Logicamente que estamos em paz. Para quem viveu do lado de baixo das bombas é muito diferente dizer que hoje não há bombas ou tiros.

Como era a vida de um prelado católico numa fase de guerra, com inimigos aqui e acolá ou ainda com tiros à volta?

Na verdade, na altura ainda não era bispo. Era padre numa paróquia, como também fui em Ndalatando e noutros lugares durante o período de conflito. A grande dificuldade que eu via era o de um eterno recomeçar. Trabalhava muito ligado aos jovens mesmo nas comunidades. Acontecia uma acção de combate ou guerra, então repentinamente era começar tudo do zero. Esta é para mim a experiência mais marcante. Claro que depois há a carência, sofrimento, feridos e outras coisas. Como elemento positivo, como não podíamos fazer muitos convívios exteriores, tínhamos uma relação com as pessoas de amizade e uma ligação tal que não se pode apagar. As amizades que fizemos naquele tempo, as conversas, a partilha do pouco que havia, isso para mim é marcante.

Era bem visto pelas forças leais ao Governo, na altura, e pelas afectas à UNITA na época?

Quando estava no Luena não era muito fácil chegar às áreas em que estavam os militares da UNITA. Já em Ndalatando pude viver, exactamente dois anos, num “ninho” da UNITA. Senti-me respeitado de uma ou outra parte, mas logicamente que há um certo nervosismo e suspeitas generalizada durante o tempo de um conflito armado. Não me queixo de que não havia respeito. Não! As pessoas tinham esta possibilidade, porque estávamos todos no mesmo barco e tínhamos que sobreviver. Havia momento em que pensávamos que ninguém sairia com vida. Foi na altura dos grandes combates. E tínhamos que trabalhar juntos e partilhar com o pouco que existia. Não havia muita coisa, mas tínhamos o espírito de partilha até naquela altura. Não havia crianças de rua, porque qualquer uma era acolhida por uma família ou pessoa.

Como é dirigida a Diocese da maior província de Angola?

Não só a maior diocese em termos territoriais, mas provavelmente a maior diocese a sul do Sahara e de grandes dimensões. Estas grandes dimensões ainda são maiores por dois factores. Primeiro, a província do Moxico é muito fértil, tem muitos rios, muitas florestas ainda, e, portanto, é habitável em praticamente todo o território. Diferente de outros territórios, onde por serem mais desérticos, não é possível habitarem em todos os lugares. O segundo facto, que também dificulta a nossa acção, é a estrada. Segundo as estatísticas do próprio Governo, só foi asfaltada cinco (5) por cento da rede rodoviária da província do Moxico. Isto cria para nós grandes dificuldades. E o estado das outras estradas também é péssimo. Temos estradas péssimas, em que, para chegarmos às populações, passanos por muitas dificuldades. Isso dificulta poder estar com estas populações, ver as suas dificuldades e problemas, porque confiam muito em nós. Hoje estava a ver uma imagem de uma visita e as pessoas perguntavam “se o padre não podia fazer a ponte?”. Há uma expectativa às vezes até exagerada do que podemos dar.

Além da evangelização, temos visto o bispo de botas, a cortar paus e outros objectos para (re)construir escolas precárias, as estradas e até mesmo pontes, para que as pessoas tenham acesso a alguns serviços. Quando é que sentiu que deveria se envolver nestas empreitadas?

Eu acho que todo o cidadão angolano tem direito a uma educação de qualidade, mesmo que esteja na última aldeia. Temos que fazer com que isso chegue lá, assim como também tem o direito de escutar a palavra de Deus e todo o resto. Nós chamamos uma educação integrada e também uma administração integrada. Então, temos que chegar onde a população está. E, às vezes, são custos enormes para se chegar até lá. São custos financeiros, humanos, desgaste, temos que fazer pontes. Algumas vezes vamos com uma carrinha e em cima uma motorizada. Depois colocamos a motorizada numa canoa para podermos chegar nestas localidades. Neste momento, comunas como o Yova, são ilhas. O povo diz que, apesar de estarem a mil quilómetros do mar, estão numa ilha. Não há como chegar lá. Isso significa que não pode chegar cimento, chapas ou bens em certas quantidades. Só com uma motorizada se pode chegar, fazendo este percurso, mas depois de longas e longas viagens.

Como estão as coisas nestas áreas?

Chamo a atenção, sobretudo, à situação da educação nestas áreas. São áreas de fronteira, às vezes, onde a soberania nacional, em certo sentido, tem que se fazer sentir. Porque se a moeda que se usa é do país vizinho, os serviços de Saúde também, quase ninguém sabe falar português, então acaba por ser muito ténue a ligação com o próprio país. Em algumas circunstâncias, encontramos um analfabetismo quase que generalizado. Tentamos dar algumas respostas. Por exemplo, tem sido possível realizar a alfabetização, mas em 2015 houve uma interrupção nos apoios para os alfabetizadores. Chegamos de ter 300 salas de alfabetizadores espalhadas nas áreas rurais, mas neste momento estamos a retomar as actividades. No ano passado, fizemos um projecto muito interessante de alfabetização bem-sucedido, mas este ano retomamos com o esquema tradicional. É muito complexa esta questão da educação. Por exemplo, estas pessoas têm uma economia de subsistência, sobretudo nas áreas rurais mais distantes dos centros urbanos, que sai apenas na agricultura. As lavras e as fontes de recurso destas pessoas são distantes das suas aldeias. Portanto, elas têm que levar as crianças, porque não teriam quem lhes pudesse confeccionar e dar os alimentos. Então, interrompem quase todos os anos o ciclo das escolas. Ou damos uma merenda, um prato que permita a sua subsistência, ou vão desistir sistematicamente das aulas. Nestas circunstâncias, como é que nós pensamos que um jovem que acabou agora os seus estudos secundários, entrou na universidade e licenciou-se, vai fixar-se neste lugar onde não há um banco.

Pode explicar melhor?

Por exemplo, se é professor em Macondo tem que andar alguns dias, não há transporte público, meios de comunicação, telefone, não há nada.

É verdade que os professores e outros quadros têm que andar três ou quatro dias para terem acesso a um banco? Claro. Andam três ou quatro dias para chegarem a um banco. São dias de ida e volta. E têm que ter sorte de encontrar o banco com dinheiro para atender as suas necessidades e depois voltarem. E acabam por perder a produtividade. Há lugares em que encontramos turmas de 125 ou 300 alunos. Isso quando é teórico, porque na prática isso é impensável. Essa é a nossa realidade.

Vimos há dias imagens de uma visita que fez a um local, mas o bispo teve que dormir numa casota de palha improvisada. Os jovens professores têm encontrado condições para poderem permanecer nestas comunas ou aldeias?

Nestas aldeias que estamos a focar, acontece uma situação um pouco caricata. Na sede, onde não há muitos habitantes, já se construiu uma enorme escola, concluída há cinco anos, mas até hoje não se usa. Parece que falta inaugurar. Mas, também, acho que não há condições para que se estabeleça lá o número de professores que corresponde aquela estrutura. Nestas aldeias que eu queria visitar, dada as condições em que vivem, de fome, por exemplo, não há professores enquadrados. Eu tenho encontrado alguns voluntários que têm dado aulas. As pessoas manifestaram que querem aprender português, porque depois não conseguem se inserir na sociedade angolana. Não recebem nenhuma gratificação. Nos próximos dias, vou enviar algum material escolar para que possam estudar. Tinha encontrado alguns quadros, há uns anos, mas nas visitas anteriores vi que eram tábuas que com machadinhos foram cortando e alisando. O giz faziam com mandioca e não sei qual é o processo que eles usam para que escreva. As carteiras são feitas com umas tábuas também improvisadas. Essa é a realidade que se vive neste lugar. Não é o único.

É uma imagem generalizada?

Não posso dizer que seja generalizada. Mas onde tem professores também custa encontrar condições para que eles possam habitar, como casas. Hoje, o jovem professor não quer só casa, mas também um pouquinho de energia e outras condições mínimas. São coisas que infelizmente não encontra nestas áreas um pouquinho distantes. Dá-se a sensação de isolamento. Com o projecto que começou na cidade do Luena, para o futuro, que tenta através das aulas digitais ajudar as crianças a se desenvolverem, está implementado em escolas católicas primárias no interior do Moxico, do Luena, e também em outras partes do país. Neste momento, são 274 escolas a nível nacional. São mais de 170 mil alunos que estão neste projecto em Angola e mais de oito milhões no mundo. E começou no Luena. A ideia central para mim é que as crianças pudessem ter acesso a esses meios digitais mesmo na província do Moxico, onde tínhamos tantas dificuldades em matérias de educação. O meu sonho seria que no futuro, nestas aldeias com um pouco mais de população, se pudesse também implementar um projecto semelhante. O professor prepara a aula através de um computador que tivesse um servidor, mas o fornecimento de energia para estas escolas que estão no interior fazemos através de energia solar, por intermédio de sistemas fotovoltaicos. A nível da província do Moxico, se for à cidade do Luena já temos 24 kits que servem para estas escolas que usam estes meios digitais. A ideia central é que o aluno que está lá tem direito também aulas de boa qualidade, bons conteúdos e boas dinâmicas, como pode ter uma outra criança aqui na cidade de Luanda.

“A água que alguns bebem até parece chocolate”

Há afirmações do bispo dizendo que não concorda com o número de habitantes que o Censo de 2014 atribuiu à província do Moxico. Assim sendo, é possível traçar políticas adequadas quando se desconhece o verdadeiro número de habitantes?

Claro que é uma ferramenta muito válida para se poder fazer um plano de desenvolvimento. Sabemos que há áreas muito difíceis onde o CENSO chegou e noutras mais fáceis, realmente, não. Penso que também passou muito tempo entre o CENSO anterior e o último. Temos que melhorar a metodologia. Mas dá-me a impressão que temos mais população que aquela que o CENSO nos atribui.

Durante algum tempo, o bispo postava nas redes sociais imagens de camiões carregados de toros extraídos das matas do Moxico. Estas imagens pertencem ao passado?

Até à semana passada ainda postei. Mas, estou um pouquinho desanimado de postar imagens, porque sempre continua a mesma situação. Mas estou sempre a comentar. No dia 6 de Agosto, acho que fiz a última postagem de camiões com toros. De facto, o fenómeno continua e é grave. Não somos os últimos habitantes da terra. Pensamos que deverá haver mais habitantes aqui no Moxico, por isso não temos o direito de esgotar os recursos que estão aí há milhares de anos. Temos que preparar para as gerações seguintes. Por isso, temos que fazer um grande trabalho educativo para que estas populações saibam lidar com estes fenómenos. Por exemplo, devem apostar na agricultura de hortas e outros tipos de cultivo que permitem equilibrar, para que nos momentos em que haja menos chuva tenham recursos para sobreviver. E reflorestar também. É engraçado que numa missa, há dois meses, perguntei, para os que estavam presentes, quem tinha plantado uma árvore. Penso que umas 15 ou 20 pessoas levantaram dizendo que plantaram uma ou várias árvores. Depois perguntei: quem de vocês plantou mais árvores do que aquelas que mandou cortar? Aí já mais ninguém levantou a mão. Estamos com um défice muito grande, quando se sabe que, ao cortar uma árvore, devemos plantar no mínimo duas ou três para permitir que a floresta se conserve para o futuro.

O quadro que traça em relação à educação é quase que assustador, É o mesmo que se assiste na Saúde e noutras áreas?

Claro. Aqui temos que ver também que, tal como na cidade de Luanda encontramos muitas realidades diferentes, no Luena também há esta diferenciação. Há escolas que têm um certo nível, universidades, mas também na cidade do Luena há bairros periféricos que não beneficiam das mesmas condições na Educação. Em geral, no que diz respeito aos municípios, podemos dizer que são os mais deficientes. Neste momento, por exemplo, o município do Alto Zambeze tem 48 mil quilómetros quadrados e há só um lugar onde se pode estudar a sétima classe. Temos que ver que este território imenso é maior que a província de Benguela, e só temos uma escola onde se pode estudar a sétima classe. Isso já indica muita coisa. No que diz respeito à Saúde, estive recentemente a visitar o município de Léua e acho que tem dois médicos no hospital, tem 14 postos médicos, mas só um enfermeiro. O hospital da comuna de Liangongo tem só dois enfermeiros durante 365 dias por ano. Para se ter uma ideia do sector da Saúde, quando estive em Lumbala Nguimbo não fiz uma visita ao hospital, mas vamos supor que uma senhora grávida tem que fazer o parto por meio de uma cesariana. Absolutamente não há como fazer isso, porque primeiro, para chegar ao hospital não tem um médico para fazer esta operação. Teria que ir ao Luena, mas não pode. São 250 quilómetros, não há asfalto e não sobreviveria a viagem. Isto é uma situação real. Às vezes na cidade tem um médico, outras não tem ou ainda podem estar três. É muito flutuante. Não há médicos de especialidade, porque, às vezes, até mesmo na cidade do Luena carecemos. Lembro-me que num passado não havia ninguém para a pediatria.

Há muita fome no Moxico?

Temos uma área de fome que é toda a orla da rio Kuando devido à seca e também na comuna de Mussula Mitete, Sandongo, Chikote. Esta situação da fome é provocada pela seca, porque não há condições normais, segundo as próprias. As lagoas onde recolhem o peixe e tiram água para beber secaram. A mandioca e o milho também secou totalmente.

Neste momento, o que deveria ser feito?

Claro que se deve levar alimentos, filtros de água, porque a que eles bebem até parece chocolate. É água suja que elas estão a beber. Uma senhora, que é soba de uma destas áreas, diz-me que estavam pensando emigrar para a Zâmbia.

Mas o que fazer com as pessoas que não conseguem percorrer estas distâncias?

Sabemos que o Moxico não é a única província, existem outras que estão a passar por situações semelhantes.

Hoje fala-se muito da fome no Cuando-Cubango, Cunene, Namibe, mas não se houve muitos relatos sobre o Moxico. Concorda?

Sim. Fala-se pouco do Moxico. Mas temos falado com as autoridades locais e certamente disponibilizaram alguma coisa imediatamente. A nível da Caritás Diocesana começamos uma campanha para recolher alimentos e levar. Num segundo momento vão precisar de sementes, enxadas e suplementos agrícolas. Mesmo que comece a chover hoje, até Janeiro ou Fevereiro vão precisar de ajuda. Naquela área há rios, o Kuando, por exemplo, não fica tão distante. No sistema de vida destas populações, elas não estão habituadas a lidar com essas secas que podem ser recorrentes. A desmatação é um factor que está a agravar esta situação.

O Moxico está a sofrer muito com a desmatação?

Muito, muito. Até hoje é terrível o que está a ser feito nesta província. Com o agravante, apesar de eu não ser especialista, mas dá para ver que a característica do solo vai fazer com que, uma vez desmatado, não cresça mais nada.

‘O PiiM é bom, mas não resolve’

O Plano Integrado de Intervenção Municipal (PIIM) é uma boa solução para os problemas do Moxico?

Não. O problema do desenvolvimento do Moxico é muito sério e há um atraso enorme em relação às outras partes de Angola, Portanto, não é o PIIM que vai resolver, pode minimizar alguns efeitos, mas não é a chave do desenvolvimento. Este seria um investimento superior várias vezes àquilo que o PIIM dá ao Moxico. Evidentemente, é um teste para ver a capacidade local de implementar projectos e optimizar recursos. É também um teste muito grande porque a sociedade civil tem que monitorar aquilo que está a ser feito com os seus recursos. Por exemplo, neste momento a nível do Moxico temos a situação da fome no Sul, no município do Bundas, concretamente nas comunas do Chiume e Muxuma Mutete. Precisam de uma resposta urgente para que a população não morra de fome. Onde saíra estes recursos? Vamos trazer arroz, óleo, fubá de milho. Estes produtos podem sair de Benguela, através do Caminho-de-Ferro, ou de Luanda, directa ou indirectamente. Mas se formos ver algumas regiões aqui ao lado, há excedentes de produção agrícola, principalmente mandioca, que é parte do que precisam aquela população carenciada. Se tivéssemos os caminhos onde uma carrinha Mitsubishi Canter pudesse se deslocar a partir de lá, até às localidades onde as pessoas estão a passar fome, a província do Moxico seria capaz de abastecer-se a si própria no domínio da alimentação, porque há áreas que têm e outras não. Poder-se-ia comprar, o dinheiro ficava lá e assim se criava um mecanismo de desenvolvimento. Mas não temos uma estrada para Calunga, uma ponte ou uma jangada que una Lumbala Kakengue e outra localidade sobre o rio Zambeze, depois vai até ao Sul. Por isso, o PIIM é bom, mas não resolve.

O Moxico está preparado para receber autarquias em toda a sua extensão?

As autarquias têm que ser um fenómeno de todo o país. Se por acaso em algum lugar não houver preparação suficiente, terá que ser em um, dois ou três municípios para que eles possam trabalhar em conjunto. Mas não se pode renunciar às autarquias. Outra coisa tem que ser pensada muito bem para que não se tenha nas autarquias um desenvolvimento a partir dos próprios recursos. Tem que haver um organismo a nível nacional que contemple o desenvolvimento em menor grau que sofreram algumas populações, sem culpa própria. Temos que pensar que o município do Luchazes, que tem Kangamba como a sua capital, em 2002 só tinha umas paredes da igreja como único vestígio de que lá alguma vez houve pessoas, uma cidade e habitantes. Esta localidade nunca foi compensada. Isso não aconteceu também em outras partes de Angola, mesmo nas capitais que foram afectadas pela guerra não houve uma compensação. É preciso que isto compense. Algumas autoridades tradicionais estão muito confiantes disso, como a Rainha Nhakatolo, rei Armando III, e outros têm esta consciência de que não beneficiaram o suficiente e isso criou um atraso relativo. Neste momento, por exemplo, o município do Alto Zambeze tem 48 mil quilómetros quadrados e há só um lugar onde se pode estudar a sétima classe. Portanto, o PIIM é muito igualitário neste momento para equilibrar ou fazer esta discriminação positiva de que precisa a província do Moxico.

Defende que províncias como a do Moxico devem receber mais investimentos que outras?

Com certeza.

Por quê?

Digamos assim: há províncias onde já estão a fazer a segunda ou terceira vez as estradas. Nós ainda não beneficiamos delas. Então como se vai desenvolver o Moxico se não há estradas? O número de professores que se atribuem a uma determinada província não corresponde às necessidades reais. Isso no Moxico é grave. Temos que considerar também a situação geográfica e a história da província. Por isso defendo um financiamento diferente.

Há correntes que defendem que se reparta a província em duas, dando lugar à província do Moxico e também ao Cazombo ou Alto Zambeze. O que pensa destas ideias?

Penso que são pertinentes. Na verdade, salvo erro, há um projecto de três províncias. Acho que, pela dimensão geográfica, seria necessária. A nível da igreja, eu também desejaria que num futuro próximo fosse dividida em várias dioceses.

Há muito trabalho?

É muito trabalho, mas depois a falta de estradas dificulta imenso. A gente faz esforço, anda todo o tempo, depois falta a tua presença na sede. Vais ao Alto Zambeze, mas Kangamba ficou sem a tua atenção. É um pouco complicado. A forma como está a concepção das leis não ajuda o desenvolvimento do Moxico. Quais são as vias mais importantes? Tem sido a que vai do Saurimo-Luau, Luau-Cazombo e a de Saurimo-Luena- Lumbala Nguimbo, que não está concluída. Então a via mais importante é aquela que acompanha o caminho-de-ferro: Luau- Luacano- Luegi Camenha-Léua- Luena- Kangumbe. Esta via é a mais importante. A segunda é aquela que vai ao Lucusse e depois vai dividir o Alto Zambeze para Lumbala Nguimbo e Kangamba. Depois interligar os municípios às comunas. Isso tudo não foi feito. Isso também dificulta a nossa acção. Vamos dar um exemplo: se neste momento o governador da província do Moxico quer deslocar-se ao Cazombo, qual seria o caminho? Tem que ir até Saurimo e daí para o Luau. É muito difícil de governar. Para o nosso trabalho pastoral, isso também dificulta. Estas estradas não foram pensadas em função do desenvolvimento do próprio Moxico. São as estradas da SADC ou feitas com outros objectivos, que não são o desenvolvimento da própria província. Então, a divisão também ajudaria para colocar outros centros de referência que permita uma governação mais razoável.

Tem-se mostrado os reais problemas do Moxico?

Eu faço a minha parte dentro do que me é possível. Não meço as consequências, mas tenho consciência daquilo que estou a fazer, porque nós somos culpados daquilo que fazemos e daquilo que não fazemos.

Tem sido mal interpretado pelas acções que desenvolve?

Há momentos em que somos mal interpretados e há outros em que as pessoas compreendem as razões que nos fazem denunciar e mostrar. Muitas vezes, claro, dou conta que vamos a lugares onde os todos não chegam. E mostrar esta realidade também desperta às pessoas aquilo que acontece. Isso é parte da nossa vida. É normal.

Esse caminho que faz, passando por intempéries, tal como Cristo o fez, não lhe causa medo?

Muitas vezes as pessoas perguntas: como te sentes? É assim: se o senhor é pai, tem três filhos, eles estão doentes, então irás ao hospital com eles. Vai acompanhá-los, tentar salvar a vida. Esta é a nossa atitude. Neste momento, os meus filhos estão numa situação ou problema que parece evitável. A vida passa. Essa criança que hoje tem 10 anos, amanhã vai ter 20. Há muitas coisas, como a formação, se a gente não resolve agora, ele não vai conseguir fazer mais nada. Se a gente começar a pensar nos perigos, na saúde, aí ficamos paralisados. Mas, a força interior que nos move é essa. Todos os nossos irmãos que lá estão são filhos de Deus. E têm que perceber o amor de Deus, porque Ele não vem de helicóptero. Vem através de nós.

error: Content is protected !!