A mudança dos nomes de «Zaïre» e «uige» é uma necessidade

 

Por:Mbala Lussunzi Vita

 

A mudança dos nomes de «Zaïre» e «Uige» é uma necessidade pelo respeito da Identidade Cultural do povo Kongo em Angola. No passado, o mesmo problema foi debatido na Assembleia Nacional, que aceitou as apelações de «Kongo ocidental » e «Kongo Oriental» nos lugares de «Zaïre» e «Uige». Os actuais países africanos, sendo Estados-nações nas suas delimitações/ fronteiras, nasceram da acção dominadora e colonial europeia em África. Numa outra linguagem e em muitos aspectos as designaçães de realidades locais (africanas) que são, por exemplo, os próprios países, as diferentes províncias, os sítos públicos de qualquer natureza e importância, as cidades, as escolas/instituições de formação… não são geralmente em acordo com as identidades ou valores culturais de povos autoctones. Ao contrário, estes últimos, mesmo depois das independências dos seus respectivos países, sentem-se estrangeiros nos seus meios ambientais. Se uma tal visão foi praticada pelo sistema colonial a um nível desprezável, nas antigas colónias portuguesas de Angola e de Congo Português (Angola de hoje) este fenómeno viveu-se de maneira sistemática e absoluta. Até hoje, de acordo com contexto político, social, económico e cultural dentro do qual Angola está a viver desde a sua independência em 1975, a «desangolanização» parece constituir um objectivo a atingir afi m de criar uma identidade não baseada ainda nos valores de origem africana no comportamento do Angolano: Quantos jovens angolanos de todas as cidades do nosso país têm nomes ovimbundu, mbundu, kongo, utshokwe, nyaneka, umbe, ngangele, ovale…? Se esses nomes, MbAlA luSSunZi viTA (ontem com a ideologia luso-tropicalismo eram qualifi cados de macacos), não são aceites facilmente até agora nas nossas conservatórias onde muitos agentes da função pensam ainda que é uma grande vergonha levar essas «apelações tradicionais»! Na realidade, esta situação é que faz hoje com que a população urbana Angolana não seja culturalmente ligada aos valores natos que são os dos povos Ovimbundu, Mbundu, Kongo, Utshokwe, Umbe, Nyaneka, Ngangele, Kwanyama, Ovale… e todos os outros no nosso território e de ricochete de África é o resultado do combate feroz que os Portugueses levaram contra toda a referência a um elemento cultural que não era deles ou que não fazia a glória da grandeza do «Portugal » e a supremacia do «Homem branco» sobre o «Homem preto», o «Negro». Assim, em todas as circunstâncias, qualquer apelação ou designação de origem africana deveria desaparecer para não entrar na memória colectiva e ser valorizada. Onde não era possível fazer isso, a norma a seguir era deformar simplesmente a palavra e de seguida, organizar uma grande campanha de descrédito sobre a sua forma africana. Por ideologia ou por ignorância, este trabalho era um processo de «portugalização» de todos os aspectos da vida para fazer de toda a população em Angola dos «Brancos» em África. Nesta lógica, e com tempo, a pele (cor da pele) não deveria ser um elemento de discriminação entre os habitantes de Angola. Em aplicação desta lógica, muitas palavras (e conceitos) são totalmente deformadas e não podem hoje ser entendidas nem em Português, nem numa das línguas do país . Como «o hábito faz a segunda natureza de uma pessoa», essas apelações transformadas são assim aceites hoje e, às vezes, parece que não incomodam ninguém. Mas, neste momento de «deterrar o nosso passado» afi m de lconhecêlo realmente no âmbito de valorizar as experiências de que descendemos e, ao mesmo tempo. somos os continuadores, convém interrogar algumas apelações que não nos degnifi cam; é o caso da palavra «zaïre», a actual apelação da Província Angolana cuja cidade de Mbanza Kongo é a sua Capital. Para bem situar a problemática, é necessário descrever a confusão dentro da qual teria nascido esta palavra. De onde vem a palavra«zaïre»? A historiografi a e a memória colectiva informam as circunstâncias da deformação, de um lado, de muitas palavras locais desde os primeiros encontros entre Akongo e Portugueses; e de outro lado da africanização de muitas palavras portuguesas (europeias) a partir da chegada dos portugueses (europeus) nas terras do Kintotila kia Kongo . Em muitos casos, existiu uma má percepção, pelos Portugueses, das palavras e conceitos que usavam os Akongo. É isso que aconteceu com a palavra «nzadi» que signifi ca em língua Kikongo «grande rio» . Na realidade, antes da chegada dos Europeus, os Akongo chamavam o seu mais grande rio com o nome de «Nzadi Mwanza» . Os Portugueses, naturalmente e pelas razões ocidentais, não estavam preocupados dem entender e perceber o que falavam os seus interlocutores locais que, neste caso, diziam que o nome do rio era «Nzadi Mwanza». De sua percepção, e deixando cair o nome de rio, eles deformaram a palavra «Nzadi» para escrever «Zaïre». Ao contrário daquilo que veícula a literatura escrita (naturalmente de origem europeia), antes da sua chegada, os Portugueses sabiam da existência do povo Kongo e sobretudo tinham informações precisas sobre a sua organização político- administrativa, das numerosas riquezas que a terra Kongo era dotada e que os Europeus em geral e os Portugueses em particular procuravam desde há séculos. Tal é tambem o ponto de vista de Isidore Ndaywel è Nziem quando salientou: «Não é impossível que o contacto ofícial tenha sido precedido por alguns outros contactos que foram guardados segredos enquando o padrão não era ainda plantado» . Do meu ponto de vista, se conhecemos o que aconteceu sobre a deformação de uma realidade que tem a ver com aquilo que somos, será que não podemos corrigir um dado histórico para conformá-lo àquilo que era realmente o nosso passado? Também é esta preocupação legitima que os representantes do antigo poder politico de Kintotila kia Kongo, reconhecidos pelo Estado angolano e que organizam os seus trabalhos no «Lumbu » em Mbanza Kongo, têm colocado ao Presidente do nosso país aquando da sua visita a esta mesma cidade de Mbanza Kongo alguns dias depois do Fest-Kongo : mudar a apelação da «Província Zaïre» para «Província Akongo». A solicitação dos Representantes do Kintotila kia Kongo, junto com o Presidente João Lourenço, é uma antiga preocupação dos Akongo de Angola nas actuais duas províncias, onde a maioria da população faz atenção a sua identidade cultural e não aceita as apelações de «zaïre» e «uige». É neste sentido que o problema foi colocado e debatido a Assemblea Nacional que aceitou as apelações de «Kongo Ocidental», no lugar de «Zaïre» e de «Kongo Oriental» além de «Uige». Pelas razões históricas e considerando o facto de todos os descendentes dos Ancestrais Akongo não se encontram-se em nenhuma província de Angola, nem num país africano, e como é necessário para eles, guardaram para sempre a sua «unidade cultural»; essas apelações de «Kongo Ocidental » e de «Kongo oriental» têm a vantagem de respeitar uma das visões tradicionais Kongo, segundo sa qual o nome de uma pessoa ou de um outro elemento seu tenha um signifi cado de acordo com os valores culturais; e de inserir os diferentes espaços antigamente Kongo nos seus respectivos Estados actuais. Assim, se guarda também, na memória colectiva comum kongo, a identidade plurial Kongo; traduzindo o princípio da unicidade na diversidade, hoje em dia transfronteiriço. D que antecede e para dizer algo sobre a proposta de trocar o nome de «zaïre» com o de «akongo», pode haver risco de criar um sentimento de exclusão na parte dos outros Akongo que não são desta província de Angola. Porquê, a palavra «akongo» é o plural de Kongo quando signifi ca «Pessoa».

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