Associação de autistas pode criar centro de acolhimento

A única instituição que presta cuidados de forma gratuita a autistas no país tem registado mais de 400 crianças, algumas em estado de vulnerabilidade. A maioria dos beneficiários não estuda e no novo Centro de Actividades Ocupacional, cedido pelo governo há três meses, a associação quer oferecer o mínimo de condições que se adapte às exigências internacional do autismo.

Milton Manaça

Parte das crianças, adolescentes e jovens controlados pela Associação de Apoio a Pessoa Autista e Transtornos Globais de Desenvolvimento (APEGADA) encontram- se abandonadas pela família e nunca tiveram acesso à uma escola pública ou privada, rejeitada pelo estigma.

Os autistas deste centro recebem aulas terapêuticas apenas três vezes por semana, considerado insuficiente face às particularidades que as pessoas portadoras desta deficiência mental apresentam. “Com um centro de acolhimento beneficiariam de um acompanhamento multidisciplinar, teriam a oportunidade de estudar como outras crianças e sonharem como um futuro”, defende António Teixeira, presidente da APEGADA

. A associação recebeu novas instalações do Ministério da Acção Social Família e Promoção da Mulher (MASFAMU), localizada na Via Expressa, Benfica, que, apesar de não estar equipado, pode ser adaptada à realidade dos autistas. O novo centro foi cedido com três casas composta por quatro a seis quartos cada, com a promessa de nos próximos meses receberem uma quarta casa no mesmo espaço, actualmente ocupada por uma universidade.

A intenção é transformar os quartos em salas de aulas normais e terapêuticas, áreas lúdicas e dormitórios masculinos e femininos. O imóvel está composto ainda por um refetório com arrecadação, uma lavandaria e um posto médico, que também aguarda por equipamento, médicos e enfermeiros. As crianças da APEGADA foram alvos de despejo há três meses por dívidas nas antigas instalações.

Na época, solicitaram o apoio da ministra do Estado para área Social, Carolina Cerqueira, que prontamente anuiu a causa e encetou contactos com o MASFAMU para cedência do novo espaço. Além disso, tem ajudado a associação com doações de bens alimentares e electrodomésticos. A intenção da APEGADA, em criar um centro de acolhimento, tem o propósito de garantir a continuidade de cuidados das crianças e adolescentes, assim como visa atender muitos pais que têm manifestado incapacidade de cuida-las.

“Queremos ter uma instituição para que quando partirmos para o além termos a certeza de que os nossos filhos estão a ser cuidados num local apropriado”, disse António Teixeira, lembrando que a associação até o momento é o única que presta cuidados de forma gratuita. O Centro de Actividades Ocupacional beneficia 405 crianças, adolescentes e jovens, em Luanda. Deste número, 70 pertencem a famílias que manifestam incapacidade em cuida-las e 16 encontram-se em estado de abandono. O centro de autistas presta apoio na vertente psicológica e recreativa para desenvolver capacidades cognitivas das crianças, acompanhadas por psicólogos, psiquiatras, terapeutas e sociólogos voluntários.

Prestação social

António Teixeira mostra-se agradecido pelo apoio das autoridades governamentais, mas sublinha que, para este tipo de patologia, o ideal é uma prestação social por grau de incapacidades, na rúbrica do OGE de combate à pobreza, para facilitar a inserção nas escolas e mercado de trabalho, tal como acontece nos outros países. Esta prestação social, de acordo o nosso interlocutor, já é uma realidade em alguns países da CPLP como Moçambique, Cabo Verde e Portugal e na África Austral, em países como a Namíbia, Zimbabwé, Zâmbia e Congo Brazzavile, que têm leis específicas de protecção de pessoas com deficiência intelectual.

Formação para cuidadores

Actualmente, trabalham no centro de apoio cerca de 16 pessoas, entre cozinheiras, vigilantes e terapeutas voluntárias. A APEGADA diz ser insuficiente face ao número de crianças que controlam. Segundo António Teixeira, a associação tem cooperado com a congénere do Porto, em Portugal, com longos anos de experiência em cuidados de crianças.

Não sabemos se o centro é provisório ou definitivo

Volvidos quase três meses desde a cedência do centro, os membros da associação de autistas não têm nenhum documento que comprove se o centro lhes foi cedido de forma provisória ou definitiva, o que os inibe de fazer alterações no imóvel para se adaptar à realidade das crianças. O que sabemos é que foi incumbida a área jurídica do MASFAMu para nos enviar todo protocolo, mas até hoje não temos nenhuma resposta, disse António Teixeira, acrescentando que o desejo é ter um protocolo assinado que lhes dê legitimidade. A APEGADA teme que depois de alguns anos sejam retirados novamente deste espaço e tenham de procurar outro local para meterem as crianças. A associação espera também pelo cumprimento da promessa feita pelo Ministério da Saúde no dia 18 de Agosto de 2018 para a disponibilização de fisioterapeutas, neurologistas, psiquiatras, pediatras e psicólogos

 Sobre o autismo

O autismo é um síndrome que se manifesta por alterações presentes desde idades muito precoces, antes dos três anos de idade e que se caracteriza por desvios qualitativos na comunicação, interacção social e no uso da imaginação. O choro quase ininterrupto, uma inquietação constante ou uma apatia agravada também merecem atenção. A criança autista se incomoda com o toque, com alguns sons e com certas texturas de alimentos, o que chega a dificultar demais a transição do leite para as comidas sólidas, já que o autista tem os sentidos afectados. A doença atinge mais meninos – quatro para cada menina. As causas ainda são desconhecidas, mas acredita-se que a sua origem esteja relacionada com anormalidades em alguma área do cérebro, embora não exista um estudo conclusivo nesta matéria. Segundo especialistas, o autismo não tem cura, mas o tratamento pode melhorar a condição de vida do autista. Em Angola, o custo para o tratamento e acompanhamento de autistas nos centros privados ronda os 3 milhões de Kuanzas/ano.

 

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