“Depois do sopro da vida, a única coisa que nos suporta é a esperança”

defensor da angolanidade e dos valores intrínsecos do seu povo. o músico Dog Murras, que neste Sábado, 31, vai à praça da independência não para autografar um CD, mas sim, o livro “Matemática da Coerência”, é o nosso interlocutor. Com ele falamos sobre os projectos que tem em curso, político, sociedade e obviamente cultura, o mote da sua acção enquanto artista e foi peremptório em dizer que está cada vez mais temerário com o futuro da já de si escassa Cultura da nossa terra

Dog surge à ribalta angolana como músico, depois o vimos como empresário, activista cívico e social, e agora nas vestes de escritor/autor. Que Dog Murras temos hoje?

Um sobrevivente dos “Zig Zags” da vida. Um homem livre com a mente e o espírito livre .

“Matemática da Coerência” é o título do seu livro. O que é que os leitores em Angola podem esperar dele, depois de já ter sido apresentado no Brasil?

“Matemática da Coerência” é um livro escrito com cheiro e tempero da terra mãe Angola, por um jovem angolano que conhece as competências e também as debilidades dos Jovens angolanos, por isso compartilha as suas experiências e deixa indicações que podem ser percorridas para que eles encontrem caminhos mais flexíveis no xadrez da vida.

Refl exões em torno do que é angolanidade, a chamada de atenção aos jovens no sentido de despertarem entre outros assuntos. Sente que o jovem angolano anda muito distraído?

Acredito no verdadeiro potencial dos angolanos e a minha chamada de atenção cinge-se ao facto de levá-los a crer que “Nós Podemos Mais”.

Há aqui um aspecto que salta à vista em relação ao livro, é que 50% das receitas serão revertidas a favor das famílias do Sul de Angola. Confi rma?

Confi rmo sim, que 50% do total das receitas serão destinados a ajudar as famílias do Sul de Angola, que hoje sofrem as consequências da seca naquelas zonas do nosso país.

Este gesto de solidariedade não é a primeira vez que o faz. Recentemente vimo-lo a doar material didáctico a uma escola em Cacuaco. O que mais o comoveu?

Olha, existem causas que a malta escolhe defender e existem aquelas causas que nos escolhem. Tudo aconteceu de forma natural, fui convidado a visitar o projecto social e fi lantrópico e escola comunitária “Esperança do Saber” junto com os colaboradores do “Grupo Acção Jovem” e os activistas sociais MC K e Gansta, e para lá levamos material didáctico. Postos lá fomos tocados pelo estado em que encontramos a escola e decidimos valorizar o gesto do irmão João Reis e principalmente por causa da repercussão positiva nas redes sociais, onde as pessoas se mostraram interessadas em colaborar para a melhoria das condições básicas da escola, e daí lançamos a campanha “Nós só podemos contar Connosco!!!”. Assumimos o apadrinhamento e estamos já a desenvolver o projecto de reabilitação daquele espaço, e como a maioria dos doadores são os internautas, faremos vídeos periódicos do desenvolver dos trabalhos no terreno.

Como caracteriza o actual estado da música angolana em relação há alguns anos, onde as difi culdades eram maiores, mas havia melhor qualidade artística e melhor conteúdo?

Eu costumo dizer que o estado da música angolana refl ete-se no estado da sociedade angolana, pois os artistas, principalmente os da nova vaga, são o principal barómetro da forma de ser e estar dos nossos jovens. E num país em que os pais deixaram de exercer o papel de pais, e onde se promovem festas, bebidas alcoólicas, a nudez feminina e a futilidade da forma em que se promovem, não podemos esperar que os jovens se comportem de forma normal.

É sobre conteúdos que o Dog, digamos, revoluciona o Kuduro, que, apesar de ser dança trouxe a componente mensagem. Pensa da mesma maneira?

‘Ya’, acredito que foi um pacote onde devemos incluir a consciência cidadã, o amor à bandeira, e depois as mensagens que valorizam a nossa angolanidade, o facto de sermos várias etnias que formam um só povo e uma só nação, a beleza da urbanidade dos nosso hábitos e costumes, os musseques de onde viemos todos e os ricos detalhes da nossa sócio-cultura.

O facto de ser um activista e de retratar muito o dia-a-dia do angolano nas suas letras, sobretudo as difi culdades, fez com que algumas portas se fechassem?

Sim, porque Angola nunca foi um país democrático, tudo girava em torno da visão e supervisão do “Chefe” e não havia condescendências para quem ousasse vir numa direcção que não fosse a indicada pelos “tais”, resultado, hoje o país está mergulhado na desgraça, com elevadas debilidades sociais; falta de emprego e salários muito baixos. O povo está a pagar a factura de um pato que nem sequer as penas e o bico recebeu, para comer ou pra se coçar e por incrível que pareça, não há ninguém para assumir as culpas.

Sei que, para o livro, estava previsto o seu lançamento no início do mês e não f nal. O que terá acontecido?

Esse problema tem a ver com a questão de um alerta vermelho nas alfândegas brasileiras e haver, a partir de agora, uma rigorosa inspeção nos despachos de cargas do Brasil para Angola. Graças a Nzamby, já temos os livros em nossa posse e dia 31 de Agosto vamos avançar para a Praça da Independência.

 O que é que o fez na altura emigrar para o Brasil e por quê o regresso nesta fase conturbada fase à crise económica?

Quando uma porta se fecha, outras abrem-se, e foi graças a minha saída de Angola que pude apurar a minha arte musical com Carlinhos Brown e outros artistas, pude ser um colaborador na luta contra a pobreza na África Austral e pude também desenvolver alguns parâmetros do ramo empresarial entre o Brasil e a África do Sul. Então não tenho que reclamar.

 Por que razão regressa ao país?

Eu retorno porque Angola é o meu país, a única bandeira que defendo com garras e dentes, e ajudar a empurrar este que pode ser o último comboio para o progresso. Ao formar a “Acção Jovem Angola” pretendo utilizar o meu capital simbólico e ajudar a mudar consciências, que é o maior dos desafi os que enfrentamos hoje e que, caso não seja feito, pode perigar o amanhã do amanhã. Carta do Servente é dos maiores sucessos do Dog. Retrata a vivência de muitos angolanos na diáspora.

 Como olha agora para essa onda de angolanos a emigrar sobretudo para a Europa?

É triste, porque temos um país que tem tudo para dar certo, mas a ambição desmedida dos nossos servidores públicos negou-nos o passe para um futuro digno. Depois do sopro da vida a única coisa que nos suporta é a esperança e, infelizmente, o país foi submerso num buraco tão profundo que as pessoas começaram a perder a esperança e, diz-se, que em tempos críticos as pessoas não se importam de escolher monstros para os proteger. Cansados de caminhar nesta esteira de academia de musculação, onde andas, andas, transpiras, cansas-te, mas nunca sais da mesma posição, sendo assim, qualquer lugar que te garanta o mínimo de qualidade de vida, serve.

 Uma das frases que muito usa finalizando os seus textos nas redes sociais é “Nzamby num ferra”, como olha a proliferação de igrejas e de pastores e como pensa que a sociedade deve resgatar os seus valores?

A palavra é inspirada em Jesus Cristo, que foi o Mestre dos Mestres e o homem mais simples e desapegado aos bens materiais que passou por este planeta, portanto, é inadmissível que as pessoas que o representam, tentem apresentá- lo como um comerciante que cobra pelo excesso de fé dos mais pobres.

A própria bíblia adverte sobre a vinda dos falsos profetas, mas numa sociedade como a nossa, que perdeu a sua raiz, as pessoas estão desesperadas em busca de soluções imediatas, e inadvertidamente buscam estas soluções nas igrejas, nos quimbandas, ou em qualquer lugar que traga resultados plausíveis. A nossa solução é apostar prioritariamente na educação. A educação liberta e dá caminhos para olhar com os olhos de ver.

 Como olha para o novo cenário político, cultural e social angolano?

Quanto ao cenário político eu defendo a ideia de que a nossa Política não é ética e a política sem ética não tem lógica. No que toca ao cenário cultural, nada de novo, aliás para ser franco devo confessar que estou cada vez mais temeroso quanto ao futuro da já escassa Cultura da nossa terra. O meu olhar no panorama social é direcionado em como está o nosso povo depois de tantos makongos (problemas), a começar pelo período pós-independência, tida como um momento de glória, luz e de muita esperança para o povo e para o país, que foi totalmente frustrada por uma gestão pública irresponsável.

Os resultados disso estão aqui, visíveis para os olhos de quem quiser ver e ouvidos de quem se predispuser a auscultar o outro. Recentemente nas redes sociais aprece com Rafael Marques, Gansta e MCK. O que têm em comum?

Somos “Homo Angolensis”, irmãos angolanos, verdadeiros fi – lhos da terra com pensamentos activos que clamam por uma Angola melhor, mais justa e inclusiva.

Que outros projectos têm em meta a curto-médio e longo prazo?

Juventude, Educação, Cultura e Emprego. É esta a bandeira de luta da Acção Jovem Angola.

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