Protecção exagerada aos alunos com necessidade especiais “motiva”exclusão

Quem defendeu tal apologia é Miguel Carlos, que se identificou como professor do ensino especial, no Huambo e, por sinal, tem problemas auditivos, embora fale com naturalidade considerável

Foi durante uma sessão de aulas do projecto Aprendizagem para Todos (PAT), que decorria na segunda quinzena de Agosto em pleno Colégio Comandante Marien NGouabi, que o instrutor Miguel Carlos desencorajou os professores primários a terem pena das crianças com necessidades especiais.

Em causa, segundo adiantou, estava o sentido inverso da atenção exagerada dos educadores do primeiro nível do ensino vigente no país, em relação à vontade desses petizes de conquistar espaço e tempo, superar obstáculos e procurar a sua auto-afirmação. “É que se os colegas cuidam demais desses miúdos, ao ponto de até os porem ao colo, enquanto orientam as brincadeiras ou outras actividades recreativas e pedagógicas, com medo de eles escorregarem, cairem e aleijaremse, ou porque não vão alcançar os resultados requeridos e serem excluidos completamente”, declarou o instrutor.

Miguel Carlos compreende que sejam sobretudo as professoras a ter mais esse sentido de protecção, mas desafia-as a observar com bastante atenção as reacções das crianças com tais necessidades, quando estão sob guarida. “Quase que pulam do colo da guarda, para participarem na corrida, no arremesso da bola, na gritaria, enfim”, detalhou o educador, realçando que era nestes e noutros gestos dos garotos dessa natureza que os docentes deviam despertar para não lhes limitar a vontade de explorar o espaço.

Para sustentar as suas alegações, Miguel Carlos recorreu aos preceitos do pedagogo Jean Piaget para lembrar que “as primeiras noções que a criança aprende são as de espaço e tempo”. Por isso, quanto mais deixarmos

a criança entrar em contacto com esses dois inevitáveis factores, explorando- os, ela mais aprende, soube O PAÍS do professor do ensino especial, que fez referência à sua própria experiência, até finalizar a formação na instituição superior pedagógica do Huambo. “Outra informação, que vale a pena reter, tem a ver com o facto de concebermos a tipologia actual e actualizada de alunos com necessidades especiais”, disse. “Hoje já não são os diminuídos físicos, cegos, surdos-mudos, mas principalmente aquelas crianças cujo processo de assimilação é retardado ou obstruído por quaisquer situações do seu meio ou do meio em que se encontram”, asseverou o entrevistado, tendo realçado que, por exemplo, muitos professores não sabiam que os alunos que dormiam nas aulas tinham problemas de audição

. Para lá das deficiências físicas É, exactamente, esse padrão da dimensão do universo de alunos com necessidades especiais diversificados que o PAT veio propor, atendo-se, principalmente, aos rapazes que têm dificuldades para aprender e apreender os conhecimentos que lhes são transmitidos.

A visão multifacêtica do Projecto Aprendizagem para Todos em relação a este fenómeno encontra bases nos recomendados critérios de actuação, em salas de aula, que,segundo o Módulo (manual) de Diferenciação Pedagógica, se resume em colocar as crianças sempre a trabalhar em grupo.

O trabalho autónomo surge como uma modalidade viável, por ser o processo que envolve os alunos a realizarem tarefas sem assistência directa do professor, podendo a apresentação ser individual ou colectiva. Carlos Miguel declarou que, normalmente, os temas que alimentam essas actividades são propostos por professores ou pelos próprios alunos Oportunidade de exposição aos visados O coordenador da ZIP 3 da histórica vila Robert William (Caála), Victorino Miguel, ressaltou a necessidade e urgência a de se dar vez e voz a essas crianças, a fim de poderem expressar as suas motivações e aspirações, antes, durante e depois das sessões de aula. Aliás, o responsável serviu-se do facto de o instrutor Carlos Miguel ter estado nessa condição, expondo aos professores as suas valências e competências sobre a área, para demonstrar que as aulas práticas acabam por ser mais compreendidas. Importa ressaltar que, enquanto decorria a formação, na sala da escola Marien Gouabi, onde estava Carlos Miguel, este beneficiava da tradução directa da professora Graciana Natália, numa clara demonstração de lição inclusiva e participativa. “Porque o nosso instrutor da escola especial Carlos Miguel, fala bem, mas não ouve em condições.

Esta é a razão que nos levou a pedir à professora Natália para vir com ele e surpreender os professores formandos com uma tradução para linguagem gestual. Questionado sobre se o gesto vale como exemplo a acatar imediatamente, Victorino Miguel reconheceu que os professores primários não possuem habilidades para comunicar por via de linguagem gestual, por isso anunciou que a inserção dessa temática nos módulos de apoio do PAT constitui um desafio aos docentes para se prepararem, posteriormente, e receberem formação nessa área. Para os professores João Baptista e Sousa e Francisco Epamba Cassinda, os colegas de ofício deviam consolidar os conhecimentos teóricos que receberam do PAT e avançar para o exercício de identificação dos alunos com necessidades específicas, nas suas turmas, bem como evitar o exagero na protecção dos mesmos.

Receio das Maquinas de Braille

Conquanto tenham assegurado que as metodologias da educação especial agrupam ferramentas para os munir de capacidades para lidar com os estudantes com necessidades, muitos são os professores primários que ainda receiam tocar nas máquinas Braille. o País constatou essa situação, com maior realce, nos municípios de Mungo, tchikala tcholohanga, ukuma e longonjo, província do Huambo, bem como em Camanongue, Cameia e luau, no ciclo provincial do Moxico, onde muitos docentes chegaram mesmo a revelar o receio que têm das máquinas de escrever de apoio aos indivíduos com deficiência visual.

A missionária Maria inês Bartolomeu da escola João Paulo II  localizada na sede municipal de Lumeje-Cameia, considerou que é preciso respeitar o desconhecimento dos professores em relação ao referido meio técnico, porque na realidade deles este dispositivo não se vê, quanto à possibilidade de uso das mesmas, a irmã da congregação do Santíssimo Salvador é de opinião que o projecto Aprendizagem para todos crie uma série de formação para exercitar o manejo, de modo a orientar os petizes que os docentes poderão encontrar nas turmas. Maria Bartolomeu, que é também a coordenadora da Zip do PAT  local, manifestou o desejo de ver já esses instrutores da Braille, na fase do prolongamento do projecto Aprendizagem para todos, que ganhou a denominação de “reforço”. o seu congénere do ukuma no Huambo, Norberto Braga, entende que, para não se perder muito tempo, o Ministério da Educação devia solicitar os préstimos dos professores das escolas de deficientes visuais. “Como esses colegas já lidam com esses acessórios e conhecem a nossa realidade, é mais fácil ele nos instruírem e passarem a sua experiência”, sentenciou Norberto Braga, tendo adiantado que não rejeitaria qualquer outra solução, desde que os tirassem do obscurantismo.

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