Seca severa agudiza-se no Cunene e provoca desnutrição

Dom Pio Hipunhaty considera negativo o balanço do programa de emergência lançado pelo Governo, há três meses, para mitigar a seca que assola a província do Cunene, sendo que a situação agudizou-se.

Norberto Sateco

O bispo da diocese de Ondjiva, Dom Pio Hipunhaty, denunciou a falta de transparência na contratação das empresas para a perfuração de furos de água na província do Cunene, alegando haver um nível de inexperiência alarmante. Em declarações a O PAÍS, o bispo disse não compreender o envolvimento de pessoas que desconhecem a realidade das comunidades neste projecto que visa a mitigação da seca severa que afecta a região há vários anos. “Muita gente que concorreu para fazer trabalhos de perfuração de furo e distribuição de água nunca o fizeram, não têm experiência”, denunciou.

Na opinião do prelado, este projecto devia ser mais abrangente, ou seja, inclusivo, auscultando as comunidades por perceberem melhor da sua realidade e as possíveis vias de mitigação dos efeitos da seca. “Tudo é tratado de cima sem escutar as pessoas necessitadas que já trabalham há anos nestas emergências ” desabafou, avançando que esta situação torna difícil a resolução deste problema que está a afectar as pessoas e o gado.

Apesar de acreditar na vontade de o Executivo implementar o projecto, aponta haver falta de capacidade por não se recorrer às pessoas certas neste processo.

Quadro desolador

Dom Pio Hipunhaty afirmou que a situação da seca no sul agudizou- se nos últimos tempos, numa altura em que a população continua a padecer de desnutrição profunda e o gado a morrer em massa.

Segundo a fonte, as autoridades perderam a conta do número de cabeças de gado que já sucumbiram por falta de pasto, reforçando que os criadores tradicionais estão a abandonar as principais zonas de transumância, tornando a vida da comunidade mais difícil ainda. Informou que, face às consequências da seca severa, várias escolas estão fechadas por falta da água e os equipamentos que chegaram à província para fazer furos não alteraram o sombrio quadro. Segundo os últimos dados números fornecidos pelo Governo para o Plano de Desenvolvimento Nacional de Angola(PDNA), existem mil e 139.064 pessoas afectadas pela seca nas três províncias, sendo 755 mil e 930 (Cunene), 205 mil e 507 (Huíla) e 177 mil e 627 (Namibe), respectivamente.

O relatório revela que a situação geral nas áreas afectadas tem vindo a deteriorar-se com o aumento dos casos de subnutrição, abandono familiar, violência doméstica, produção de carvão, bem como o agravamento da desflorestação e a degradação contínua dos recursos hídricos na região. A informação revela que na província do Cunene, a mais afectada pela seca, os casos de subnutrição passaram de mil e 357 para nove mil e 999, em 2018, enquanto que na Huíla foram registados 105 casos, em 2011, passando, em 2017, para mil e 969, mas com um pico maior, em 2015, quando atingiu os 6 mil e 044 casos.

Doações aquém das necessidades

Apesar de serem consideradas bem vindas pelas comunidades, Dom Pio Hipunhaty disse que as mesmas não cobrem as necessidades das populações, tendo exemplificado haver aldeias que recebem um saco de fuba de milho de 25 quilogramas. “ Esta fuba é distribuída a várias famílias, cada família com sete membros recebe um quilo”, deplorou, realçando que estes mantimentos são doações, porque a intervenção do Estado com bens alimentares tarda acontecer. Em relação à distribuição de água, o bispo entende que o processo em vigor não é o mais eficaz pelo facto de contemplar uma cisterna por cada comuna. “Não é possível um camião fazer 100 quilómetros em cinco horas para buscar e distribuir água para uma comunidade, porque os outros estão parados por falta de combustível ou pneus”, contestou. Para colmatar a situação, defende a intervenção do Corpo Nacional de Bombeiros com destacamento em todas as comunas.

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