Peça teatral aborda divergência entre igrejas

O tema da sessão foi muito desconfortante para alguns e, curiosamente, durante a anteestreia, um jovem afecto à Igreja Católica, viu-se forçado a abandonar a sala, por não gostar da forma como a sua Igreja foi tratada

Por:Adjelson Coimbra

A companhia de Teatro Horizonte Ngola Kiluange, do Distrito Urbano do Sambizanga, exibiu Sábado no auditório Jinga Mbande em Luanda, a peça intitulada “Onde Está a Verdade?”. A peça, com a duração de aproximadamente 40 minutos, levou a uma reflexão sobre a desunião entre as diferentes confissões religiosas, bem como os conflitos doutrinais que as mesmas adoptam, muitas vezes austeros e, socialmente, podem ter repercussões macabras. Desta forma, com holofotes ao palco, plateia apreensiva e música de fundo, o auditório, adaptado à sala teatral, estava preparado para saber “Onde Está a Verdade”.

Num cenário preparado para um programa televisivo onde se desenrolava a história. Entra a apresentadora, com um ar muito sério e olhar penetrante, cumprimentando os pretensos telespectadores e fazendo a apresentação do que virá a ser o programa. As luzes quentes faziam brilhar a sua indumentária amarelada. Depois da explanação da moderadora, entram, de forma combinada, os convidados, apresentando- se como líderes das igrejas, Adventista do Sétimo Dia, Bom Deus, Pentecostal, Universal do Reino de Deus, Mundial, Testemunha de Jeová, vinham logo a seguir identificados com os seus trajes outros líderes religiosos. A estes juntaram-se outros ligados à Igreja Tocoísta, completamente de branco, ao que se seguiu uma madre o representando a Igreja Católica.

Com é de costume, a apresentadora dá permissão para cada um falar sobre a sua igreja. O primeiro foi o pastor da Igreja Universal que, com o seu sotaque brasileiro, arrancou muitas risadas da plateia. Este episódio engraçado foi mantido, com a pastora da Igreja Mundial, com doutrinas semelhantes à da igreja Universal e um sotaque também brasileiro.

Um pouco à mwangolé, com um português bastante arranhado, por influência do kimbundu, explanou-se o representante tocoísta, cujo seu momento mais hilariante foi quando disse que “Deus encontrou-se com Simão Gonçalves Toco, fundador desta Igreja, em Catete”. De semblante delicado, levantou o padre, com um português bastante formal e arcaico. Para o complementar falou a madre, que linguajava à italiana. Durante a intervenção do ancião dos Testemunhas de Jeová, a líder da igreja Bom Deus interrompeu- o, dizendo que já sentia muita raiva desta Igreja, por ser a causadora da morte da sua irmã, por falta de sangue.

Ao longo da peça, foram mencionadas as manias dos católicos, o barulho produzido nos cultos das igrejas Bom Deus e Pentecostal, bem como os montantes de dinheiro investido nas igrejas Universal e Mundial, sem esquecer o facto de os adventistas não comerem carne de porco e descansarem no Sábado. Também foram questionada as vestes brancas dos tocoístas. Este episódio, que retratou o confronto entre doutrinas foi o clímax da peça. No fim, um sociólogo, disfarçado de bandido invadiu o programa e pôs à prova todos os líderes aí presentes. Fez-lhes entender que não existe nenhuma igreja verdadeira, mas sim um Deus verdadeiro.

Análise Sociológica da peça

Para o sociólogo Daniel Kanga, a divergência entre as igrejas afecta à sociedade, pelo facto de as igrejas serem a consciência moral da humanidade.“Quando a Igreja não apresenta uma certa união, refiro-me concretamente às igrejas monoteístas, que só acreditam em um Deus, a sociedade fica desnorteada. Os fiéis sentem-se traídos pelas doutrinas das suas igrejas e agem de forma errada na sociedade. O seu comportamento dentro da igreja acaba por se espelhar também na sociedade”, assegurou. No entender do sociólogo, o mais importante nisso é olharmos para o objectivo de cada uma dessas igrejas, a salvação da alma.

Crescimentos de seitas incita concepção da peça

Para a criação da referida peça, segundo a porta-voz da Companhia, Vanuza Bunga, inspiramse no número cada vez maior de seitas existentes principalmente em Luanda. O que cria confusão, como na ante-estreia, quando um jovem católico foi forçado a abandonar a sala, por não gostar da forma como a sua Igreja foi tratada Acrescentou que a peça tem uma importância evangélica, por evangelizar e tratar realmente do conflito das doutrinas religiosas. “Pretendemos mudar o conceito de que mais verdadeira do que a fé é a doutrina. Para conceber essa peça, nós encontramos muitos desafios, porque os actores que lá estão representaram religiões contrárias as suas. Foi importante ver as pessoas a acompanharem a peça até o final. Para que percebessem que fomos imparciais e não dizer que falou-se pior de uma igreja em relação a outra”, concluiu

error: Content is protected !!