Uanhenga Xitu renasce no cemitério do Kamussuami

Embora o campo santo represente um local de dor e de luto, ontem Kamussuami tornou-se num espaço de alegria para prestigiar o renascer de um dos mais importantes homens da cultura, com a construção do busto em memória de Uanhenga Xitu, um importante e destacado filho de Angola

Por:Domingos Bento, enviado à Catete

Já passavam das 9 horas quando as flores eram depositadas no busto construído em memoria de Uanhenga Xitu, nome em Kinbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho. O depositar das flores por cima do seu busto, construído no cemitério de Kamussuami, em Calomboloca, abriu o processo de renascimento e de imortalização da memória deste ilustre homem de Cultura que, apesar de ter partido para outra dimensão em 2014, continua a ser uma das figuras mais emblemáticas do nacionalismo angolano. Embora a construção do seu busto esteja a cargo da Fundação que o representa e da familial, visando saudar os seus 95 anos, ainda assim a dimensão e o valor histórico e patrimonial despertou a atenção de todo o país que ontem dispensou parte dos seus mais destacados filhos, das várias áreas, para testemunhar o renascimento do autor de Vozes na Sanzala (Kahitu), Bola com Feitiço, Mestre Tamoda, Manana, Os Sobreviventes da Máquina Colonial e de outras importantes obras, que hoje representam importante valor da literatura nacional.

Em Kamussuami ficaram para trás as diferenças e elevou-se ao mais alto nível o patriotismo e a angolanidade. Por esse motivo, embora o campo santo represente um local de dor e de luto, ontem tornou-se num espaço de alegria para prestigiar o renascer de um dos mais importantes homem da Cultura que Angola viu nascer há 95 anos. O cemitério de Kamussuami, apesar de estar no meio de um matagal, soube transformarse num espaço de liberdade de pensamentos, da arte e do bemfazer, como destacou a historiadora Rosa Cruz e Silva, em entrevista a OPAÍS. Para aquela entidade, a afluência em massa dos angolanos em Kamussuami, foi a prova viva que a Cultura é o valor mais alto que o país dispõe, pelo que defende a sua continua valorização e respeito aos seus fazedores.

A antiga ministra da Cultura disse que Uanhenga Xitu ultrapassou o seu próprio tempo e, com a sua arte, tornou-se, merecidamente, num património nacional a que todos os angolanos devem vénia, respeito e valorização. “É preciso honrar a vida e obra deste mestre, Uanhenga Xitu. Ele deixa importante legado para nós, angolanos. Ao ver a afluência de pessoas de diferentes sensibilidades, só podemos afirmar, sem medo de errar, que hoje, Kamussuami tornou-se numa verdadeira avenida da liberdade. Somos livres, graças a Uanhenga Xitu e a todos aqueles outros filhos de Angola que se bateram pela nossa independência”, notou. Em Kamussuami acorreram homens da dança, do teatro, da literatura, da politica e da musica, como Carlos Lamartine que considerou Uanhenga Xitu um exemplo a seguir pelo valor que representa e pela grandeza das suas obras que, apesar de terem sido escritas num contexto diferente, hoje ainda fazem furor e encaixam-se no actual contexto sócio-cultural com todo o mérito.

Um homem da convergência Pela grandeza do acto em sua homenagem, quem dera que Uanhenga Xitu acordasse para, num minuto, ver a convergência que causou no país, por toda a dedicação em prol de Angola e dos angolanos, como defendeu o escritor Fragata de Moraes, em declarações ao OPAIS. O antigo porta-voz do MPLA considerou Uanhenga Xitu um mestre da arte de fazer Cultura pela forma como soube retratar o seu Calomboloca, terra natal, e Angola no geral, na arte de bem escrever com disciplina, isenção e criatividade. Para Fragata de Moraes, com outros mestres da escrita, assim como Agostinho Neto, por sinal vizinho de Uanhenga Xitu, devem ser homenageados todos os dias e não apenas num dia em concreto. “O homem ultrapassou gerações.

Hoje estamos a falar de um homem que vem de uma geração longicua. E vamos continuar a falar dele por conta da intemporalidade e dimensão cultural que representam as suas obras”, frisou. No entanto, o programa de homenagem à Uanhenga Xitu, um autêntico contador de historias populares, despida do rigor literário, contou com uma serie de homenagens desde colóquios, palestras, venda de livros e actos de homenagens que teve a participação de fazedores de cultura, políticos, diplomatas e outros importantes segmentos da vida do país que convergiram na dimensão do ilustre filho de angola.

Pela sua grandeza, Uanhenga Xitu que nasceu em Ícolo e Bengo, aos 29 de agosto de 1924,tem sido objeto de estudos científicos e homenagens em Angola e noutros países. lém da escritor, foi enfermeiro, sua profissão formal, e exerceu ainda clandestinamente atividades políticas visando a independência de Angola. Foi preso pela PIDE em 1959 no seguimento da detenção no aeroporto de Luanda, tendo sido desterrado para o Campo de Concentração de Tarrafal em Cabo Verde onde ficou de 1962 a 1970.

error: Content is protected !!