“Decretar estado de emergência no Sul do país seria um acto de sabedoria

O professor de Macroeconomia Yuri Quixina defende a declaração do estado de emergência para permitir uma melhor intervenção no drama da seca a que se assiste no Cunene e no resto da região Sul do país. A afirmação foi feita no espaço Economia Real da Rádio Mais (99.1), emitido às Terças-feiras, às 11 horas

O ponto prévio desta edição recai para o drama da fome no Sul de Angola, derivada da seca. Que medidas efectivas faltam para se solucionar o problema?

Antes de avaliar as medidas a serem tomadas, importa referir que é uma situação terrível que as populações do Cunene e do Sul de Angola em geral estão a passar. E isso pode desencadear uma tragédia e, ou, uma catástrofe. Também podemos imaginar um cenário de violência, invasão às lojas para ter-se acesso à comida.

Solução?!

Numa altura em que está em curso a reforma estrutural, a estratégia seria decretar o estado de emergência, porque abriria espaço para canalizar os recursos, que neste momento estão a servir para recapitalizar bancos e empresas públicas, à mitigação da seca. É uma urgência. Decretar o estado de emergência é um acto de humildade e sabedoria da governação. Nós, os africanos, não gostamos de decretar estado de emergência. Estamos a falar de um país que não tem dinheiro.

O Presidente da República chegou a disponibilizar 200 milhões de dólares no início deste drama para solucionar problemas estruturantes ligados aos efeitos destrutivos da seca na província do Cunene. É visível o resultado desse desembolso?

Penso haver muitas promessas e poucos resultados no terreno. Quando ocorre a mão de Deus (terramoto, tsunami, secas…), como nós os liberais denominamos, é que o Estado tem de fazer- se presente. O Estado não deve dar dinheiro às empresas públicas para se recapitalizarem. Não existe economia real com seca.

Penso que já se devia decretar o estado de emergência para apelar à consciência nacional e acudirmos os outros que estão a passar mal. Mais duzentas empresas médias foram certificadas pelo INAPEM na província do Bengo, desde 2012. É um bom indicador?

A minha preocupação é o facto de a actividade económica ter de ser certificada pelo Estado. Padaniel miguel /arquivo rece que o Estado é que está a dirigir a economia… Mas a Constituição confere ao Estado a função coordenadora da actividade económica… Por isso defendo que Angola não vai criar riqueza com foco no Estado. Noutros países tudo é economia, em Angola tudo é Estado. É o Estado que coordena, autoriza, dirige e certifica. Se Steve Jobs fosse angolano, a Apple não existiria, porque foi criada na garagem da sua casa Em Angola isso é crime, porque o Estado tem que autorizar. Temos de mudar o modelo, penso que não seria necessário exigir- se alvará para investimentos de baixo risco.

A questão que se coloca agora é: certificamos. Há sustentabilidade dessas empresas?

Se esperarmos que tudo passe pelo Estado, o resultado será sempre a pobreza, a fome, o desemprego, miséria e, naturalmente, o aumento da criminalidade. Na Caála, província do Huambo, a ADRA desenvolve acções para mitigar o abandono das famílias do campo para as cidades devido a estrangulamentos na cadeia de produção agrícola. As ONG são, geralmente, a extensão da responsabilidade social das empresas e outras instituições que as financiam para fazer esse tipo de trabalhos. É muito interessante. A ADRA é uma instituição que tem feito um trabalho brilhante, identificou um problema na sociedade e quer mitigar e não eliminar. Porque o êxodo rural combatese com medidas estruturais. O êxodo é fenómeno mundial, a China e a Europa vivem esses problemas.

O país gatou no primeiro semestre USD 12 milhões com importação de arroz, que sinais a economia dá com essa informação?

Que a nossa economia é do capitalismo do Estado. Quer dizer que quem importa é o Governo, uma espécie de socialismo moderno. Quem importa é o Estado, quem promove a exportação é o Estado quem divide os dólares… o Estado está no centro da actividade económica. Quem importa, numa economia competitiva, é o povo e as empresas.

O que você destaca da participação do Presidente da República na conferência Japão/ África, João Lourenço falou das privatizações. Vendemos bem as empresas?

Penso que foi o acto negativo dessa participação, porque podíamos ter promovido um fórum para apelarmos aos investidores japoneses a comprarem as nossas empresas. Precisamos de ser mais agressivos na estratégia de atracção de investimentos

error: Content is protected !!