Cruz Vermelha Angola “à beira da morte”?

Trabalhadores com quatro meses sem salário; nepotismo e tráfico de influência; violação dos estatutos; desvio de fundos; queixa na Procuradoria geral da República por gestão danosa e visitas constantes da Inspecção Geral do Estado, eis o diagnóstico actual da Cruz Vermelha de Angola, feito pelos queixosos, que alertam que, se não sofrer uma intervenção, corre o risco de “desfalecer

Por:Romão Brandão

Alfredo Pinto Elavoco, actual presidente do Conselho de Administração da Cruz Vermelha Angola, bem como Simão Caquarta, director financeiro, são acusados por um grupo de trabalhadores daquela instituição de gestão danosa e de estarem a contribuir para o declínio deste importante organismo de calibre internacional. A Cruz Vermelha de Angola (CVA) é uma instituição humanitária sem fins lucrativos, recebe dinheiro do Estado, da Federação Internacional da Cruz Vermelha e de outros parceiros para ajudar os mais carenciados, mas, segundo os denunciantes, que preferem o anonimato, este dinheiro tem sido desviado para outros fins. “Nas contas da CVA foram deixados pela antiga presidência o equivalente a 500 mil dólares, que neste momento praticamente não existem mais. Um mês depois da tomada de posse, Alfredo Elavoco queria comprar um Lexus, mas, por ter sido “reprovado”, passou a transferir dinheiro para a Cruz Vermelha de Benguela e desta para as suas contas pessoais”, disseram.

As transferências são o que consideram “jogada de mestre” e ilegais, porque foram feitas sem a deliberação do Conselho Executivo Nacional da CVA, composto por nove elementos. Pelo facto de o processo de transferência ter tido a anuência do director financeiro, os trabalhadores acreditam piamente que este está em conluio com o presidente. Na verdade, segundo eles, Caquarta tinha sido demitido por Isabel dos Santos, em 2012, aquando da sua presidência, por práticas indecorosas e má gestão. Tão logo o novo presidente tomou posse, Caquarta foi resgatado e o resultado não tem sido bom para os olhos dos trabalhadores, do Conselho Executivo e dos patrocinadores da CVA, dizem. Na Cruz Vermelha, o presidente é um voluntário, não ganha salário, mas o actual estipulou, segundo os funcionários, um salário para si de quase 500 mil Kwanzas/mês, facto que viola os estatutos. Esse tipo de violação e outras práticas não muito boas têm azedado a relação entre os outros membros de direcção e o presidente da CVA.

Mais de 80 trabalhadores sem salários

Os queixosos estão preocupados pelo facto de não estarem a ver acções concretas do presidente para angariar financiamentos de outros parceiros e deixar a CVA com maior capacidade de resposta aos mais desfavorecidos, “como os irmãos no Sul de Angola”, por exemplo, que passam por um grande problema. O presidente da CVA terá contratado uma empresa de segurança pertencente a um seu amigo, segundo os denunciantes, substituindo a empresa deixada pela anterior presidência, que cobra muito mais pelos serviços em relação à anterior. Por outro lado, na direcção, a parte administrativa “quase todos são familiares do presidente”.

Diante destas situações, o clima entre os trabalhadores é tenso, a nível nacional, por estarem há quatro meses sem salário e verem a CVA na “corda bamba”, dia após dia, quando com o dinheiro encontrado seria possível pagar os salários de até Setembro do corrente ano, sem dificuldades nenhumas. A CVA está presente nas 18 províncias do país e conta com mais de 80 trabalhadores, para além dos voluntários. “Por outra, o local onde funciona a ZAP do Maculusso é património da CVA e a ZAP paga, pelo arrendamento, 18 milhões de Kwanzas por semestre. O presidente já recebeu dinheiro antecipado de 4 anos, sendo que este valor não pára nas contas da CVA, pelas informações que temos”, acrescentaram os queixosos.

Tentam destituir o presidente, em assembleia, mas, apesar de já ter sido sugerida a realização de uma assembleia extraordinária para a renovação de mandatos, Alfredo Elavoco invoca falta de dinheiro para realização deste encontro. Para finalizar, os entrevistados disseram que deram entrada de uma queixa-crime na DINIAP, que a remeteu à PGR. De 2006 a 2018 a CVA ficou inoperante, segundo os entrevistados, mas, apesar disso, a antiga presidência conseguiu trazer dinheiro. Já a actual, encontrou dinheiro, está a gastar e não está a trazer fundos. Com estas atitudes menos boas do presidente, dizem que a CVA corre o risco de ser expurgada Cruz Vermelha Internacional, já que este problema mina a imagem de Angola neste importante organismo.

 

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