Guerra entre Bolsonaro e Macron

 

Por: Ricardo  Vita

 

 

A misoginia de Jair Bolsonaro é conhecida. Em 2003, lançou na cara da deputada Maria de Rosário « Eu não te estupro, porque você não merece. Chora agora, chora agora! ». E reiterou a agressão verbal em 2014, dizendo que ela não merecia ser violada por ser muito feia. Este homem indelicado foi eleito Presidente do Brasil no dia 28 de Outubro de 2018. Muito antes da sua eleição, Bolsonaro já estava acostumado a multiplicar comentários infelizes contra mulheres e outros grupos sociais. E recentemente, no dia 25 de Agosto, comentou no Facebook uma publicação que zombava da aparência física da Primeira-dama da França, Brigitte Macron, que aparecia numa foto desvantajosa, comparando- a com uma foto de Michelle Bolsonaro, a jovem e radiante Primeira- dama brasileira, tirada no dia da investidura do marido. O título no perfi l do autor da publicação dizia, em português brasileiro: « É inveja presidente brasileiro (Implícito na bandeira do Brasil) do Macron pode crê » e ao lado das fotos dos dois casais presidenciais escreveu: « Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro? ». O presidente Bolsonaro respondeu, também no seu perfi l Facebook, em referência ao seu homólogo francês: « Não humilha cara. Kkkkkkk ». Macron foi tocado intimamente, obviamente. Nesse género de falta de cavalheirismo, somente o incomparável Donald Trump se saiu melhor. Ele disse à Brigitte Macron, no seu primeiro encontro com ela: « está em tão boa forma! ». Em resposta a Bolsonaro, Macron disse que nunca tinha feito comentário irreverente sobre os seus homólogos. Deplorou os « comentários extraordinariamente desrespeitosos » sobre a sua esposa. « O que posso dizer?, perguntou, é triste, é triste », disse ainda. « Mas é triste para ele e os Brasileiros sobretudo », acrescentou o presidente francês, durante uma conferência de Mas o fundo disso é a Amazónia e o Mercosul. A verdade é que as relações entre Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron não são boas desde a eleição do presidente brasileiro, só deterioraram mais com essa publicação imprensa realizada no âmbito do G7 que teve lugar em Biarritz, em França, e que tinha começado um dia antes da publicação sexista do presidente brasileiro. E afi rmou que espera « muito rapidamente que os Brasileiros tenham um presidente à altura do cargo. Acha que « os Brasileiros são um grande povo e têm um pouco de vergonha de ver esses comportamentos ». Mas o fundo disso é a Amazónia e o Mercosul. A verdade é que as relações entre Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron não são boas desde a eleição do presidente brasileiro, só deterioraram mais com essa publicação. Primeiro, Macron foi o único chefe de Estado estrangeiro que reconheceu a eleição de Bolsonaro dizendo-lhe que « a França iria continuar a trabalhar com o Brasil, mas com respeito à democracia », o que foi mal interpretado no lado brasileiro. Segundo, os dois dirigentes encontraram-se pela primeira vez na cimeira do G20 em Osaka, em Junho de 2019, e houve tensões. E terceiro, Bolsonaro fi cou insatisfeito com a decisão do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, de encontrar-se com ONGs durante a sua visita ao Brasil no fi nal do mês de Julho. Bolsonaro anulou no último minuto a audiência que devia ter com ele e publicou depois no Facebook que tinha ido ao cabeleireiro na hora em que a reunião estava agendada. Os últimos ataques marcaram uma acentuada escalada nas tensões entre Brasília e Paris, intensifi cadas nos últimos dias pela pressão exercida pela França sobre Bolsonaro para agir contra os incêndios na Amazónia. Essa guerra de palavras, com uma rara veemência nesse nível, eclodiu depois dos comentários do presidente francês sobre a urgência de combater os incêndios na Amazónia e isso não foi do agrado do seu homólogo brasileiro. Jair Bolsonaro ficou chateado com a vontade de Emmanuel Macron de incluir o assunto na agenda do G7, um clube do qual o Brasil não é membro, vendo nisso um sintoma de uma mentalidade colonialista. Nisso, se for honesto, Bolsonaro tem razão. O moderno e fi no Macron esqueceu que já não se exclui das discussões os povos envolvidos. Isso lembra uma certa Conferência de Berlim, na qual se partilhou a África como se partilha um delicioso bolo. Mas um dia antes da abertura do G7, que terminou no dia 26 de Agosto, a presidência francesa estimou que, dada a atitude de Brasília relativamente aos incêndios na Amazónia, que não podia deixar de notar que o presidente Bolsonaro mentiu-lhe no G20 de Osaka. «O presidente Bolsonaro decidiu não respeitar os seus compromissos climáticos ou se comprometer com a biodiversidade. Nessas circunstâncias, a França opõe-se ao acordo do Mercosul como foi proposto », anunciou. Jair Bolsonaro faz parte dessa nova onda de líderes populistas sem cultura e mal educados. Ele e os seus congéneres são cristãos reivindicados que exprimem uma desconcertante falta de respeito pelas mulheres, desprezam as opiniões dos mais eminentes cientistas sobre o meio ambiente e ignoram a diversidade entre os seres humanos. Distinguem-se também por um sentimento anti-imigração, um discurso mais ou menos explicitamente nacionalista e racista, a rejeição das elites tradicionais incarnadas por tecnocratas e especialistas. Bolsonaro denunciou a iniciativa de Macron para salvar a Amazónia acusando-o de minar a soberania nacional brasileira. Quanto a Hamilton Mourão, o seu vice-presidente, este havia dito que o Brasil era atormentado por um legado de indolência dos índios e a trapaça dos negros. Também tinha elogiado o branqueamento racial, esse sistema político que, após séculos de escravatura e comércio de escravos, foi realmente implementado no Brasil. Foi o populismo que provocou o Brexit em 2016 no Reino Unido e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2017. O clube dos populistas é composto por pessoas que não sabem que há coisas que já não se fazem ou se dizem como no antigamente no velho mundo machista e racista. Mas agora Jair Bolsonaro escolheu continuar amuado; exige desculpas do presidente francês, chamou- o de mentiroso e questionou a soberania do seu país sobre a Amazónia. E sem isso, nem quer saber da ajuda de 20 milhões de dólares propostos pelo G7 para a Amazónia e anunciou que iria deixar de usar Bic, uma caneta de origem francesa, apesar de ter retirado o seu comentário ofensivo no Facebook. Enquanto isso, Emmanuel Macron continua a defender a diversidade, a paridade e até lançou, esta semana em França, um « Plano Marshall » para combater a violência contra as mulheres. E acima de tudo, continuará a dar-nos uma bela lição de vida: O amor não tem idade.

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