Cameia “empodera” famílias por merenda escolar

Os dirigentes locais gabaram-se dizendo que, com uma medida mais apropriada aos seus munícipes, conseguiram resolver três problemas ao mesmo tempo

O director municipal da Educação de Lumeje-Cameia, província do Moxico, Joaquim Jaime Chimixi, disse a OPAÍS que ele e a sua equipa de trabalho optaram por uma política de merenda escolar adaptada à realidade da dieta alimentar das crianças locais, por via da qual aproveitaram também a promover a venda dos produtos cultivados por pais e encarregados de educação. “Devido aos hábitos e costumes de alimentação daqui, achamos por bem não darmos produtos industriais às crianças, como iogurte, sumo e bolacha, porque não sabíamos qual seria a reacção na saúde delas”, revelou o responsável do ensino no Lumeje-Cameia, tendo acrescentado que a direcção nem sequer se deu o trabalho de experimentar essa medida.

Jaime Chimixi informou que a o desejo da sua equipa e de outros agentes da educação, no município, é assegurar-se de que o alimento de que se vão servir os alunos, na hora do intervalo ou mesmo no início das aulas, lhes atribua energia suficiente para aguentarem as quatro ou cinco horas que passam na escola. “E nós conseguimos alcançar esse objectivo, de tal sorte que os alunos também começaram a ter um aproveitamento melhor”, referiu o director, tendo adiantado que até a presença das crianças nas turmas aumentou consideravelmente. O responsável, que falava de uma dinâmica que se faz sentir no Lumeje-Cameia há coisa de dois anos e meio, detalhou que, sobretudo próximo das escolas primárias, foram instaladas cozinhas adaptadas, onde se pode cozinhar alguns tubérculos, como batata-doce e mandioca, bem como amendoim local, vulgarmente conhecido como ginguba. Esses produtos são adquiridos preferencialmente a partir das lavras dos pais e encarregados de educação dos alunos consumidores, de modo a não fugir do padrão de alimentação dessa classe infantil, bem como suscitar o aumento da produção por parte dessas famílias, que já podem contar com escoamento e venda do fruto do seu trabalho.

Ainda de acordo com Joaquim Jaime Chimixi, aquelas senhoras que, no seio das famílias, não podem participar de forma directa e activa nos cultivos dos campos, normalmente por possuírem alguma limitação de saúde ou deficiência física, são contratas pelas empresas detentoras do programa da merenda escolar, sob orientação da repartição municipal da educação. “Desse jeito, nós resolvemos três problemas com apenas uma política, damos produtos naturais aos alunos, para não termos de correr atrás da saúde, oferecemos oportunidade de venda dos produtos agrícolas das famílias das nossas crianças e empregamos seus parentes”, realçou o director da Educação, tendo sublinhado que, neste último contexto, até ganharam confiança no serviço da merenda. Salientou que a ideia de incluir a facilitação da venda dos produtos dos camponeses surgiu do facto de Joaquim Jaime Chimixi e certos directores de escola e professores terem, inicialmente, observado que irmãos mais novos e alguns parentes adultos dos alunos marcavam presença, nos estabelecimentos de ensino, para usufruírem também da benesse alimentar. Questionado como se processam tais mecanismos até o alimento confecionado chegar à boca da criança, o interlocutor deste Jornal lembrou que as empresas que estão a gerir os recursos financeiros para tal fim financiam as compras e o resto passa a ser com as senhoras que lhes prestam serviços.

Freira fala em merenda intermitente

Uma das instituições de ensino contempladas pelo programa da merenda escolar em Cameia é a escola primária João Paulo II, liderada por uma missionária, da congregação das Irmãs do Santíssimo Salvador, Maria Margarida Inês Bartolomeu.

A freira revelou que a merenda escolar de que se fala tanto no município não deve ser encarada como um programa de distribuição regular. Reprovou o facto de os gestores das empresas responsáveis pelos referidos programas, que, segundo ela, às vezes, nem sequer dão a cara, se preocuparem mais em distribuir os recursos financeiros no fim do segundo trimestre ou no princípio do terceiro. “É difícil as crianças terem a merenda em Fevereiro, Março e Abril, que até são os meses mais difíceis para as famílias. Dão alguns valores quando estiver em curso o segundo trimestre ou só no fim”, detalhou a madre, tendo informado que neste ano lectivo de 2019 as crianças da sua escola ainda não beneficiaram da oferta em causa.

A entrevistada divulgou que, no ano passado recebeu por duas ocasiões, dos emissários da empresa algum valor, com que ela e os seus colaboradores directos preferiram comprar farinha de milho (fuba), açúcar, arroz e leite. Com esses produtos, segundo avançou, conseguiram disponibilizar diariamente papa de leite e arroz-doce, o alimento que a Irmã Margarida considera ter capacidade de atribuir resistência aos pequenos da escola João Paulo II, por ser orientado a consumir- se relativamente quente. Aliás, no entender da missionária do Santíssimo Salvador, os agentes da Educação de Cameia deram-se de contentes quando viram a sua proposta de dar alimentos locais e temperados, considerada válida e aceite pelo titular da repartição municipal da Educação. Informou, igualmente, que, nas ocasiões em que a sua escola não recebeu dinheiro, tiveram a entrega de dois sacos de arroz, igual quantidade de fuba e açúcar e uma lata de leite em pó, uma despesa que ela classificou como bastante insuficiente. “Já recebi um saco de cada alimento que eu mencionei”, lembrou a Irmã Margarida, asseverando que, para este ano lectivo, os seus professores já não contam mais com a merenda.

Empregos suspensos

Enquanto ficam à espera do reatamento do programa de confecção de alimentos para os alunos, as senhoras contratadas para tal fim costumam a estar desempregadas e, consequentemente, é diminuída a produção nas lavras familiares, conforme informou a madre. “Mas, para evitar que essas mães se frustrem e arranjem outros afazeres indignos, por cá, na escola João Paulo II, arranjamos alguma coisa para elas fazerem”, disse, referindo-se a trabalhos de limpeza, estafeta e outras prestações adequáveis.

Sobre o interregno que se regista em cada ano lectivo na agenda de distribuição da merenda escolar, o director municipal da Educação explicou que a disponibilidade de verbas, por parte do Governo, às vezes demora e as empresas também ficam sem muitas alternativas“Ainda assim, temos esperança de que teremos merenda antes desse ano lectivo de 2019 terminar”, assegurou Joaquim Jaime Chimixi, que pediu para não ser entendido como estando a favor do intervalo desse grande bem.

Mais assistência social

Joaquim Jaime Chimixi considera o quadro social da Cameia aceitável, mas lembra que a população não tem muitos recursos, devido à falta de vias de acesso, o que dificulta ainda mais as transações comerciais, ao ponto de ir empobrecendo cada vez mais as famílias residentes. Ressaltou que era necessário esclarecer o mal entendido que se cria à volta da circulação do comboio, pelo qual se atribui facilitadas as actividades comerciais. “Não é para a maior parte das famílias, porque ainda lhes fica cara a passagem do comboio. O que se quer mesmo é que se tratem as vias, para os carros circularem bem e a população se beneficiar disso”, disse o entrevistado. Informou que a maior parte da população se dedica mais ao cultivo dos campos, à pesca e caça oportuna, daí que os dirigentes têm de proporcionar as vias de comunicação, de modo que os produtores, pelo menos, possam vender.

Finalmente, apelou para que as políticas sociais do Governo da província atendam as preocupações da vila de Cameia, principalmente nos capítulos da educação, saúde e transportes, além da agricultura, comunicação e alimentação.

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