Moradores do Mungo deploram empregos ocupados maioritariamente por forasteiros

Pediram para não serem interpretados como tribalistas ou regionalistas, mas revelaram que não se podem calar quando está à vista a ocupação das vagas por parte de jovens provenientes de outros municípios da província do Huambo

Alguns jovens do Mungo, apesar de terem pedido o anonimato alegadamente para não serem retaliados nas próximas ofertas de trabalho, lamentaram o facto de estarem a ver a maior parte das vagas disponibilizadas pelo Estado serem ocupadas por candidatos provenientes de outras municipalidades do ciclo provincial do Huambo.

Os mesmos asseveraram que a proporção de vagas preenchidas por pessoal local estava na ordem de menos de cinco por cento, uma cifra que, segundo eles, não representa a expectativa dos que se inscreveram. “Será possível que, no concurso dos Ministérios da Educação ou da Saúde não podem entrar sete ou 10 professores do Mungo?”, questionaram os entrevistados de OPAÍS, tendo designado ainda as zonas longínquas como as ombalas de Nguenje, Kaunje e MBata, adstritas à comuna de Kambwengo. De acordo com os interlocutores deste Jornal, na primeira não tem escola, mas há muita necessidade. Na segunda, foi construída uma escola, porque os habitantes pressionaram os dirigentes locais a exigirem a um explorador de inertes da zona a realizar com o seu dever social.

Na localidade de Palestina, a realidade não difere das outras, afirma-se com salas adaptadas, construídas de adobe, soube OPAÍS da boca dos Jovens, para os quais essas circunscrições constituem o conjunto das zonas mais prejudicadas, porque muitos funcionários destacados nessas localidades tinham dificuldade de marcar presença aí todos os dias úteis de trabalho. “Se para nós daqui da sede já é complicado ir para lá, imagine para os que vêm do Huambo ou do Bailundo”, voltaram a questionar os jovens. Finalmente, apelaram aos dirigentes do Governo provincial do Huambo para inverterem o quadro da corrida para o emprego no município Mungo, de modo a que a juventude local passe a ser parte importante na construção de uma sociedade mais justa, conforme fizeram questão de referir. Aposta em cursos técnicos Quem confirmou essas pequenas fricções narradas pelos jovens foi o ancião Francisco Campos, para quem seria bom o Governo construir mais centros de formação profissional e aumentar a rede de infra-estruturas escolares do ensino técnico- profissional.

“Só para dar um dado que entristece os munícipes, neste corredor do Bailundo, Tchikala Tcholohanga e Cachiungo, o Mungo é o único município que não possui Instituto Médio Politécnico, nem de Saúde, muito menos Magistério Primário”, informou o velho Francisco Campos, sublinhando que, ainda assim, isso não significava que os miúdos não possam ser absorvidos pelas políticas de emprego. Aliás, aludiu a uma estratégia do Estado que consiste em apostar nos quadros locais, para dizer que, nas zonas longínquas do município, o melhor era mandarem jovens da localidade, ao invés de virem alguns de fora, que acabam por desistir da causa que os levou para lá.

O idoso assegurou que no Mungo é o sector da Educação que emprega mais, porque,normalmente, nos outros, como são os casos dos da saúde, justiça, administração e banca, só se nota já quando os novos quadros se predispõem a atender a população. Francisco Campos realçou o facto de a considerada restrição de empregos não constituir uma quebra na convivência social dos munícipes do Mungo. “É só ver que não é por causa disso que recebemos e atendemos mal os que vêm de fora para trabalhar aqui”, desabafou o Tio Chico, como é carinhosamente tratado por familiares, amigos e conhecidos.

Trauma do transporte, agora no bolso

Ti Chico recordou os traumas vividos pela população do Mungo, no período em que a estrada que liga a pacata vila ao Bailundo estava totalmente esburacada. “Para sair de lá para cá, as pessoas tinham de fazer um dia ou mais de viagem, num percurso de apenas 60 quilómetros”, contou o nativo, realçando que, actualmente, os problemas do género passaram para o bolso do cidadão, que tem de custear o táxi com 500, mil Kwanzas ou mais, quando há poucos carros. Para alívio da população, segundo narrou, um empresário da sede da província, a quem denominou de Yamba-Yamba, colocou uma frota de transportes públicos e cobra apenas 500 Kwanzas pela corrida do municípios do Huambo para o do Mungo e vice-versa.

O ancião gostava que a Administração local interviesse junto do Governo Provincial do Huambo e este, por sua vez, com o Executivo Central, a fim de favorecer apoio, no sentido de se garantir a asfaltagem das ruas principais e secundárias da vila do Mungo. A energia é outro problema que o ancião quer ver resolvido, já que, de acordo com o próprio, actualmente até as instituições do Estado se socorrem da luz eléctrica de grupos geradores e painéis solares instalados em algumas instituições, tal como referiu o hospital principal da vila. Outra questão muito invocada pelos munícipes prende-se com a falta de água potável, sobretudo nas zonas mais distantes da sede municipal, onde os habitantes não têm muitas alternativas senão ir em sua busca nos rios e nos poços.

Sector do ensino minimiza

Mariano Cutita, um dos responsáveis do sector da Educação, no município do Mungo, não contrariou as queixas dos jovens, mas focalizou o seu discurso na necessidade de construção de institutos politécnicos e magistérios, a fim de se atribuírem valências técnico-profissionais, de modo a poderem buscar colocação em qualquer parte do país. “Se aqui for difícil arranjar emprego, queremos que os nossos jovens tenham capacidade de os alcançar fora do Mungo, porque Angola é grande e nós não estaríamos contentes se o saber deles só valesse aqui”, declarou o homem do sector do ensino.

Questionado se a maior parte dos trabalhadores do Estado vinham de outras municipalidade, Mariano Cutita, informou que, tal como outras paragens do país, o Mungo não tinha o direito de se fechar aos forasteiros. “Aqui temos gente de Benguela, Kwanza-Sul, Bié e até mesmo de Luanda, porque, infelizmente, para muitos desses, ainda aqui constitui a porta de entrada”, disse o funcionário sénior da secção do ensino geral local, tendo-se queixado dos pedidos de transferências que alguns professores forasteiros. Classificando a juventude local como verdadeiros continuadores do legado dos trabalhadores da sua classe, Mariano Cutita não escondeu o desejo de ver grande parte da juventude do Mungo empregada. “Assim, o Estado evitaria gastar dinheiro noutros sectores”, reforçou o professor de profissão.

Outra situação que o inquieta, enquanto responsável de um sector que se considera chave de uma sociedade, tem a ver com o facto de existir apenas uma agência bancária no município. “Quando os professores são assalariados, como uma boa parte não reside cá, então já não vêm, acabando as crianças por ficar sem aulas, durante alguns dias”, revelou o responsável, tendo adiantado que alguns funcionários possuem a conta-salário domiciliada no BPC, enquanto outros, no BCI, por sinal bancos que disse não existirem na vila.

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