Promessa eleitoral “arrasta” centenas de jovens à feira do emprego

Embora não seja a primeira feira de emprego, o certame deste ano é, segundo fontes da organização, o que mais jovens “arrastou” depois da promessa eleitoral feita, em 2017, pelo Presidente da República, João Lourenço, da criação de 500 mil postos de trabalho

Movidos pela promessa eleitoral da criação de 500 mil postos de emprego, feita pelo agora Presidente da Republica, João Lourenço, aquando das eleições de 2017, milhares de jovens encheram, ontem, a feira de oportunidades de emprego, estágios e formação profissional, que decorre, durante dois dias, na tenda do Centro de Conferências de Belas, em Luanda.

Dados disponíveis apontam para perto de cinco quilómetros de fila que os jovens fizeram para obterem o primeiro emprego na referida feira, que tem como propósito a promoção da inserção de jovens na vida activa, gerando oportunidades de emprego, formação e estágios profissionais com vista a impulsionar a inclusão económica e social da Juventude mediante a valorização do seu potencial e desenvolvimento integral.

Conforme constatou o OPAÍS, eram jovens provenientes de várias partes de Luanda, entre técnicos superiores, médios e básicos que, entre empurrões, e em longas filas, “lutavam” para conseguir aceder aos mais de 50 expositores que o certame alberga. Nos stands constam empresas públicas e privadas, centros de formação profissional, universidades e demais instituições que combinam para a inserção académica e profissional dos jovens. Embora não seja a primeira feira do emprego, estagio e formação profissional, o certame deste ano é, segundo fontes da organização, o que maior número de jovens “arrastou” depois da promessa eleitoral feita, em 2017, pelo Presidente da República, João Lourenço, de criação de 500 mil postos de emprego. No entanto, um dos pontos negros que marcaram a feira foi a confusão que volta e meia tomava conta da longa fila.

Na expectativa de conseguir o primeiro lugar, muitos acabavam por violar as normas da organização e tentavam, a todo o custo, furar a fila para se posicionarem no lugar cimeiro. Tal situação resultou, por vários instantes, em confusão que só foi controlada com a intervenção da Policia Nacional, apesar do reduzido número de efectivos disponíveis.

Dados divulgados apontam para desmaios de vários jovens, sobretudo do sexo feminino que foram transferidos para unidades hospitalares nos arredores ou assistidos pelo INEMA. Para apurar o número certo, o Instituto de Emergências Médicas, contactado pelo OPAÍS, não atendeu às nossas ligações. Também a Polícia Nacional não avançou qualquer número em relação aos desmaios.

Tercia Felismina, 27 anos, técnica media de contabilidade e gestão, acorreu a feira mas, devido à confusão, preferiu desistir. Segundo a jovem, apesar de ter chegado cedo, por volta das 7 horas, encontrou uma enorme fila com empurrões e safanões. Com receio de vir a sofrer alguma lesão, a jovem viu-se forçada a desistir da corrida em busca do emprego e esperar por uma outra oportunidade. “Com essa desorganização, duvido muito que o Executivo consiga criar os 500 mil postos de emprego.

Se uma feira não conseguem organizar em condições, não estou a ver a criação de todo esses postos de trabalho. É tudo política e promessas vãs”, desabafou a jovem desempregada.

Feira pode gerar mais de mil empregos

Apesar da enorme afluência, a feira de oportunidades de emprego, estágios e formação profissional prevê gerar mais de mil postos diversos de empregos para jovens desempregados, segundo garantia do director do Instituto Angolano da Juventude, Jofre dos Santos, em entrevista ao OPAÍS, que assegurou igualmente que, se aguarda, durante a realização do certame, uma participação acima dos 50 mil visitantes, que vão, durante os dias, trocar experiências sobre o emprego. João Salombe, 31 anos, técnico superior de engenharia de construção civil, disse que acorreu à feira na expectativa de conseguir o primeiro emprego e ser um dos contemplados no conjunto das 500 mil vagas prometidas pelo Presidente da República. O jovem, residente no município de Cacuaco, afirmou que teve de acordar cedo, por volta dashoras, para conseguir chegar até ao Centro de Conferência de Belas e ser um dos contemplados. Porém, apesar das dificuldades que teve de percorrer e da longa fila que aturou, fez saber que manteve contacto com os expositores, que são os potenciais empregadores, estando agora a aguardar por eventuais ligações. “Foi difícil. Levei empurrões, mas consegui entrar. Houve muita desorganização, mas compreende- se, porque todos viemos para conseguir um emprego. E as vagas são poucas”, frisou.

Uma vergonha

Por seu lado, José Nhoca, membro do grupo de manifestantes que, recentemente, saíram às ruas de cinco províncias para protestarem contra o desemprego e a má governação, considerou a confusão de ontem uma “autêntica vergonha” para o Governo de João Lourenço.

Para o jovem manifestante, a adesão em massa da juventude no Centro de Conferências de Belasvem demonstrar que o Executivo não tem políticas sérias para combater o desemprego que vem assolando as famílias angolanas, com a grande maioria dos jovens atirados ao abandono. Recentemente, o grupo de manifestantes saiu à rua em cinco das 18 províncias do país, a destacar Luanda, Benguela, Uíje, Cuanza-Norte, Bengo e Malange, tendo como motivação a alta taxa de desemprego e a má governação.

De acordo com José Nhoca, a situação de ontem é mais uma força e um sinal claro de que o grupo, quando sai em protesto, está na direção certa e continuará a exigir até que se cumpra com a promessa eleitoral. “Fala-se que os jovens angolanos não gostam de trabalhar. Mas a afluência de pessoas ontem na feira do emprego contrariou essa ideia. O Governo devia ter vergonha e mudar de estratégia porque a juventude está a sofrer. Queremos soluções e não políticas de fazer de contas”, apontou.

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