“Angola não vai sair da crise sem inteligência económica”

O economista Yuri Quixina afirma que a atracção de investimento directo estrangeiro depende do modelo de gestão da conta capital e da redução dos custos de produção. Acrescenta que toda a estratégia deve passar pela inteligência económica

Por:Mariano Quissola I Rádio Mais

Mais de mil oportunidades de empregos directos, disponibilidade de bolsas de estudo internas e externas e formação SUGESTÃO DE LEITURA Título da obra: A Lei Autor: Frédéric Bastiat, economista e jornalista francês Anos de lançamento: 1850 FRASE PARA PENSAR: “Se o Estado corrige supostamente as falhas do mercado, quem corrige as falhas do Estado?” Yuri Quixina, economista. profissional eram a oferta disponível na Feira do Emprego, promovido pelo Instituto Angolano da Juventude. O evento ficou marcado por vários incidentes. O que indicia a enchente no local do evento?

Indicia o mercado do desemprego. A maior parte dos jovens está desempregada. Penso que essa feira é manifestação de desespero, porque prometeu 500 mil postos de trabalho e o desespero está a fazer cometer muitos erros. Em depressão económica não se realizam feiras do emprego, porque isso até cria expectativa de sofrimento ao desempregado. O Governo está desesperado, prometeu emprego, mas esqueceu- se que quem cria os 500 mil postos de emprego não é o Governo, mas as pessoas que foram à procura de emprego. Se o Estado não consegue resolver o problema do saneamento, da Saúde, e da Educação, não pode dar emprego. Essa feira ocorre numa altura em que o INE actualiza os dados do desemprego, que passa de 28,8% para 29%.

O cenário tende a piorar… Isso vai piorar ainda mais, na medida em que a economia continua sem “capacidade atlética” para correr. Os dados do INE indicam que o desemprego no país continua a aumentar, embora de forma ligeira, passando de 28,8 para 29%. Na área urbana a taxa é de 39,3%, é cerca de três vezes superior à da área rural, fixado em 14,3%, com uma diferença de 25,0 pontos percentuais. As mulheres continuam a ser as mais afectadas.

E o ministro da Economia e Planeamento, Manuel da Costa, disse que o Governo está a criar condições para os investidores poderam repatriar os seus capitais. É dos principais factores de atracção de investimento? Como resolver efectivamente essa garantia?

Só se resolve essa garantia se tivermos uma conta de capital aberta, que pressupõe a facilitação de saída e entrada de capital. Mas o modelo económico que temos não permite essa facilidade, em que a saída é mediante autorização. O ministro reconhece que medidas proteccionistas e a concessão discricionária de activos públicos para a gestão privada pouco qualificada foi a principal razão desse cenário. Aí voltamos ao modelo. O modelo económico do país está errado, porque é de fechamento. Não aproveitámos para abrir a economia no tempo em que tínhamos dinheiro.

O ministro tenta estimular os investidores, mas esses sabem que Angola não é lucrativa, para além da dificuldade do repatriamento de capitais, agravadas com as baixas reservas internacionais líquidas. E mais: o sucesso das privatizações também depende da conta capital. O nosso modelo de fechamento só aumentou o tráfico de influências, a corrupção e o nepotismo. Mas o modelo ainda não está alterado. E a posição de Angola no Índice de Competitividade… 137, num universo de 140 países? Angola não é competitiva porque os custos de produção são elevados e o Estado está em tudo. A economia em que o Estado está em tudo dificilmente será competitiva. Estamos a falar de um lista em que constam países como a Alemanha, Suíça, Hong Kong – que têm entre nove a doze ministros. Nós temos 35, vários institutos…

O Instituto de Estudos Geoestratégicos Africanos realizou a primeira conferência sobre inteligência económica, no sentido de alertar que toda a estratégia passa pela inteligência económica. Qual é a sua opinião?

A falta de inteligência económica está a nos fazer cometer muitos erros. A realização dessa feira do emprego é resultado da falta de inteligência económica. O ajustamento via receita é falta de inteligência económica. Num período de consolidação orçamental, a inteligência económica é a conselheira para evitar a construção do bairro dos ministérios e construção do ginásio dos deputados. A inteligência económica antecipa que tipo de economia pretendemos ter em 2040, por exemplo, que tipo de transportes públicos queremos. Angola não vai sair da crise sem inteligência económica. As grandes medidas do acordo com o FMI foram mal negociadas por falta de inteligência económica.

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