Cerca de 150 crianças beneficiam de explicações gratuitas na rua

Cerca de 150 crianças do bairro Rocha Pinto beneficiam de explicações gratuitas na rua. O projecto foi criado por João Adelmiro Japão, 26 anos, estudante do terceiro ano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto

Por:Stela Cambamba

Tendo em conta o número de crianças fora do sistema escolar no seu bairro, Adelmiro Japão sensibilizou alguns amigos com o propósito de administrar aulas de explicação, mas não tinha um recinto para concretizá-lo. Por esse facto, os jovens que aceitaram o desafio decidiram trabalhar com os menores na via pública, justamente no local onde os meninos brincam. Situação essa que, acrescida à falta de material adequado, contribuiu para que nos primeiros dias tivessem pouca adesão. Adelmiro Japão tinha apenas um quadro e alguns paus de giz. No primeiro dia 20 crianças apareceram com os seus bancos, lápis e cadernos, no segundo juntaram- se mais 30, o número foi aumentando dia após dia.

Estavam de férias e muitos menores eram provenientes de outros bairros e encontravam-se de visita aos seus parentes que aí residem. Depois desta fase, os jovens receavam que o número diminuísse, considerando que as visitas iriam voltar para as suas zonas, mas, pelo contrário, não registaram baixas e foram recebendo mais crianças, todos os dias há sempre dois ou três novos. Passados mais de três meses, contam com cerca de 150 estudantes de diferentes níveis que comparecem no local de Segunda a Sexta-feira, das 17 às 19h30, para aprimorarem os seus conhecimentos. Adelmiro Japão recorda que as pessoas que por ali passavam questionavam “por quê na rua?” “Se fôssemos para um local restrito, nem todas as crianças teriam acesso à explicação, alguns pais não abraçaram a ideia, outros apoiaram”, frisou. No sentido de constatar o grau de satisfação dos menores, o mentor conversou com os mesmos na presença da nossa equipa de reportagem.

Mostraram-se satisfeitos, sendo que muitos disseram que se dependesse deles não voltariam para os seus bairros. “Quando crescer vou criar um projecto igual para ensinar outras crianças”, desabafou uma das alunas, radiante de alegria. Actualmente, as aulas de explicação contam com três turmas nas quais funcionam da seguinte maneira: os alunos da 1ª e 2ª classes numa, os da 3ª e 4ª noutra e, por fim, os da 5ª e 6ª classe partilham também a mesma turma. No entanto, almejam aumentar nos próximos dias para cinco, o que, ainda assim, será insuficiente.

Os moradores, sensibilizados com a iniciativa dos jovens, fizeram uma contribuição monetária cujo montante serviu apenas para comprar mais um quadro. A maior preocupação de Adelmiro Japão é a incapacidade de atender à demanda, tendo em conta que os materiais que dispõem e os recursos humanos são insufi cientes. Segundo Adelmiro Japão, um certo dia apareceu um senhor que fi cou sensibilizado ao deparar-se com os jovens a administrarem aulas na rua, sem nada a cobrar e prometeu ajudar, trazendo alguns amigos que ofereceriam material necessário para continuar a exercer actividade. Depois da visita do benfeitor, algumas pessoas singulares procuraram os jovens e ofereceram livros, lápis e cadernos. Em função desta oferta pretendem montar uma biblioteca móvel na rua.

Por enquanto, continua a administrar as explicações com o pouco que tem. João Adelmiro Japão, mentor do projecto “ABC na Rua”, traçou um plano de acção que engloba a educação, saneamento básico e delinquência, mas uma das dificuldades encontradas é a falta de valores monetários para pôr em prática o projecto. O projecto ABC na Rua é constituído por sete jovens, Adelmiro Japão, de 26 anos, estudante universitário; Clementina Japão, de 24 anos, terminou o II Ciclo do ensino secundário e não conseguiu ingressar na faculdade, Cristina, e mais dois jovens que se juntaram recentemente ao grupo, e há ainda o senhor Álvaro Adelmiro, como conselheiro, que ofereceu formação pedagógica a dois membros do projecto.

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