Gaston Monnerville: o negro que quase se tornou presidente da França

Sob a Quinta República Francesa, em vigor desde a Constituição de 1958, o interino do chefe de Estado é exercido pelo Presidente do Senado. Assim, esta alta personalidade do Estado é a primeira pessoa na ordem de sucessão presidencial. Gaston Monnerville, negro, ocupou esta função durante 21 anos. E um grande evento político em 1969 quase fez dele o primeiro presidente negro da República francesa. Na altura, o presidente era Charles de Gaulle, também chamado general de Gaulle, e ele havia proposto um referendo para criar as regiões e reformar o Senado. Gaston Monnerville vendo nisso uma intenção clara de diminuir o poder da câmara alta, o Senado, para fortalecer o da câmara baixa, a Assembleia Nacional, desafiGaston Monnerville: o negro quequase se tornou presidente da Françaou-o pedindo aos Franceses que votassem não ao referendo cuja data estava agendada para o dia 27 de Abril de 1969. No entretanto, Monnerville demitiu- se do cargo de presidente do Senado, que ocupava desde de 1947 (que na época se chamava Conselho da República), em Outubro de 1968 para melhor defender a sua visão do poder legislativo. Em 18 deAbril de 1969, na televisão francesa, ele opôs-se publicamente ao referendo, declarando o seguinte: « A proposta de lei que vos foi feita, que todos sabem que é inconstitucional, complexa, difícil e ilegal, como afirmou o Conselho de Estado, e perigosa, é muito provável que leve o nosso país à aventura. Então, digo- vos que respondam não ao referendo de 27 de Abril ». Havia de facto duas visões políticas opostas para este referendo. A do general de Gaulle queria um Senado enfraquecido, reduzido ao simples papel consultivo. A de Monnerville queria um Senado com poder legislativo, um contrapeso à Assembléia Nacional. Em 27 de Abril de 1969, os Franceses seguiram a recomendação de Monnerville e 52,41% votaram não no referendo. E se seis meses antes ele não se tivesse demitido da presidência do Senado, teria sido presidente interino da República francesa depois da demissão de Charles de Gaulle do cargo de presidente em 28 de Abril de 1969. Gaston Monnerville teve uma carreira política longa e nada o predestinava a mais de cinquenta anos de vida política extraordinária. Nasceu em Cayenne, na Guiana francesa, em 1897. Formou-se em direito em França e tornou-se um 18 O PAÍS Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019 DR advogado famoso em 1931, quando defendeu com brio 14 Guianenses acusados sem prova do assassinato de um empresário francês. Durante o processo, aproveitou a oportunidade para denunciar a colonização, os abusos e a fraude eleitoral que existia na Guiana. Este processo revelou-o e a sua longa carreira política começou aí. Em 1932, foi eleito deputado da Guiana. Em 1937, integrou o governo como Subsecretário de Estado para as Colónias e obteve a abolição das prisões de trabalho forçado. Durante a Segunda Guerra mundial foi combatente voluntário e resistente e na Libertação foi encarregado de preparar a departamentalização das quatro antigas colónias francesas – Guadalupe, Martinica, Guiana e a Reunião – que se materializou em 1946. Ainda em 1946, foi eleito para o Conselho da República (Senado) e em 1947 foi eleito presidente desse Conselho, um caso sem precedente para um afrodescendente. Em 1948, foi eleito Senador do departamento de Lot, depois presidente do Conselho Geral desse departamento e presidente da Câmara Municipal de Saint-Céré. Mas em 1953 foi afastado da candidatura à presidência da República por ser negro e René Coty foi eleito presidente da França, embora a tradição naquele contexto fosse eleger o Presidente do Conselho da República. Gaston Monnerville ocupou o cargo de presidente do Senado francês durante 21 anos – até 1968. Em 1974, foi nomeado para o Conselho Constitucional, onde terminou a sua carreira em 1983. Morreu aos 94 anos em 7 de Novembro de 1991 em Paris.

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