Uma Angola mais desenvolvida

VALDEMAR F. RIBEIRO

Andaram tantos angolanos a lutar, a morrerem, antes e depois da independência, já lá vão quarenta e três anos de independência, famílias inteiras morreram, andamos a estudar tanto durante todos estes anos para termos o mesmo nível cultural dos países mais desenvolvidos, para sermos empresários competentes, experientes, cautelosos, pragmáticos, positivos, acreditando na nossa capacidade intelectual, neste século XXI, e agora andamos a estender as mãos a países como o Qatar, com dois milhões de habitantes, país que só tinha areia e petróleo, país que há cerca de cinquenta anos era um dos mais atrasados do planeta e nós agora andamos a esmolar um pouco dos investimentos dessas nações que até há bem pouco tempo estavam num patamar de desenvolvimento inferior ao nosso. Que orgulho é este em que precisarmos de pedir ajuda quando potencialmente somos um dos privilegiados e poucos países com mais riquezas por explorar? Não podemos justifi car esta incapacidade de administrar bem Angola, dizendo que não temos recursos humanos sufi cientes e capazes. Os seres humanos têm uma mesma origem comum, o Australopithecus, que por sinal é da nossa região. Todos os seres humanos são exactamente iguais, nada os diferencia, a não ser alguns aspectos raciais superfi ciais, devido às especifi cidades ecológicas naturais mas mentalmente não há nenhuma diferença. O potencial mental e cem por cento igual. O que se passa então, para estes anos todos de independência e até agora continuamos a patinar no desenvolvimento sustentado de Angola? Agostinho Neto, saudoso ser humano, cometeu um grave erro, por diversas razões, quando em 1974 permitiu a fuga dos quadros que administravam Angola até aquela data e permitiu a fuga da maior parte dos empresários que aqui já desenvolviam um trabalho de relevo na economia que já nessa altura era destaque em África juntamente com a África do Sul e até estava num patamar importante comparativamente a Portugal continental. Não vamos aqui aprofundar as razões dessa fuga cujos principais responsáveis foram as lideranças coloniais portuguesas e seu sistema político que também fugiram de suas responsabilidades mas os líderes angolanos da ocasião liderados por Agostinho Neto, não tiveram a força necessária da razão para dizer não à fuga dos quadros administrativos e dos empresários, sejam eles de origem angolana ou de origem portuguesa. Se Agostinho Neto, em 1974, tivesse dito não à fuga dos quadros e empresários, tivesse dito não à entrada de aviões e navios nos portos e aeroportos angolanos que facilitaram e até incentivaram a fuga, se Agostinho Neto e seus liderados tivessem dito não, ninguém sai mas ninguém morre, o risco de vida era o principal motivo da fuga para muitos angolanos e portugueses que se consideravam angolanos, talvez Angola não tivesse desmontado administrativamente e economicamente. Essa foi a grande falha do inicio da independência. Nelson Mandela, por iniciativa própria ou por ter compreendido esta falha em Angola, disse não à fuga dos quadros administrativos e empresariais sul-africanos, não foi fácil essa atitude e até correu riscos mas conseguiu evitar essa fuga e hoje a África do Sul tem conseguido manter-se num patamar de desenvolvimento elevado. Claro que tem suas difi culdades mas não desmontou nem desintegrou-se. Quando por volta do ano 1940, começaram a surgir independentistas a exigirem Angola de volta aos seus donos verdadeiros, os autóctones, as lideranças coloniais gananciosas recusaram-se O PAÍS Sábado, 14 de Setembro de 2019 31 viam muitos interesses contraditórios internos e externos em todos os campos económicos e politicos. Este não foi um tempo fácil. Angola defi niu-se militarmente e politicamente mas até agora não se defi ne com competência nos aspectos económicos e sociais sustentáveis e já lá vão muitos anos. Há quem diga que se passaram ainda pouco anos e que Angola não teve o tempo necessário para uma maturação. É verdade sim que o tempo ajuda a maturar mas isto não justifi – ca a nossa incapacidade de acelerar o processo de construção de uma economia mais equilibrada e de um desenvolvimento social, mais sustentáveis. Não se justifi ca que após este tempo de formação dos quadros angolanos, no interior e no exterior do país, não haja uma responsabilização maior nas competências dessa administração pública e na administração privada. O executivo angolano, com seu próprio exemplo e competência, deve ser mais rigoroso na exigência de uma administração pública mais efi caz. O executivo angolano também deve ser mais rigoroso ao exigir que os empresários privados sejam mais competentes na construção de suas empresas, obrigandoas a terem um padrão internacional e seguirem as regras modernas da nova economia global com foco no ambiente, no social e na qualidade económico, na excelência. Não de justifi ca que neste inicio do século XXI continuemos à espera que os problemas de Angola sejam resolvidos de fora para dentro ou seja, sejam os investidores externos a resolverem os principais estrangulamentos de Angola na área económica. Os investidores externos capazes de trazer um verdadeiro desenvolvimento económico sustentado, investimentos de médio e pequeno porte, só virão se a casa angolana estiver em ordem, não vale a pena ter ilusões, senão continuaremos a ser um país coitado. a entregar Angola e daí nasceram as guerras coloniais, infelizmente para todos. Muitos pensadores lusófonos e outros, de todos os lados, antes de 1974, alertaram para a injustiça do domínio colonial e sugeriram a preparação cultural, politica e económica das populações autóctones para assumirem a administração de seus territórios. Se as lideranças coloniais fossem realmente inteligentes e tivessem uma visão de futuro, teriam escutado estas sugestões dos pensadores maiores e preparado os territórios coloniais para assumirem sua independência. Se isso tivesse acontecido, não teria havido derramamento de sangue e as relações sociais , económicas e politicas hoje seriam muito mais harmoniosas, após as independências. Hoje, a “CPLP” teria certamente um destaque maior não só a nível regional como a nível global pois teria sido um modelo de desenvolvimento no conturbado fi nal da era colonial, não só em África como no leste europeu e na Europa em geral e na Ásia e América. Não foi a falta de avisos dados pelos pensadores maiores mas sim a falta de uma visão menos egoísta, gananciosa e mais holística por parte dos responsáveis coloniais à época. Mas tudo isto não pode continuar a justifi car esta difi culdade grande e este patinar na lama, no desenvolvimento sustentado de Angola. Eduardo dos Santos e seus responsáveis à época, quando assumiram a liderança de Angola, com suas guerras fraticídas e herdaram um país sem quadros preparados, conseguiu até levar Angola a bom porto e justifi cou-se sua liderança durante um tempo maior pois era necessário resolverem-se os aspectos militares, veio a paz, e as fronteiras geográfi cas e politicas foram bem defi nidas. Pode-se afi rmar que as lideranças politicas e militares à época, fi zeram a parte que lhes competia fazer e que era muito difícil pois ha- Quem pode e deve resolver a situação económica de Angola são os empresários angolanos com o apoio das Instituições do Estado e do Executivo e deve ser uma acção urgente. Não há outro caminho, temos de ser nós, angolanos, a resolver as difi culdades internas e pôr a casa em ordem. Enquanto isso não acontecer, poucos empresários externos e até internos investirão em Angola e muitos empresários angolanos desistiram e desistem de investir pois os riscos são elevados, apenas algumas poucas empresas multinacionais podem fazer investimentos com relativa segurança. Ninguém vai arriscar seus capitais num país em desordem e aonde as regras económicas constantemente mudam e são indefi nidas e dependem muito do bom ou mau humor dos responsáveis das Instituições estatais. O Executivo e suas Instituições devem prestar mais atenção às empresas e empresários angolanos, devem identifi car quais as empresas que são modelos de excelência de uma economia sustentada, e a partir desses exemplos, orientar as outras empresas e seus empresários a construírem este mesmo padrão de desenvolvimento para que a economia angolana comece a evoluir. Uma casa arruma-se de dentro para fora e só assim Angola poderá ter uma imagem no exterior mais organizada e então construir-se uma maior confi ança externa. Enquanto os empresários angolanos de excelência e mais competentes estiverem insatisfeitos com a economia angolana, certamente os empresários externos terão muita difi culdade e resistência em virem investir em Angola. É esta a realidade.

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