Robert Mugabe vai ficar no panteão dos heróis

Vamos pôr as nossas diferenças de lado e unir-nos para lembrarmos o passado e olharmos o futuro”, disse o Presidente do Zimbabwe antes da cerimónia de despedida do homem celebrado por acabar com o domínio da minoria branca, mas que em 37 anos de poder se tornou um autocrata e arruinou a economia do Zimbabwe. Líderes estrangeiros, apoiantes e cidadãos assistiram ao funeral de Estado de Robert Mugabe, o libertador que se tornou, segundo algumas análises, ditador do Zimbabwe, depois de uma semana de disputa sobre o tipo de cerimónia que quase criou um embaraço ao Presidente Emmerson Mnangagwa. Mugabe, que dirigiu o Zimbabwe durante 37 anos, foi afastado pelo Exército em Novembro de 2017.

Morreu em Singapura a 6 de Setembro, aos 95 anos. O seu corpo vai ser sepultado num mausoléu no Quarteirão dos Heróis Nacionais, na capital, Harare, dento de um mês, disse um sobrinho de Mugabe na Sexta-feira, contrariando informações anteriores que diziam que o enterro era já no Domingo, hoje. Mnangagwa, que era o vice-presidente de Mugabe e conspirou para o derrubar, disse na noite de Sexta-feira que a construção do mausoléu vai atrasar o enterro. Neste Sábado, Mnangagwa caminhou atrás do caixão do homem que foi seu mentor no funeral de Estado, no Estádio Naciona dos Desportos.

O caixão foi colocado sobre um pódio, para que todos os que assistiram pudessem vê-lo e despedir-se; o estádio não encheu. No cortejo seguiam generais e a mulher e os filhos de Robert Mugabe. Uma banda tocou.“Hoje, vamos pôr as nossas diferenças de lado e unirnos para, como um só e orgulhosamente, lembrarmos o passado e olharmos o futuro da nação independente e livre”, disse o Presidente antes da cerimónia. Mnangagwa e o partido ZANU- PF insistiram em sepultar Mugabe no santuário nacional aos 15 heróis da guerra de libertação contra o domínio da minoria branca.

Porém, alguns familiares, e devido à forma como Mugabe foi derrubado pelos antigos camaradas, queriam que fosse sepultado na sua terra natal. Na cerimónia participaram os presidentes da África do Sul, Cyril Ramaphosa (que preside também à União Africana), do Quénia, Uhuru Kenyatta, da Quiné Equatorial, Teodoro Obiang (no poder desde 1979), e do Congo Denis Sassou Nguesso (no poder desde 1997), além de João Lourenço. No estádio foram penduradas faixa a dizer “Hamba kahle, Gushungo” (parte bem, Gushungo), uma menção ao seu nome de clã, e “Pioneiro das políticas nacionalistas”.

“Sinto-me em baixo porque ele lutou por nós. Lembro-me dele porque por ter entregue a terra aos negros, pela liberdade económica, pela educação não racial”, disse uma pessoa no público, Cleo Mapuranga. “Mas agora as pessoas estão a sofrer. Ninguém controla os preços. O nosso ministro das Finanças está a tentar implementar políticas de primeiro- mundo que não funcionam em países do terceiro mundo”.

A morte de Mugabe levou alguns cidadãos a questionarem a forma como Mnangagwa chegou ao poder – e foi vaiado por algumas pessoas no estádio. Mugabe foi festejado como o campeão da reconciliação racial quando chegou ao poder em 1980 num dos últimos Estados africanos a derrubar o domínio branco deixado pelo colonialismo. Mas quando foi derrubado, em 2017, houve celebrações nas ruas. Era visto como um autocrata obcecado com o poder que deu rédea solta a esquadrões de morte, que viciou eleições e que arruinou a economia para se manter no cargo de Presidente

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