Taxistas interprovinciais aplaudem retirada dos controlos da Polícia

O anúncio da desactivação de alguns postos de controlo nas Estradas Nacionais está a ser bem visto entre os taxistas que diariamente usam estas vias para o transporte interprovincial de pessoas e bens. Dizem ser o fim das “chatices” com os polícias e, quiçá, da “gasosa” que muitas vezes são obrigados a pagar

Por:Romão Brandão

O transporte de pessoas e bens em estradas como a Nacional 100 e a 230, por exemplo, é uma realidade tomada pelos miniautocarros e carrinhas (estas que transportam produtos agrícolas, vestuários, materiais de construção, mobiliários, etc.). Uma realidade que para muitos tem sido uma das (senão a única) soluções mais rápidas e baratas de escoamento de produtos agrícolas e de deslocação para outras províncias.

Quem não tem possibilidade de pagar um autocarro das transportadoras autorizadas, ou de pagar um bilhete e viajar de avião, vê nos miniautocarros “coaster” a solução para se deslocar a outras províncias. Nas estradas nacionais, apesar de algumas pessoas concordarem que deva haver mais controlo, aqueles que usam diariamente esta via para o comércio, como os taxistas, são de opinião que era exagerado o controlo feito pela Polícia.

Entretanto, tinham de se submeter às regras e obedecer ao que os agentes diziam, segundo os entrevistados. Embora tenham recebido de bom grado a notícia de que alguns dos postos de controlo serão desactivados, muitos taxistas interprovinciais ouvidos pelo jornal OPAÍS sentem algum receio em falar sobre o assunto, por acharem que poderão sofrer represálias, uma vez que, dado o tempo de serviço na mesma EN, praticamente são conhecidos (a si e a sua viatura) por quase todos os polícias.

Na EN 100, conversamos com Esaú Gouveia, de 33 anos, que faz táxi interprovincial (Luanda- Benguela) há onze anos, que disse que a desactivação é uma boa-nova, mas ainda não se faz sentir nesta zona. “Ainda existem os postos do Cabo Ledo, Rio Seco, Rio Longa, Porto Amboim, Sumbe (e com o feriado prolongado aumentou mais quatro), por comisisso, para nós, ainda não foram desactivados”, disse. Aquele taxista acha que existem mais postos de controlo de Luanda ao Cuanza-Sul, sendo que desta última província até Benguela o número é bastante irrisório

. Nestes postos, procuram um entendimento com o polícia e, quando não há, acabam parqueando a viatura ou pagando uma multa. O problema entre estes taxistas e a Polícia está centrado no facto de muitos não terem a licença de aluguer ou este documento estar com o prazo de validade vencido. Então, “quando ouvimos que a Polícia vai desactivar os postos de controlo, eu e os meus colegas sentimo-nos bem, porque ninguém fica contente com os gastos, quanto mais dinheiro apresentarmos ao patrão, melhor para ele e para nós”, sublinhou.

Desactivar sem se desfazer da fiscalização

Esaú, que até nos convidou para uma de suas viagens para mostrar como funcionam os postos de controlo, é de opinião que os mesmos sejam desactivados sim, mas que não se descarte a fiscalização, pois alguns dos postos podem continuar para garantir esta segurança. Sugere que deva existir um posto que fiscalize a entrada e saída em Luanda (na Barra do Cuanza, por exemplo) e um que fiscalize a entrada e saída em Benguela (no Eval Guerra).

Não é de opinião que se fique sem qualquer posto, porque acha que cometer-se-ão muitas irregularidades nestas estradas. Josué Nhangue, taxista há 15 anos na rota Luanda-Malanje (EN230), também é de opinião de que deve haver uma colaboração com a Polícia, no sentido de se manter a segurança rodoviária. Entretanto, não concorda com o número exagerado de postos de controlo que havia na EN230.

Disse que de 2010 a 2015 havia, naquela estrada, 14 postos de controlo, sendo que este número depois reduziu para sete. “Neste lado, Luanda-Malanje foram desactivados todos os postos de controlo. Só não está desactivado o de Malanje a Mussende (Cuanza-Sul), uma rota que ultimamente tenho feito também”, disse. Perguntado sobre, actualmente, como está a acção da Polícia com estes postos desactivados, José Nhangue respondeu que estes agentes apenas são vistos nas “operações relâmpago”, mas já não lhes incomodam muito como antigamente. “Antes, pediam muito dinheiro. Às vezes 1000Kz, outras vezes dois ou três mil Kz. Você, com documento, ou sem documento, estrangeiro ou nacional, tinha de ter dinheiro para passar”, recorda.

Para o nosso interlocutor, o problema não era a quantidade de postos, mas sim a arrogância imprimida na acção dos polícias, que, quando não há “colaboração” por parte do taxista, este vê a sua viatura a ser descarregada no meio da viagem. Assim, em todas as viagens tinha de separar um valor para deixar nos postos. “Todos os polícias devem trabalhar, mas não é trabalhar do jeito que trabalhavam, como se fossem nossos rivais. Estar legalizado ou não, não importava, tínhamos que dar gasosa. Agora estamos a trabalhar à vontade e toda a classe de taxistas interprovinciais está em festa”, enfatizou.

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