Brazzaville associa-se aos festejos de Neto

A cidade de Brazzaville, República do Congo, acolheu nesta Terça-feira, pela primeira vez nos últimos 10 anos, uma actividade da comunidade angolana residente neste país em memória de António Agostinho Neto

Na capital congolesa, para onde o nacionalista se refugiou nos anos 1960, depois de expulso do antigo Zaíre de Mobuto Sese Seko (actual República Democrática do Congo), a homenagem ao fundador da Nação consistiu num encontro que juntou funcionários da Embaixada e a comunidade angolana. O acto decorreu precisamente no recinto do edifício que, depois daquela expulsão de Kinshasa, passou a albergar a sede do Comité Director do MPLA, então movimento de libertação liderado por Neto, hoje partido no poder em Angola (desde Novembro de 1975).

Nesse edifício, um dos mais antigos da urbe, perto do mercado de Makelekele, símbolos como emblemas e a sigla do partido de António Agostinho Neto continuam, até hoje, patentes e “indeléveis”, nas suas fachadas, cerca de meio século depois. Para muitos, isso representa a indissociabilidade de Brazzaville da história de Angola. Este e outros pormenores que fazem desta cidade uma passagem obrigatória da história de Angola fizeram “muito ruído”, nos bastidores da cerimónia que serviu para exaltar os feitos e a trajectória de Agostinho Neto como Fundador da Nação e Herói Nacional. Para a comunidade angolana, a cerimónia tem tudo para ser histórica, porque marcou a ruptura com um passado recente de “divórcio total” com a Embaixada, que se diz ter ficado, nos últimos 10 anos, “indiferente” ao Dia do Herói Nacional (17 de Setembro) e ao Dia da Independência (11 de Novembro).

Ao intervir no acto, o embaixador de Angola, Vicente Mwanda, recordou a importância histórica do 17 de Setembro (dia de nascimento de Agostinho Neto) e o percurso do poeta, até a Independência nacional, tendo lançado reiterados apelos para a coesão e reorganização da comunidade. Considerou necessário fazer um maior esforço de aproximação entre a Embaixada e a comunidade, sublinhando que a falta de trabalho e a dificuldade para falar a língua portuguesa, sobretudo para os filhos dos migrantes angolanos, figuram entre as principais inquietações partilhadas pelos presentes. Por sua vez, o presidente da comunidade angolana (desde 1994), Rafael John António, saudou o que chamou de “nova postura” da Missão Diplomática de Angola em Brazzaville, sustentando que “abre caminho para uma era de renovação e redinamização” da comunidade, enquanto instituição.

Disse ter conhecido pessoalmente Agostinho Neto, e lamentou, por outro lado, o facto de ter sofrido discriminação e difamação num passado recente. “Sentimo-nos ridiculizados, até por pessoas que estiveram aqui durante a guerra de libertação, considerar- nos não angolanos. Muitos dos nossos compatriotas sofreram muito nas mãos da Polícia, por mentiras de que eu era zairense e desviei os zairenses, para lhes meter no grupo dos angolanos”, disse. “Isto foi muito duro para nós, sofremos muito, sem documentos, não queriam nem um pouco darnos documentos de identificação. Isso reduziu-nos a nada, ao passo que no início, nós éramos a comunidade mais respeitada no Congo”, desabafou.

Em declarações à Angop à margem do evento, Rafael António observou, contudo, que “esta propaganda felizmente não triunfou”, porque as autoridades, em Brazzaville, “também nunca entenderam nada, uma vez que os conhecem muito bem”. Diferente é a história de Júlia Domingos. Exibindo um passaporte ainda dos tempos da República Popular de Angola, a cidadã confessa que nunca quis saber da comunidade angolana e da Embaixada.

Contou que, desde cedo, migrou para a República do Congo, onde acabou por se juntar a um parceiro congolês endinheirado, filho de um membro da elite congolesa, mas com o tempo o seu companheiro mudou de comportamento e tornou-se agressivo. Já o embaixador Vicente Mwanda aproveitou a ocasião para informar que estão criadas as condições para a realização, em Dezembro deste ano, de uma Assembleia Geral da Comunidade Angolana, para eleger uma nova direcção.

Para o efeito, aconselhou os membros da comunidade a prepararem pelo menos três listas concorrentes, e advertiu contra a introdução, no processo eleitoral, de critérios de ordem religiosa ou partidária, devendo prevalecer apenas a identidade nacional. “Aqui somos todos angolanos, e todos podem participar e concorrer. Não se pode excluir ninguém devido ao seu credo religioso ou pertença partidária”, preveniu.

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