“Essa é a verdadeira economia de Angola: crise, preços altos, desemprego, falta de divisas…”

O professor de Macroeconomia Yuri Quixina afirma que o país está a viver a sua economia real, na medida em que o anterior boom do petróleo criou uma ideia artificial de crescimento

Por:Mariano Quissola i Rádio Mais

O ponto prévio desta semana recai sobre a prestação da selecção senior masculina de basquetebol, cuja campanha da China foi a pior de todas. É possível ver aqui o reflexo da economia, nesse desempenho?

A situação económica influencia a logística das selecções desportivas. E isso é evidente nos últimos tempos com várias selecções. Tivemos a situação da selecção de futebol ao CAN, a selecção de Andebol a mesma situação. Mas é a selecção de basquetebol que vem revelar que afinal o nosso desempenho anterior estava atrelado às condições financeiras do país. Desde que entramos para as crises, a selecção de basquetebol começou a entrar em decadência.

Existe uma correlacção entre o desempenho da economia e os resultados desportivos. Isso aconteceu no Brasil. A selecção levou 7- 0 no pico da crise. Portugal, por exemplo, ganhou o Euro já à saída da crise. Portanto, a crise económica tem uma correlação também com o desempenho das selecções.

Mas todos os indicadores, na altura, apontavam para a economia que mais crescia em África…

Era tudo artificial. Aquela vida que tínhamos não era nossa. Essa é que é a verdadeira economia de Angola. A crise, preços a subirem, aumento do desemprego, falta de divisas, desvalorização da moeda, balança de pagamento deficitária, escassez de produtos. Aconteceu que os Estados Unidos e a China ajudaram Angola, influenciando a subida do preço do petróleo. Com a alta do preço do barril do petróleo, o PIB de Angola saiu de seis para 126 mil milhões de dólares até 2013, sem fazer nada. Dormimos e acordámos ricos e a matriz da política económica apontou mais para o consumo. E aí veio a grande ilusão, ‘Angola era o melhor país do mundo’. Tudo era artificial. Criamos até fantasmas de grandes ministros das Finanças, grandes governadores do banco central, dos melhores economistas…

Pitra Neto sai da “toca” a apresenta a sua perspectiva de reforma do Estado, com destaque para a ‘arquitetura’ remuneratória na função pública, que devia olhar para os resultados e não para os títulos académicos. Qual é a sua opinião?

Assisti à sua aula de sapiência, foi brilhante. Conhecia-o apenas como político e desconhecia a sua veia como académico. Ele fala do cancro dos salários dos países que saem do comunismo, de resto, um assunto sobre o qual já falamos aqui. Ele defende que o salário fosse pago em função a produtividade. Essa é a filosofia ocidental, de mercado.

Mas Pitra Neto sempre andou na governação e tinha, sobretudo, a pasta que define esse tipo de estratégia. Essa perspectiva vem tarde, não?

Ele era ministro, não era Presidente Portanto, ele tinha que alinharse em função da definição superior. Tínhamos um país onde quem falasse o que pensava estava “lixado”. Atenção que a actual Lei Geral do Trabalho foi contribuição, apesar de muita gente reclamar da reformulação do tempo indeterminado e das outras cláusulas. Essa lei vem criar a perspectiva de não se ser escravo do patrão e promove o empreendedorismo. Portanto, gostaria que Pitra Neto não desaparecesse do debate académico e político. A palestra pareceu a apresentação de um programa de governação.

O outro destaque da semana foi o anúncio do relatório das Nações Unidas que aponta Angola como sendo um país com poucas possibilidades de atingir as metas da Agenda 2030. Qual é a sua opinião?

Temos muitos indicadores que pioraram. Angola é, segundo esse relatório, o pior país de língua oficial portuguesa no índice de desenvolvimento sustentável. São Tomé e Príncipe e Cabo Verde são os países mais sustentáveis na região da África Subsahariana. Apesar desses dados, não concordo com essa perspectiva da ONU, na medida em que obriga os países atrasados a fazerem as coisas às pressas e mal-feitas. Os países que hoje lideram esse raniking levaram séculos para atingirem tais metas. Pedem- nos para atingir níveis em 10 anos que os outros levaram séculos. Deng Xiao Ping traçou o plano de reforma da China para 100 anos. Isso é artifício para África não atingir nenhum desses indicadores.

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