Fome no Moxico: criadores de gado trocam uma cabeça por um saco de farinha de milho

O prelado denunciou que as populações do interior da província têm vindo a enfrentar sérias dificuldades sociais, consubstanciadas na falta de alimentos, que tem provocado dezenas de mortes no seio das famílias

Domingos Bento, enviado ao Luena
fotos de Pedro Nicodemos

Dom Tirso Blanco disse a OPAÍS que a situação está tão delicada e que, inclusive, para sobreviver à fome, muitas pessoas estão a trocar uma cabeça de gado por um saco de farinha de mandioca. Segundo o prelado, as populações do interior da província enfrentam sérias dificuldades sociais, consubstancidas na falta de alimentos, que tem provocdao muitas mortes. “A situação que estamos a viver no Moxico é de milhares de pessoas a morrerem de fome. Nós próprios somos testemunhas oculares do que está a acontecer”, disse. Acrescentou: “nós vimos e andamos nas aldeias onde encontramos pessoas a morrer de fome.

Tudo isso existe”, frisou. Diante deste cenário, o bispo da Diocese do Luena sugere uma maior actuação e desempenho da comunicação social no relato desses factos que, muitas vezes, não têm merecido a devida atenção do poder local. No seu entender, se a comunicação social passar a divulgar com mais regularidade e isenção a situação que as populações do Sul do Moxico enfrentam, poderá mobilizar as instituições de direito a criarem políticas públicas para a sua resolução destes casos. “A comunicação social devia ter uma capacidade de investigar esses lugares e de poder transmitir as ocorrências, não há uma lei que impeça a liberdade”, salientou. Reforçou que se a comunicação social tivesse essa liberdade de poder deslocar-se e transmitir o que está a acontecer, “com certeza que as próprias autoridades locais conheceriam melhor essa situação”,

Subsídio de isolamento para profissionais

Ainda na senda da vida no interior da província, Dom Tirso Blanco disse que as populações se debatem ainda com o grave problema da falta de hospitais e de escolas, o que tem permitido que muitas crianças, mulheres grávidas e idosos sejam obrigados a percorrer longas distâncias para beneficiarem destes serviços.

De acordo com o bispo, em muitos casos, o grande problema não está nas infra-estruturas, mas prende-se com a carência de médicos e professores nestas zonas bastante carenciadas. No seu entender, é preciso que o Executivo crie programas concretos que possam estimular estes profissionais a trabalharem no interior da província. E uma das políticas seria a criação do subsídio de isolamento para todos que aceitam o desafio de trabalhar nas zonas onde falta tudo. “Quer para a educação como a saúde, o subsídio de isolamento devia ser duas ou três vezes maior que o salário de professores das áreas urbanas”, frisou.

Exploração ilegal de madeira

Outras das preocupações do prelado católico prende-se com a contínua exploração indiscriminada da madeira que vem assolando a província. Denunciou que o Moxico continua a registar casos elevados de acumulação e transportação da madeira para outras zonas do país, em prejuízo da população local. Apesar da elevada exploração, Dom Tirso Blanco disse que não tem havido reposição, o que torna a província vulnerável e economicamente mais pobre. “É preciso o controlo da melhor forma; saber a quantidade exacta de metros cúbicos que se deve abater, definir as políticas de reposição e depois exigir que a comercialização da madeira deve ser feita na província, para a produção de mobílias e meios para as populações”, sugeriu.

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