“Bombas de combustíveis nas fronteiras com a RDC é um negócio de angolanos”

António Bernardo disse que as autoridades estão a investigar e apela a sociedade com realce a comunicação social para cumprir o seu papel fiscalizador. Acabar com o negócio é o objectivo das autoridades porque segundo o oficial o Estado perde muito dinheiro.

Milton Manaça

O comissário da Polícia Nacional (PN) António Bernardo disse que a quantidade de combustível existente ao longo dos pontos fronteiriços com a República Democrática do Congo “é um negócio organizado de alguns cidadãos nacionais”.

O porta-voz da Operação Transparência, que anteontem apresentou o balanço de um ano de actividades, explicou que, regra geral, só se faz alocação de grandes quantidades de combustíveis naqueles locais em que comprovadamente existe uma grande afluência de viaturas, o que, para o oficial da PN, não é o caso.

António Bernardo deu a entender que a existência de inúmeras bombas de combustíveis nestes locais não tem razão de ser e só pode ser entendida como parte do contrabando de combustíveis adquiridos a um preço módico em Angola e revendidos na RDC a um preço elevado.

“Se não temos muitas viaturas e outros meios motorizados que gastem ou consumam esta quantidade de combustível, por que razão estão ali? E o mais grave é que estas bombas são permanentemente abastecidas˝, disse.

Há poucos anos, o Governo subvencionava combustíveis aos cidadãos, mas o oficial da Polícia questiona se a subvenção era apenas para os nacionais ou alimentava também pessoas que lucravam vendendo no estrangeiro. O também comandante provincial deste órgão do Ministério do Interior na província de Malange disse que as autoridades estão a investigar e apela para a sociedade, particularmente a comunicação social, para cumprir o seu papel de fiscalizadora.

˝Temos de acabar com este negócio, que é pernicioso para Angola, e precisamos de utilizar melhor este combustível, para que sirva os interesses do nosso país˝, referiu. A Operação Transferência foi lançada no dia 25 de Setembro de 2018 com o objectivo de combater o garimpo de diamantes, a imigração ilegal, tráfico de drogas, assim como o contrabando de combustíveis.

Nesta operação interpelou-se a saída ilegal de 200 mil toneladas de combustível, apreendeu-se também um navio petroleiro originário do Panamá, denominado Remus, com cerca de dois milhões e duzentos e 33 mil litros de slops (águas de lastro, da lavagem de tanques e outras misturas de hidrocarbonetos na sala de máquinas e águas de esgoto das operações dos navios).

António Bernardo diz desconhecer o propósito da compra destas águas por outras entidades, vendidas por algumas pessoas em Angola no valor de 29 milhões e 684 mil kz, situação que disse estar a ser investigada pelas autoridades.

“Quem envolve assim tanto dinheiro não o faz inocentemente”, frisou. Os casos dos dois navios, o comissário Bernardo disse que se encontram nas mãos da justiça, que poderá dar as devidas soluções. Com uma actuação inicial nas sete províncias de maior exploração diamantífera, o Governo decidiu, posteriormente, estender a operação para todo o país, de formas a intensificar e consolidar o processo.

Ganhos da Operação Transparência Das multas aplicadas por diversas infracções, o Estado angariou para os seus cofres 97 milhões, 422 mil e 582 Kz.

Só nos últimos cinco meses, as autoridades dizem ter registado ganhos consideráveis com a Operação Transparência, que ‘engordou’ os cofres do Estado com cerca de 3 milhões, 35 mil e 400 kz. Em moedas estrangeiras, entraram para as contas do país 67 mil e 800 dólares. Foram ainda apreendidos 96.86 quilates de diamantes, para além dos valores que já tinham sido depositados ao longo dos meses em que decorreu a operação.

Das multas aplicadas por diversos infracções o Estado angariou para os seus cofres 97 milhões 422 mil e 582 Kz. A Operação Transparência estendeu- se também ao mar e conta com o envolvimento da PGR, SIC e de outros ramos da Polícia Nacional. O objectivo é combater a pesca ilegal e o tráfico de pessoas. Foram definidas quatro zonas de actuação ao longo da costa angolana.

A primeira área compreende as províncias de Cabinda e Soyo; a segunda o N’Zeto, Luanda e Cabo Ledo. Na terceira área estão as zonas do Porto Amboim, Lobito, Baía Farta e da Lucira. Para quarta zona, a operação está a actuar em Moçâmedes, Tômbwa, até à Baía dos Tigres.

Quatro cisternas de combustíveis apreendidas no Luvo

A Polícia Nacional procedeu, ontem, à apreensão de quatro camiões cisterna com 35 mil litros de gasolina contrabandeada, na fronteira do Luvo. Coincidentemente, esta informação foi tornada pública, ontem, pelo Gabinete de Comunicação e Imagem do Ministério do Interior, um dia depois de o comissário António Bernardo ter referido o tráfico internacional de combustíveis em conferência de imprensa. De acordo com especialistas em comunicação naquele território, as viaturas apreendidas encontram-se sob custódia da Polícia de Guarda Fronteiras, para os procedimentos que se impõem, e os condutores detidos para os devidos esclarecimentos.

A fronteira do Luvo tem sido palco de muitas transacções comerciais que obrigam a uma maior acção de fiscalização da Polícia de Guarda Fronteira e outras instituições multissectoriais. Vários são os cidadãos detidos nesta zona acusados de contrabando de combustível – produto que muitas vezes tentam tirar de forma ilegal de Angola para a vizinha República Democrática do Congo.

 

 

 

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