Carro eléctrico – Utopia ou um pilar importante no conceito pós petróleo?

Em tempos numa reportagem à Televisão Pública de Angola a titular da pasta do Ambiente referiu-se a produção de automóveis eléctricos em Angola. A ideia mereceu críticas pelo facto de um país que ainda não consegue, alimentar, educar, dar saneamento básico, água, electricidade, a maioria dos cidadãos e a passar por crise económica prolongada e profunda, aspirar ter uma fábrica de automóveis eléctricos.

O pensamento que ocorre é tratar- se de mais uma megalomania como algumas das que foram idealizadas durante o período do El Dourado dos petrodólares, umas nunca iniciadas, outras por concluir e outras tantas concluídas mas sem utilidade. Como se diz na gíria “gato escaldado tem medo de água fria”. Todavia os maus exemplos não devem impedir-nos de ousar pensar “fora da caixa” e procurar soluções que permitam uma saída transformacional da crise.

É consenso que a actividade industrial de um país e região é uma necessidade imprescindível para o desenvolvimento, são evidentes os efeitos da industrialização no desenvolvimento das economias da China e da Ásia todavia, como alertou o prêmio Nobel de economia Joseph E. Stiglitz, “ A África não pode replicar o modelo de manufactura industrial da Ásia Oriental, a questão é se ela pode alavancar serviços modernos para alcançar o desenvolvimento econômico”. A definição de uma estratégia para alavancar serviços modernos para alcançar o desenvolvimento económico passa pela avaliação dos factores que poderão determinar a sua necessidade e viabilidade futura. Não se tratando de adivinhar mas de avaliar os factores em mudança inexorável, fora da nosso controlo e com alta probabilida- ABDUL SAnTOS Engenheiro de Telecomunicações O PAÍS Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019 31 de para causar um grande impacto na forma como vivemos e trabalhamos hoje.

Entre os factores de mudança inexorável e com grande impacto estão as alterações ambientais, a disponibilidade de recursos energéticos e a população. Há poucas dúvidas sobre o perigo das alterações climáticas para o planeta e sobre o consumo de combustíveis fosseis pelos automóveis, como uma das principais causas dessas alterações. Há praticamente um consenso que força globalmente a mudança dos actuais motores de combustão interna dos automóveis, para motor eléctricos e que obrigada a transformação da indústria automóvel a nível mundial a colocar no mercado veículos mais amigos do ambiente.

Quanto aos recursos energéticos, falando especificamente do petróleo, cuja variação mais nos afecta, precisamos de aceitar que são mesmo não renováveis e que sua exploração, se as reservas não são repostas, significa uma redução real da riqueza, tal como acontece com o dinheiro que se gasta e não se repõe, portanto é bom saber porquanto tempo se poderemos contar com o petróleo. Segundo especialistas o rácio Reservas/Produção indica que o petróleo se esgotará dentro de 15 anos. O economista Ladislau Dowboir na sua visita a Luanda, propôs que seja “trabalhado desde já o conceito pós-petróleo “. Esse conceito poderá incluir, além dos incentivos já em curso para produção agrícola, a concepção e execução de um plano nacional e regional para que dentro de quinze anos o carro eléctrico seja a base de mobilidade para cadeia logística e de transporte de pessoas.

O crescimento da população angolana está acelerado, Luanda é a cidade com mais rápido crescimento do mundo, a sua população crescerá 60% entre 2017 – 2030 e ultrapassará os dez midR lhões de habitantes. Será uma das seis novas mega cidades a emergirematé2030. Dentro de onze anos Luanda terá mais habitantes do que Portugal. A mega cidade mais próxima, sem nenhum grande rio a separar, Kinshasa, por essa altura terá ultrapassado os 15milhões a caminho dos 26,6 milhões em 2035. Serão duas megas cidades muito próximas, com mega oportunidades e mega problemas, um dos quais será certamente a criação de empregos urbanos. O continente enfrenta o desafio de criar a partir de agora mais de 11 milhões de empregos anualmente, o carro eléctrico poderá alavancar uma indústria capaz de absorver uma boa fatia de desempregados e pode ser uma oportunidade para desenvolvimento robusto de relações económicas e comerciais integradas com a RDC.

Estamos em presença perspectivas com alto grau de probalidade de acontecimento, ameaças ambientais, declínio das reservas de petróleo e aumento acelerado da população. Mas nem tudo são perspectivas sombrias. O Governo Angolano planeja investir 23.3 mil milhões no sector de electricidade até 2025 para atingir uma capacidade de produção de 9,9 gigawats de capacidade, esperando um consumo de 7,2 gigwatts. Os estudos de mapeamento de energias renováveis, de 2014 identificaram um o potencial para 55 gigawatts de solar, 3 gigawats de eólica e 18 gigawatts de hidroeléctrica. Portanto há potencial para o estabelecimento de uma matriz de produção de consumo de energia eléctrica renovável.

A região dos Grandes Lagos, onde nos inserimos tem as maiores reservas mundiais de recursos minerais que entram na composição do fabrico dos principais componentes do carro eléctrico, tais como as baterias e os sistemas de computação electrónicos. Há um crescente reconhecimento dos líderes Africanos e em particular da SADC sobre a necessidade do crescimento industrial integrado da região, com base no respeito ao ambiente e utilização de novas tecnologias. Os construtores automóveis BMW, Nissan Motor e VW pretendem levar o carro eléctrico para África do Sul, um dos principais polos da produção industrial de África e membro da SADC. Edward Hightower um veterano da indústria automobilística internacional, com passagem pela GM, Ford, BMW e na expansão da indústria automóvel para China, escreveu o livro “Motoring Africa: Sustainable Automative Industrialization”, como refere “Escrevi o Motoring África para criar uma visão de como as nações africanas podem desenvolver oportunidades para os empreendedores locais, criar empregos para os cidadãos e impulsionar as economias locais através da capacitação industrial no setor africano de fabricação de automóveis”. Mais do que uma visão, o livro é a descrição sistematizada e abrangente para o leapfrog “pulo de rã” que levará a inserção de África na Indústria 4.0, tendo como base a construção de um automóvel eléctrico em cada um dos seis mercados regionais africanos por ele identificados, nos quais se inclui a SADC.

O processo de transformação da indústria automobilística representa uma grande oportunidade para as lideranças africanas e principalmente um grande desafio à sua capacidade de estabelecer um desenvolvimento económico sem espírito individualista, mas integrado e sustentável a nível regional. Para Angola está em causa a criação de condições para o desenvolvimento económico pós petróleo e o futuro das próximas gerações, que não pode ser adivinhado mas pode ser construído.

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