“Precisamos saber quanto (e o que) foi recuperado no repatriamento de capitais”

A socióloga Tânia de carvalho falou em exclusivo para OPAÍS sobre vários assuntos implementados em dois anos de governação do Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço

No âmbito de repatriamento de capitais, a socióloga afirma que a ausência de informações oficiais dos órgãos de direito, dá ao cidadão a possibilidade de fazer especulações e emitir opiniões por vezes contrárias à realidade do sistema. “Isso ocorre quando não se tem uma informação com transparência, sentimos a vontade de fazer especulações e criar uma sensação de descrédito do próprio sistema”.

Pelo facto, aconselha os órgãos de direito a informarem, tendo em conta que o povo precisa de saber quanto o país tem em termos de valores monetários; quanto e o que já foi recuperado nestes 25 meses de Governação e juntos decidirmos o que fazer, já que está claro que a actual governação se quer participativa. Lembrou que os sectores da Educação e da Saúde foram os que mais fi caram prejudicados com a delapidação exacerbada do erário público, sendo que nunca se registou uma quota signifi cativa para estes secto esperes, e o desenvolvimento para qualquer país depende destes serviços. Se o que foi recuperado fosse alocado para os sectores referidos, seria positivo, segundo a socióloga.

Tânia de Carvalho é de opinião que o Governo chame os actores que diariamente lutam para que o cidadão tenha uma educação com mais qualidade e em quantidade. “Sugiro que criemos uma comissão para a defi nição de estratégias do uso dos bens e activos recuperados no Serviço Nacional de Recuperação de Activos que pode estender o processo para a sociedade toda, tendo em conta que faz parte da PGR. O cidadão precisa de ouvir já, para ter as coisas bem defi nidas e saber alocar as verbas recuperadas”. De acordo com a socióloga, a actual governação conquistou, numa primeira fase, a confi ança do cidadão, por ter apresentado como objectivos fundamentais da sua acção três grandes pilares, que convencem “a olho nu”, e ainda dá alguma esperança na luta contra a corrupção, o nepotismo e branqueamento de capitais.

Afirmou que João Manuel Gonçalves Lourenço deu uma lufada de ar fresco no cenário político angolano, sendo que anteriormente havia uma asfi xia da sociedade civil por parte do sector político. Antes, registava-se um controlo exagerado, situação que criava a todo o instante um clima de insegurança e ausência de liberdade de expressão, a padronização da comunicação social por parte do sistema político.

Nova governação fez mais visitas do que em 38 anos do antigo Governo

Outro aspecto relevante a se ter em conta, de acordo com a especialista, é o relacionamento de Angola com a comunidade internacional ao mais alto nível, ao contrário do governo passado. “Hoje temos um Presidente mais comunicativo, mais presente, um líder que realmente prima pela interação pessoal com questões internacionais que mexem e movem a economia e o sistema financeiro a nível mundial”.

No antigo Governo o Presidente era excessivamente mais do palácio e menos da rua, menos comunicativo, e a situação que o país vivia, internacionalmente, taxou-o negativamente. O actual Presidente encontrou o país fi nanceiramente bloqueado e estático, pelo que tem-se feito muito para mudar o quadro internacionalmente, assim como conseguir algum dinheiro, ainda que pouco e insufi ciente diante dos anseios do país, com o objectivo de renovar as esperanças e permitir ver uma luz no fundo do túnel.

Corrupção continua ser uma realidade

De acordo com Tânia de Carvalho, a corrupção ainda é uma realidade, apesar de ser uma das bandeiras que convenceram todo cidadão, quer seja os que votaram na Oposição ou no partido do poder, a sentir conforto no programa apresentado para governação do actual Presidente. A partir do momento em que o PR reconhece a existência de corrupção no Estado angolano, toma uma posição de retaguarda, por mais que venha alterar as estratégias, “está proibido de falhar, porque lutando contra a corrupção estaremos a aceitar novos desafi os e propormonos caminhar para o bem do próprio país”. Sobre a Operação Resgate, disse que faltou a conversa inicial com os intervenientes no processo, pelo que foi mal compreendida nos seus objectivos. Lembra que nas primeiras semanas da sua implementação registou-se uma qualidade, houve tranquilidade nas ruas de Luanda e trabalharam apenas os que estavam legais. Acredita que a operação não morreu, nem esfriou, mas sim os autores estejam a mudar as estratégias e a forma de actuação, pelo que, no seu entender, quando voltar a ser reactivada nos mesmos moldes, com novas estratégias, terá um impacto positivo, tendo em conta que a sociedade civil começa a ser ouvida de forma diferente.

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