Fé sem acção é mesmo ilusão!

Por:Israel Campos

Continuamos os mesmos de sempre. O compor tamento, manias, e acções denunciam a falta de mudança e evolução nas nossas atitudes. No início da madrugada de Sexta-feira, 27, após aquilo que o jornalista Armindo Laureano chamou de “depressão pós-Top nas redes sociais”, na sequência da gala do Top dos Mais Queridos, um dia antes, alertei aos meus internautas sobre a necessidade de apontarmos menos os dedos e passarmos, para o nosso próprio bem, a fazer mais, pois o conforto da fala não produz o efeito que a oportunidade da acção talvez faria. Talvez a relação profi ssional e afectiva que tenho com a instituição organizadora do Top dos Mais Queridos, a Rádio Nacional de Angola, não faça de mim a pessoa ideal para comentar este concurso, em particular, pelo que, em respeito à imparcialidade, vou somente utilizar o exemplo da reação de muitas pessoas aos resultados fi nais do concurso para falar sobre uma realidade que todos nós conhecemos mas que a hipocrisia dos olhos vendados e interesses emocionais não nos permitem ver, que é a seguinte: continuamos à espera de resultados irrealistas, baseados nas nossas crenças pessoais, ignorando tudo o resto a volta. Só se recebe aquilo que se dá. A fé sem obras é morta. Não há nada para quem não deu nada. A lista de dizeres é tão longa que precisaria de mais algumas páginas deste jornal se quisesse incluir todas elas. Tudo isto para dizer que de nada adianta os lamentos, aqui e acolá, sobre o quão tristes estamos pornão vermos as nossas expectativas se tornarem realidade, ou o nosso artista favorito vencer, no caso do Top dos Mais Queridos, em particular, quando nem sequer nos preocupamos, semanas antes do concurso, em saber quais eram os procedimentos de acesso à votação pública, aberta muito antes da gala fi nal, isso eu posso comprovar. Conheço pessoas cujas expectativas na vitória de certos artistas, ainda sobre o Top dos Mais Queridos, resumia-se em coisas como “esse som bateu muito este ano!!! Ele/a já ganhou!”, cegando-se na auto-ilusão do “já ganhou” porque a música foi supostamente muito popular durante o ano. Mas não é bem assim que as coisas funcionam, ao menos nos concursos de música. Não é sobre quantas lágrimas a música “Alma Gémea”, de Halison Paixão, a título de exemplo, fez derramar ou então sobre quantos corpos a “Pedra” do Petro Show fez mexer. É mesmo sobre votar, garantindo, assim, a melhor posição para o nosso artista favorito. Se fosse sobre quem mais “bateu” talvez a organização escusava- se do grande investimento no aparato de votação e outros e limitava-se, dentro da sua vontade e dos seus ouvintes, a anunciar “a música do ano”, sem outros concorrentes e afi ns. Daí surge a grande necessidade das pessoas, para além de tudo e qualquer coisa, conhecerem as regulamentações em torno dos concursos, organizações etc. Talvez assim, teriam uma noção mais clara daquilo que se trata e evitariam certas reacções… Compreendo que no auge da raiva e desapontamento pessoal talvez acusar de fraude, ou como nós dizemos de “batota”, seja o caminho mais facilitado de se fazer para aquele que, primeiro, não votou bem como para aquele que, de facto, votou, mas cujos votos não foram sufi cientes para tornar desejos em realidade. Não estou aqui, de modo algum, a dizer que os sistemas de votação sejam perfeitos ou a contribuir para a negação da liberdade das pessoas se expressarem sobre as suas inquietações, sobretudo no caso do Top dos Mais Queridos que é organizado por uma instituição de domínio público. É claro que há legitimidade nas manifestações de várias ordens mas aqui, neste caso, elas não podem se esgotar só na acusação gratuita à organização do evento. É preciso que as pessoas sustentem as suas interrogações e falta de confi anseu artista favorito para o Top dos Mais Queridos da RNA mas, ainda assim, se vê acolhido pelo direito da contestação aos resultados é o mesmo que falar daquele cidadão que nem sequer cartão eleitoral tem mas que depois do anúncio dos resultados eleitorais é o primeiro a vir a público dizer “este país já não muda”; ou o mesmo que falar daquele jovem desempregado, que mesmo tendo noção da realização, não foi a manifestação contra o desemprego e passa o dia inteiro no lamento e dor. A necessidade de tomarmos acção por aquilo que acreditamos é um dos únicos elementos fundamentais que nos vai garantir a legitimidade de apontar o dedo, quando nos sentirmos traídos ou enganados. Não é honesto nem um bocado sério que façamos o contrário. Cidadania só com maior envolvimento O conforto de estarmos por detrás de perfi s nas redes sociais e ça nos resultados, o que em muitos casos, lamento informar, não será possível pois grande parte daqueles que reclamam são mesmo aqueles que não votam, e disto já estamos, todos, cansados de saber. Falar daquele que não votou no a preguiça e/ou falta de vontade de irmos tomar acção em prol das nossas crenças defi ne, muito bem, a sociedade e o país que temos. Muitos dos grandes problemas, que gravemente comprometeram o nosso desenvolvimento, enquanto nação, são, também, consequência do conforto e/ou da cobardia de alguns fazerem o caminho rumo à defesa do que acreditavam. E quando falamos desse “caminho” não estamos a falar, necessariamente, como muitos pensam, em irmos todos para a rua fazer manifestação. O exercício de cidadania é muito mais do que isso. Sermos participativos é conhecermos os nossos direitos e deveres, é estudarmos as regras, é nos levantarmos quando sentirmos que alguma coisa não está dentro da lei, é desafi armos o poder, é votarmos, é partilharmos, é ouvirmos, é discordarmos, é concordarmos, é fazermos tudo e qualquer coisa, menos fazermos nada.

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