Paulo Flores: “A minha arte é pelos outros”

 O tributo à fadista portuguesa Amália Rodrigues, no próximo dia 17 de Outubro, no Cine Atlântico, em Luanda, é o mote desta conversa com Paulo Flores, um dos músicos mais cotados e irreverentes da música popular angolana da sua geração. Além deste particular, “Ti Paulito” como é também tratado, falou da carreira e das memórias que guarda da sua trajectória de mais de 30 anos.

Jorge Fernandes

Paulo Flores é dos músicos angolanos mais conceituados, quando olha para trajectória que fez, o que lhe ocorre?

Muitas memórias, muito esforço de muita gente, do meu pai, em particular, que foi o grande impulsionador, o que mais acreditou em mim quando nem eu acreditava, mas essencialmente muita gratidão, pela forma e pelo amor das pessoas, pela forma como deixaram a minha música e as minhas palavras fazerem parte das suas vidas, muita gratidão.

Mais de trinta anos de carreira, o que sente que falta fazer pela música angolana?

Tudo o que se puder ainda fazer, reinventar, ouvir os outros, criar Paulo Flores: “A minha arte é pelos outros” O tributo à fadista portuguesa Amália Rodrigues, no próximo dia 17 de Outubro, no Cine Atlântico, em Luanda, é o mote desta conversa com Paulo Flores, um dos músicos mais cotados e irreverentes da música popular angolana da sua geração. Além deste particular, “Ti Paulito” como é também tratado, falou da carreira e das memórias que guarda da sua trajectória de mais de 30 anos novos ritmos novas palavras, procurar sempre aprender tudo outra vez, é o que me falta fazer pela música de Angola, tudo outra vez e sentir o mesmo como se fosse a primeira vez.

Durante muito tempo Paulo Flores foi “conotado”, talvez pelo tipo de mensagens que traz em certas músicas como um “revu”, com o actual momento político acha que esta percepção se inverteu?

A minha arte é pelos outros, não consigo conceber de outra maneira, a minha música não é política é amor, é generosidade, é um tributo a toda essa gente sofrida sem voz, esse é o principal conceito da minha criação, muitas vezes a política cartaz seu suplemento diário de lazer e cultura e os contextos do nosso país é que tentam corromper a minha arte, com esse tipo de definição como “Revu”, isso não me interessava muito quando muitos até deixaram de falar comigo como se eu fosse o inimigo público número um, assim como não faz grande diferença quando agora os mesmos tentam elogiar ou dizer que eu é que estava certo, não o faço por eles, mas pelos outros, os que sofrem de verdade, infelizmente a grande maioria. Foi convidado a integrar o painel de músicos da 5ª edição do Festival Caixa Fado, o que é que este convite representa para si e que impacto pode ter na sua carreira?

Essencialmente é um prazer muito grande fazer parte de um evento tão prestigiante e que homenageia a língua portuguesa, o fado e os seus criadores e intérpretes.

O que podemos esperar do Paulo Flores no dia 17 de Outubro no Cine Atlântico?

Podem esperar uma homenagem sentida da minha parte à grande Amália Rodrigues, que foi uma das pessoas que me influenciou na forma e na rítmica do seu canto único e também com a sua personalidade e história de vida.

Qual é a sua opinião sobre a realização deste grande evento que une Angola e Portugal através dessa grande manifestação cultural que é a música?

É sempre importante exercitar formas de aproximação entre os povos, sendo a cultura com certeza a forma mais propícia para este exercício de realçar as afinidades e compreender e aceitar as diferenças como parte da grandiosidade e diversidade cultural dos nossos dois povos.

A quinta edição do Festival Caixa Fado tem como mote o tributo a Amália Rodrigues, considerada rainha do Fado, o público vai ver Paulo Flores a interpretar as suas canções?

Irei, com toda a certeza, cantar alguma música da Senhora Dona Amália, vamos ver quais, mas cantarei duas das minhas preferidas. As expectativas do público em relação aos duetos, será que estarão a levá-lo a preparar-se de forma diferente para este festival?

Sim, estamos a preparar uma sentida homenagem, onde os duetos serão com certeza a partilha de todas as nossas experiências e influências enquanto seres humanos e criadores, a grande dificuldade para mim está na escolha, entre tantas músicas e letras lindas de Amália Rodrigues escolher duas ou três. isso é que está a ser o mais difícil, mas, sinceramente, acho que vai ser lindo.

No final do festival, que valor Angola e Portugal poderão partilhar desta experiência cultural?

O que se ganha é o que nos sobra depois de todos os aplausos, a vida, de facto, as amizades, os afectos, as partidas, as saudades. Esse é o verdadeiro exercício de aproximação dos povos e será com certeza o que nos sobrará depois.

Trajectória

Paulo Alexandre da Silva Flores (Cazenga, Luanda, 1 de Julho de 1972) é um dos cantores mais populares do país. Aos 16 anos grava na Rádio de Luanda “Kapuete Kamundanda” (1988), onde o tema “Cherry” protagoniza um novo género musical, a kizomba (que significa Festa em kimbundu), fusão de ritmos do zouk das Antilhas com elementos do Congo e de Angola, com grande predominância de teclados electrónicos. Paulo Flores aparece assim, juntamente com Eduardo Paim, na primeira linha deste movimento crucial da música de dança africana (lusófona) de cariz urbano, popularizada em Portugal nos anos 1980, a kizomba.

Da sua vasta discografia constam os álbuns, Kapuete (1988), Sassasa ( 1990), Coração Farrapo e Cherry (1991), Brincadeira Tem Hora (1993), Inocente (1995), Perto do Fim (1998), Recompasso (2001), Xé Povo, The Best, Quintal do Semba (2003), Ao Vivo (2004), Ex Combatentes (2009), Excombatentes Redux (2012), O País Que Nasceu Meu Pai (2013) Bolo de Aniversário (2016) e Kandongueiro Voador (2017). Trajectória Durante o evento foram homenageados vários artistas, entre eles a cantora Edna Mateia

 

 

 

error: Content is protected !!