“O povo deverá exigir mais e melhor do Governo para gerir o seu dinheiro”

A introdução do IVA no sistema fiscal angolano constitui o assunto da semana. O economista Yuri Quixina defende maior pressão sobre o Governo para cumprir as suas responsabilidades, porque vai arrecadar mais receitas

Por:Mariano Quissola I Rádio Mais

A semana passada ficou marcada com o balanço dos primeiros dois anos de mandato do Presidente da República. “O que não se fez em 44 anos não se pode esperar que se faça em dois”. Afirmou João Lourenço. Que comentário? Quando o Presidente da República defende que o que não se fez em 44 anos não se faz em dois, penso que é uma chapada sem mãos ao seu próprio partido que ficou e está esse tempo no poder. É, também, um sinal que precisa de mais um mandato para resolver os problemas que o país tem. Do ponto de vista económico há uma tentativa de reforma estrutural, mesmo no processo de privatização. Do ponto de vista social já devíamos sentir melhorias significativas, na Saúde, saneamento básico e Educação. A nível da justiça ainda se registam injustiças.

Como justifica?

Não acabamos com o excesso de casos de prisão preventiva nos casos não mediáticos. Há muita gente sem poder que está presa preventivamente à espera de julgamento, regista-se fuga de informação sobre processos em julgamento, que aparecem nas redes sociais, que acho negativo para a justiça. Entretanto, considero um ganho a imagem do país a nível externo, fruto do esforço que o Presidente tem feito nos dois últimos anos

. Do ponto de vista social, acha que as pessoas estão a pensar mais com a barriga do que com a cabeça?

A barriga é importante, porque um saco vazio não fica em pé. Hoje as pessoas não querem saber se há ou não justiça, querem, sim, o pão na mesa.

Pensa que se as pessoas tivessem mais informação sobre o processo de reforma as suas consequências imediatas seriam mais compreensivas?

Até certo ponto. Temos memória curta. Isso aconteceu em Portugal. Hoje o povo português esquece quem os levou à crise, já não quer o PSD, quer o PS. Esqueceram- se que foi o PS que os levou à crise, mas hoje o povo acusa o PSD, que terá tomado medidas draconianas. O povo pensa no curto prazo.

E o IVA entra em vigor, com o facto de que não terá incidência sobre os produtos da cesta básica e os serviços hospitalares e Educação. As pessoas sabem o que vem a seguir?

Penso que ainda falta informação, mesmo a nível dos media. Se analisarmos alguns títulos da imprensa, parecem mais de propaganda e não informam. Afirmar que Angola entra na lista dos países que cobram o IVA, passa a ideia de que o país vai ganhar e, pronto, vamos sair da crise. O povo vai sentir na prática e é o melhor explicador. Mas vai reduzir o rendimento das famílias, lá isso vai.

Mas aumenta a arrecadação de receitas pelo Estado. O que esperar como benefício?

O que o povo deverá fazer é exigir mais e melhor do Governo para gerir o seu dinheiro, de contrário não se pode esperar nada.

Que meios usar para fazer essa exigência?

Existem vários meios de pressão. A rádio, a televisão, o parlamento… isso influencia que o Estado utilize bem o dinheiro público.

A revisão da lei sobre branqueamento de capitais continua a ser um desafio, com implicações na atracção de investimento externo.

Sim, porque estamos a falar de lavagem de dinheiro, que saem da porta pequena para financiar actividades ilícitas, que podem prejudicar a imagem da economia e do país, de modo geral. Essas são as reclamações que os bancos americanos apresentaram para a retirada dos dólares na economia angolana. Essa matéria é crucial e é exigência do FMI. Não cumprimos na primeira avaliação, vamos ver se conseguimos na segunda. Mas é necessário mencionar que quem lida com esses crimes são pessoas ‘grandes’, ligadas à política. As pessoas que, geralmente, praticam esses actos capturam os políticos, porque são eles que fazem as normas de regulação dos sistemas. As pessoas envolvidas no caso Arosfram, por exemplo, não são pequenas. O que o FMI pretende é que o país esteja na lista dos países com melhores prática d no sector financeiro.

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