Morreu Freitas do Amaral

Freitas do Amaral, o último dos líderes fundadores do regime democrático, antigo líder do CDS e “senador” da política portuguesa, tinha 78 anos.

Era uma voz moderada, e bateu-se por isso nos últimos anos da sua vida. Causou polémica quando, tendo sido fundador do CDS, aceitou fazer parte de um governo do PS. Mas essa foi uma transição que simbolizou a sua vida.

Nascido a 21 de julho de 1941, Freitas do Amaral foi um dos fundadores – e primeiro presidente – do CDS. Era o último sobrevivente dos quatro líderes partidários que fundaram o regime no pós 25 de Abril (Francisco Sá Carneiro, Mário Soares e Álvaro Cunhal).

Desde sempre defensor de uma democracia-cristã de matriz europeia, Freitas foi um dos nomes que, a 19 de Julho de 1974, fundou o centro Democrático Social (CDS), ao lado de nomes como Adelino Amaro da Costa ou Basílio Horta, entre outros.

Em Janeiro do ano seguinte foi eleito líder do partido, num famoso congresso no Palácio de Cristal, no Porto, que chegou a estar cercado durante 12 horas, obrigando à intervenção do COPCON. “Foi o maior pesadelo da minha vida”, diria Freitas desse momento, nas suas memórias políticas.

Em 1975 foi deputado à Assembleia Constituinte e quatro anos depois formou, com o PSD de Francisco Sá Carneiro e o PPM de Gonçalo Ribeiro-Telles a Aliança Democrática, que viria a vencer as eleições nesse ano, e no seguinte. Foi vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros do VI governo constitucional, liderado por Sá Carneiro.

Em Dezembro de 1980, foi Freitas quem anunciou aos portugueses a queda do Cessna que vitimou o então primeiro-ministro, em Camarate, assumindo depois a liderança interina do executivo, assegurando a transição para o governo de Francisco Pinto Balsemão (1981/1983), em que assume novamente as funções de vice-primeiro-ministro, além da pasta da Defesa. Em 1986 foi candidato à Presidência da República, protagonizando com Mário Soares a mais disputada campanha presidencial de sempre.

Foi apoiado pelo seu partido e pelo PSD, ganhando mesmo a primeira volta das presidenciais, com 46,3% dos votos. Mas Freitas aba por ser derrotado por Mário Soares (que entretanto tinha recebido o apoio do PCP), numa segunda volta que dá ao líder centrista 48,82% dos votos, insuficientes para bater os 51,18% de Soares.

Em ruptura com o partido que fundara e que, entretanto, sob a presidência de Manuel Monteiro, assumira a designação de CDS/PP – Partido Popular – Freitas viria a deixar o CDS em 1992, mas dizendo – como disse toda a vida – que nunca saiu do lugar político onde tinha começado: o centro.

Entre 1995 e 1996 foi presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas. Causou grande escândalo por ter aceite o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros na primeira legislatura de José Sócrates, em 2005 e 2006.

Freitas do Amaral licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1963, tendo-se doutorado em 1967 – foi também professor de Direito Administrativo na mesma universidade e, em 1977, tornou-se também professor da Universidade Católica Portuguesa.

 . Estava internado nos cuidados intermédios no Hospital da CUF, em Cascais, desde meados de Setembro. Marcelo: “Morreu um dos pais fundadores” do actual sistema político.

O Presidente da República já reagiu à notícia da morte de Freitas do Amaral, manifestando o seu “mais fundo pesar” pelo falecimento de “um dos quatro Pais Fundadores do sistema político-partidário democrático em Portugal, como presidente do Centro Democrático e Social”.

“A Diogo Freitas do Amaral deve a Democracia portuguesa o ter conquistado para a direita um espaço de existência próprio no regime político nascente, apesar das suas tantas vezes afirmadas convicções centristas”, escreve o presidente da República, destacando a “sua participação na mais notável e disputada eleição presidencial em Democracia, e na qual avultaram os dois competidores da segunda volta, ambos Pais fundadores do regime e ambos potenciais primeiros Presidentes da República civis [Freitas e Mário Soares] “.

“Portugal deve-lhe, além desse contributo único, apenas partilhado em importância fundacional com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Álvaro Cunhal – cada qual a seu modo – uma vida devotada à Educação, na Universidade, onde foi Mestre insigne – na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa como na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e em inúmeras outras Escolas onde leccionou como Professor Convidado -,mas, por igual na escrita, na palavra, nas múltiplas instituições em que exercitou a sua natural e tão admirada vocação pedagógica e o seu culto pela História Pátria”, recorda Marcelo rebelo de Sousa, que diz também ter perdido “um grande amigo pessoal de meio século”.

Foi decretado um dia de luto nacional pela morte de Freitas do Amaral.

DN

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