Carta do leitor:Adeus tendas

 

Mário Roque
Zango- Luanda

A notícia passa pela televisão pela primeira vez. Ainda não dava para acreditar. Numa segunda vez deu para perceber que se tratava de algo verdadeiro e não das habituais fakenews que diariamente invadem as nossas casas. Felizmente, depois de muitos anos, os moradores das tendas do Zango começaram a receber as suas residências, no mesmo distrito, numa fase em que poucos ainda acreditavam que este dia fosse chegar. Quem ao longo dos anos conseguiu passar por muitas das zonas em que estavam as tendas, no Zango I, tem a mínima noção do que acontecia, a forma menos digna como viviam milhares de cidadãos, a maioria deles provenientes também de bairros pobres da capital. A luta por um tecto era constante. Alguns ainda acreditavam que este dia fosse chegar. Outros nem sequer puderam testemunhar, tendo perdido a vida ante a miséria a que estavam submetidos ou, como alguns deles mesmo diziam, forçados por quem os devia proteger. Sair das tendas, de uma casa de chapa, para uma de construção definitiva é sempre um passo, embora já se notem descontentamentos porque os beneficiários esperavam por casas maiores, tendo em conta o agregado. O que se espera agora, uma vez que nem todos beneficiaram, é que o processo seja transparente. Não seja permitido que alguns intrujões tenham acesso às residências que devem ser entregues àqueles que mais necessitam. A forma vertiginosa como cresceu o número de cubatas no Zango I, e também na conhecida Ilha Seca, demonstra claramente que nem todos os que lá estão devem ser sinistrados saídos de algumas partes de Luanda. O conluio com algumas autoridades da Administração de Viana e até mesmo no topo da província de Luanda fez com que muitos aproveitadores montassem também as suas cubatas porque tinham a certeza de que dias como estes em que se distribuem casas chegariam. Vivemos novos tempos. É preciso que isso se faça sentir em todos os domínios. E não dar aos que já têm como se se tratasse de uma competição de colecção de residências, para depois colocarem à venda.

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