Perdeu três filhos e a mãe nos 10 anos de luta por uma casa

Acabou o sofrimento de cerca de 200 famílias, mas para trás ficam histórias marcadas pela dor, doenças e perdas humanas que não resistiram às condições de habitabilidade a que foram submetidas, como é o caso de Joana Luísa, que viu sucumbir cinco membros da sua família

Na longa travessia de 10 anos em condições precárias a viver em tendas, Joana Luísa, de 44 anos, viu morrer sucessivamente três filhos, a mãe e um cunhado, depois de terem sido retirados da Ilha do Cabo, centro da cidade, para serem colocados no Zango 1, em casebres improvisados feitos de chapas de zinco e tendas. Enfrentou chuvas e altas temperaturas nas tendas que eram divididas com outras três famílias durante uma década. Finalmente, foi agraciada com uma casa de tipologia T2 evolutiva, onde vive com o esposo uma filha e dois netos.

Os compartimentos são apertados e a sala é ao mesmo tempo a cozinha, mas, ainda assim, a casa foi recebida com muita satisfação pelos ex-moradores da Ilha. “Queremos esquecer as doenças, que é o que mais nos marcou neste período e alegramonos pela casa que recebemos”, disse Joana Luísa.

“A temperatura causou-me hipertensão”

Pedro Pinto tornou-se hipertenso durante o período que viveu no casebre de chapas e, segundo ele, a explicação que recebeu dos médicos é de que a doença é resultado das altas temperaturas que enfrentou no interior da casa. Segundo contou, o seu estado actual é apenas um de vários casos que se registou neste período, muitos dos quais resultaram em mortes. Para trás ficam as sequelas trazidas pelas dores e pensamentos, e neste momento realça que “os 10 anos são para esquecer”, preferindo olhar para frente. No novo bairro, baptizado com o nome de Luanda Limpa, as pessoas dizem estar dispostas a começar outra vida e a alegria é vista até nas próprias crianças, muitas delas nascidas no Zango 1, a quem os próprios pais apelidaram de “Tendinha”, “Zango” ou “Chapinha”, em referência ao local em que passaram os 10 últimos anos.

Foi o processo mais justo

Pedro Pinto diz que este foi o processo de realojamento mais justo que ocorreu nos últimos anos no Zango, tendo-se queixado dos outros processos que, segundo ele, contemplaram pessoas que nunca passaram pelas tendas e casas de chapas. “Ficamos ali este tempo todo e o que assistíamos eram outras pessoas que nunca foram desalojadas a serem beneficiadas. Felizmente, desta vez as coisas correram de forma diferente”, disse. O facto foi corroborado pelas irmãs Isabel e Madalena Gomes, que alegam que nos processos passados os beneficiários foram pessoas infiltradas que nunca residiram na Ilha, tão-pouco enfrentaram o calvário dos 10 anos nas tendas e casebres de chapas.

Água ainda não jorra

Em todas as residências foram instaladas canalizações de água, mas, infelizmente, ainda não estão a funcionar. Nesta primeira semana, a distribuição de água está a ser feita por camiõescisterna que estão a comercializar a preços considerados exorbitantes. O tambor de 200 litros, por exemplo, está a ser vendido a 500 kz, enquanto um bidon de 20 litros está a ser comercializado a 100 kz. Pela escassez de água, muitos moradores ainda não estão a usar os quartos de banho. No que diz respeito à luz eléctrica, os moradores dizem não ter motivos para reclamações, já que até ao momento não se registam falhas consideráveis.

“É preciso rezar pelos 800 que ficaram”

Apesar do regozijo pela nova etapa da vida que agora começa, entre os beneficiários há os que pensam que a sua felicidade só estará completa quando as restantes 800 famílias com quem partilharam a última década, forem contempladas também em todas as suas habitações. “É preciso rezar pelos outros que ficaram, porque só nós que passamos por lá sabemos o que eles estão a passar neste momento”, disse Joana Luísa. Jú Antónia é uma das integrantes das 800 famílias que aguardam pela nova transferência de moradores. Ainda sem data para que sejam beneficiados, diz que na sua tenda foram colocadas quatro famílias e, destas, apenas uma teve a sorte de receber a casa de construção definitiva. A convite de familiares e antigos vizinhos, Jú visitou o bairro Luanda Limpa e apesar de considerar que as dimensões são reduzidas, espera que o processo seja célere para que não terminem a época chuvosa ali. “Vamos completar 11 anos, mas estamos esperançosos que a nossa vez chegue depressa”, disse.

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