“Um país não se constrói com revanchismos”

A audiência de ontem foi dominada pelo interrogatório inesperado do general roberto Leal Monteiro “Ngongo,” antigo primeiro substituto do Chefe de Estado Maior General e chefe da direcção Principal de Operações das FAPLA na data em que ocorreu a célebre Batalha do Cuito Cuanavale, e de trabalhadores do Serviço de Inteligência e Segurança Militar (SISM)

“Um país não se constrói com revanchismos, se optarmos por esta via, o país não irá longe”, afirmou ontem o deputado do MPLA Roberto Leal Monteiro “Ngongo,” ao concluir os esclarecimentos que prestava diante da equipa de juízes do Supremo Tribunal Militar encarregue do julgamento do general António José Maria.

Esta declaração espontânea do deputado, que foi ouvido como testemunha, surpreendeu todos os presentes na sala, pois, apesar de ter sido autorizado pelo tribunal a proferir o desabafo, que advertiu previamente que seria político, não esperavam que fosse bastante incisiva. Os juízes optaram por não consignar na acta, ao que Sérgio Raimundo, o líder da equipa de defesa, protestou, mas não teve êxito. A instância do tribunal manteve a sua decisão e nem por via da consignação de um protesto na acta o causídico conseguiu demovê-la.

O parlamentar compareceu ao tribunal dois dias depois de a equipa de advogados do general na reforma Zé Maria, ex-chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar (SISM), ter manifestado ao tribunal que preteria deste interrogatório, como dos de França Van- Dúnem, França Ndalu e Salomão Xirimbimbi, por considerar que já foram produzidas provas suficientes para se proferir a sentença. No entanto, Roberto Leal Monteiro compareceu na sala de audiências, quando todos menos esperavam, com o intuito de contribuir para a descoberta da verdade material e advertir aos juízes e a sociedade de que este processo em nada abona o bom nome do país. “Nós estamos a fazer, infelizmente, daquilo que nos devia vangloriar uma derrota. Até fontes estamos a queimar.

Não há serviços de inteligência que queimam as suas fontes”, frisou. Acrescentou de seguida que “todos os serviços de inteligência no mundo têm as suas fontes”. No seu ponto de vista, a forma como a fonte dos documentos sobre a Batalha do Cuito Cuanavale (o espião luso-sul-africano-moçambicano Manuel Vicente da Cruz Gaspar) está a ser exposta poderá inibir as outras de colaborarem com os serviços secretos angolanos. Questionado por Sérgio Raimundo se os documentos e mapas sobre a Batalha do Cuito Cuanavale ainda são classificado como secretos, a testemunha recorreu ao facto de a lei angolana que define a classificação de documentos estabelecer que essa categoria vigora por um período de 25 anos, para fundamentar que considera não constituírem segredo militar. Sublinhou que um documento considerado segredo militar na África do Sul não tem a mesma classificação em Angola, até porque, se aquele país não divulga “é por não pretender que se saiba que a supremacia branca foi derrotada”. Para si, o mais importante seria o reconhecimento do trabalho que realizado pelo SISM para conseguir documentos que retractam o reconhecimento das autoridades sul-africanas sobre a derrota que sofreram em território angolano. “É isso que deve ser divulgado para o ego de todos os angolanos e demostração de que as ex-FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) cumpriram com o seu papel na defesa da soberania e da integridade de Angola”, declarou. No seu ponto de vista, acções do género vão ajudar os historiadores a contar a “verdadeira história” sobre tais acontecimentos que ocorreram na província do Cuando Cubango, na década de 1980.

Em colação a outras versões, quer seja da UNITA (que participou com o seu antigo braço armado, as extintas Forças Armadas de Libertação de Angola), da África do Sul, de Cuba e da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (actual Rússia).

Ministros testemunharam apresentação pública de documentos sobre a batalha

O general “Ngongo”, como é mais conhecido nas lides militares, chamou a atenção dos presentes de que há documentos sobre a referida batalha que já foram expostos em conferências nacionais e internacionais, algumas realizadas no exterior do país, que contaram com a participação de membros do Executivo liderado por João Lourenço, a entidade que terá ordenado ao general Fernando Garcia Miala, chefe do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE), que solicitasse ao general na reforma Zé Maria a devolução dos documentos sobre a referida batalha, que havia retirado do SISM sem autorização, no prazo de 48 horas. Citou como exemplo a conferências sobre a batalha do Cuito Cuanavale realizada em países como a Inglaterra, a Rússia e Cuba.

Na conferência realizada na Inglaterra, o ministro da Defesa, Salviano de Jesus Sequeira, foi um dos intervenientes, através do sistema de videoconferência. Além das conferências naqueles países, o mesmo governante participou noutra realizada em Luanda pelo grupo parlamentar do MPLA.

Neste evento, também foi lida e apresentados a acta de capitulação do então exército de segregação racial sul-africano, na qual assumem a derrota e invocam a necessidade de se libertar Nelson Mandela da cadeia. Já no evento que decorreu na Rússia, onde o general Zé Maria apresentou publicamente o referido documento, além do general “Ngongo”, que participou como convidado das autoridades daquele país, esteve presente o ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos Liberdade.

 

Hora da retirada dos documentos do SISM gera controvérsia

O horário em que foram retirados os documentos da sede do SISM, que originaram a acusação de o ex-responsável máximo dessa instituição ter cometido os crimes de insubordinação e de extravio de documentos, aparelho ou objecto que contém informações de carácter militar e de insubordinação, voltou a gerar divergências.

Os membros da equipa de operacionais do SISM que esteve de serviço nesse dia foram unânimes em afirmar que as carrinhas chegaram à instituição às 18 horas e só terminaram de transportar os materiais para as residências do arguido à meia-noite. Trata-se de Mendes Epalanga (oficial dia), Manuel Alberto (oficial dia adjunto), Isidro da Costa e domingos Bastos (motoristas) e Adilson João (electricista). Este último disse que esteve encarregue do transporte dos materiais para a casa do general na reforma da Praia do Bispo.

Porém, as declarações deles foram contrariadas pelos trabalhadores civis da mesma instituição destacados na direcção de Transportes. Crisando Moreno, fiel de armazém do SISM, declarou que as carrinhas contendo tais materiais chegaram à repartição de Transportes (onde estão instalados dois contentores do acusado) no período da manhã. Essa informação confirma a do general Zé Maria, de que os documentos foram retirados de dia e não à noite.

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