Semba ganha estatuto de Património Cultural Imaterial Nacional em 2020

No ano em curso, o estilo de dança e música Rebita ganhou o mesmo estatuto. Em 2020, será a vez do Semba que só não foi elevado ao mesmo estatuto, este ano, pelo facto de assemelhar-se aos estilos Merengue e Rumba

A directora do Instituto Nacional do Património Cultural (INPC), Cecília Gourgel, avançou, em exclusivo a OPAÍS, que até Janeiro ou Abril do próximo ano o estilo de dança e música Semba vai ser elevado a Património Cultural Imaterial Nacional. Até ao primeiro semestre deste ano, aquando da elevação da Rebita ao mesmo estatuto, Cecília Gourgel disse a este jornal que só estava em falta uma equipa mutidisciplinar de investigadores para se prosseguir com os trabalhos.

Agora que já está montada essa equipa, revela que o processo caminha a bom ritmo. “Os nossos técnicos do Instituto Politécnico de Arte ‘Complexo das Escolas de Arte’ – CEART, estão a fazer as investigações bibliográficas, as entrevistas a alguns músicos, principalmente aqueles que estão directamente ligados ao Semba”, adiantou.

A directora do INPC referiu que está em Angola o investigador português André Bastos Soares, que tem como tese de doutoramento o Semba. Aproveitando a brecha, o INCP, órgão afecto ao Ministério da Cultura, vai custear a sua vinda, para juntar-se à equipa multidisciplinar e também trabalhar no processo de elevação do semba a património imaterial.

Workshop sobre Semba da Casa da Cultura do Rangel fundamental

No dia 23 de Agosto, a Casa da Cultura do Rangel acolheu o primeiro workshop sobre o Semba, juntando investigadores culturais, críticos, sembistas, dançarinos e instrumentistas desse estilo. Esta iniciativa serviu de fonte bibliográfica para a directora do INPC, que convidou a participar consigo no evento mais duas técnicas do órgão que dirige.

Além do encontro, o workshop, segundo conta Cecília Gourgel, foi benéfico porque muitas das dúvidas que tinha foram dissipadas. Recorda que uma das questões que muito foi debatida tem a ver com o facto de o Semba assemelhar- se ao Rumba e ao Merengue. Acha pertinente diferenciar- se esses estilos para se evitar erros, como, por exemplo, o da atribuição de prémios de Semba a músicas que na verdade sejam Rumba. Por seu turno, com estes argumentos, a dirigente quer fazer perceber que no processo de elevação a património imaterial, a declaração é curta, porém o dossier deve ser mais claro e, se nele não estiver esclarecida a diferença entre o semba dos outros estilos musicais, tornar-se-ia contraditório.

Carlos Lamartine diz que Semba merece estatuto de Património Mundial

Convidado a comentar sobre o assunto, o músico e historiador Carlos Lamartine considerou o acto altamente racional e acrescentou que o Semba tem valor ao ponto de merecer, inclusive, uma elevação a Património Mundial, pelo facto de esse estilo transpor as fronteiras africanas. “O Semba arrastou- se com a escravatura para o Brasil, Cuba. Foi levado com a escravatura para os EUA e muitas partes do mundo para onde foram os escravos angolanos. Boa parte dos escravos saíram do reino do Kongo, Ndongo, e Matamba onde, de facto, a dança fundamental é o Semba”, historiou. Contentando-se com o facto, disse que o Semba não é a totalidade do país, mas é parte intrínseca da vida dos angolanos, então, à semelhança de outros ritmos e áreas regionais, de acordo com a valorização de se fazer de cada uma das vertentes culturais do nosso país, este estilo é merecedor dessa elevação.

O Semba, para Lamartine, é uma emanação dos angolanos e género musical que mais se projectou em Angola como nação. Mesmo no tempo colonial, o Semba sempre teve características reivindicativas dos angolanos como povo.

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