« Bakongo » de Yannick Afroman celebra o fi m de uma discriminação

Lopo do Nascimento contou jocosamente num vídeo da TV Livre Angola, ainda disponível no You- Tube, como nasceu o mito dos Bakongo que comem pessoas. Esta figura de proa do partido que governa Angola desde a independência fez aí uma revelação interessante sobre a construção de uma reputação que depreciou outros compatriotas. A confi ssão leva-nos de volta à nossa história recente, que foi pontuada por antagonismos entre os principais movimentos de libertação, cujos líderes foram de um ou outro grupo étnico do nosso país. Embora a opinião deles sobre o Colono tivesse sido consensual, opuseram-se, naideologiaeliderança, e não conseguiram encontrar um consenso sólido – durante a guerra colonial e depois – para governar o país. Em toda parte do mundo, em contextos políticos similares, os mitos visam acima de tudo vencer a partida, portanto distorcer a imagem daqueles que consideramos inimigos para esse fi m faz parte do jogo. Assim, no nosso caso, em vez de unirem-se, os movimentos ampliaram a brecha, denegriram a grandeza de um projecto que era maior do que eles e comprometeram a ideia de uma Nação. No lugar, tivemos uma guerra fratricida durante décadas, e hoje existem Angolanos que mataram Angolanos que são celebrados como heróis nacionais. Esta é a nossa história, ela não é muito bonita. Mas deve ser contada, honesta e verdadeiramente, para ser assumida e superada. Queremos uma Nação perfeita. Este foi o desejo que justifi cou o mal-entendido e desencadeou as paixões após a vitória de Yannick Afroman no Top dos Mais Queridos 2019 com a canção « Bakongo ». As interrogações suscitadas são no fundo salutares, dizem-nos que o espírito de um povo unido está agora em nós. Mas alguns viram na RICARdO VITA* vitória um reconhecimento do tribalismo de que a canção é acusada. Pelo contrário, esta canção é o maior desejo de uma nação angolana mais unida, mais harmoniosa, no respeito das suas diferenças e peculiaridades. Afi rma e reivindica o ideal de um povo plural composto por uma comunidade de indivíduos chamados « Angolanos », enriquecidos por diferenças e peculiaridades. Yannick fala de uma conquista, mas ninguém procurou saber porquê e que conquista é, o que teria ajudado a esclarecer qualquer equívoco. A canção diz implicitamente que superámos as clivagens que foram obstáculos à integração dos Bakongo na convivência nacional e louva, em essência, a caminhada de Angola para o ideal de uma Nação. Seria inútil lembrar que Yannick é um dos artistas mais talentosos da sua geração, já provou a sua utilidade na necessária moralização da sociedade angolana. Não é ele quem está em debate aqui, pois ele merece esse prémio e muitos outros. O que está a ser debatido é a defi nição da Nação, a ideia de um grupo de indivíduos movidos por uma vontade própria de viver juntos. Não entender a canção de Yannick, é desconhecer a história do povo que ela evoca no contexto da história recente de Angola. Deveríamos antes alegrarnos pela celebração que ela faz, pois através dela Yannick reconhece a « saída do bosque » dos Bakongo, porque hoje se sentem reabilitados na grande cena da nação angolana. É mau reconhecer a reabilitação de uma parte de nós mesmos? Acho que não. Agora, entre nós, como a roupa suja se lava em família, vejamos porque é que os Bakongo se sentem discriminados no seu país, porque se eles não são Angolanos, quem é? Mas, ainda entre nós e com toda a franqueza, quem é capaz de dizer que nunca viu um Angolano do norte a ser tratado de Langa? Quem é corajoso o sufi ciente para dizer que a intenção dessa denominação não O PAÍS Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019 31 é separatista e maliciosa, bem que incultura e asnice possam também ser outras opções? E quem é capaz de levantar um dedinho para dizer que o que é vivido como exclusão pela vítima não é uma maneira cruel de despertar os nossos velhos demónios, políticos ou de colonizados alienados, consciente ou inconscientemente? Porque, estranhamente, neste país da África, Angola, o nosso país, é desagradável ser visto como um « Zairense », nome com o qual se designa um irmão africano proveniente da actual RDC, que acolheu inclusive os líderes da nossa luta contra o Colono. Porquê este país em particular ? Que carga política e emocional isso representa ? Mas é glorioso e chique passar por um Português, o ex-opressor, que cometeu as piores atrocidades contra os nossos antepassados e anciões. E quem nunca ouviu vozes que reduzam os naturais do norte de Angola a militantes da FNLA? Essas acusações destruíram carreiras e vidas. E histórias como a do meu pai, que recusou toda a sua vida a seguir a FNLA, que lutou com unhas e dentes pelo MPLA, são inverosímeis nos relatos que há muito moldaram os imaginários dos Angolanos contra os seus irmãos do norte. Mesmo assim, a sua lealdade foi questionada e ele foi discriminado. Os compatriotas do sul, que passaram por tratamento semelhante por causa da UNITA, entenderão isso facilmente. E pessoalmente, ainda acho que há desconforto quando se observa que os doutores que assinam textos para o Jornal de Angola não conhecem a grafi a dos nomes dos reis mais emblemáticos do Kongo, um dos reinos mais prestigiosos do Continente e do mundo, cuja fonte se encontra no nosso país. É irresponsável, porque esses doutos deveriam ter a obrigação de mostrar o mesmo zelo que escondem mal quando escrevem todos os tis e tremas nos nomes dos reis medievais de Portugal. Têm o dever moral de participar convenientemente na construção da nação angolana, estudando as suas singularidades. E acho tristemente divertido que as pessoas me digam « és mesmo ‘B’akongo? Não pareces! Os nossos patrícios de lá em cima não são assim ». São como?… Portanto, não são fábulas quando Yannick diz « antes eu me escondia. Antes eu me embarrava, eu tinha vergonha, eu era complexado », é a verdade. E é preciso entrar na pele do discriminado para sentir isso. E, sem surpresa, esse sentimento de discriminação tem diminuído constantemente desde o fi m do partido único e da guerra civil. Certamente, porquevivemostemposnovosemais abertos. Os Angolanos encontramse mais, descobrem-se, entendem que têm muito em comum e poucas diferenças, percebem que juntos podem alcançar tudo. Compreendem, conhecendo-se, que é a soma dos seus orgulhos particulares, diluídos num orgulho maior chamado Angola, que criará a nação angolana; porque todo Angolano é um orgulho e todos os povos de Angola valem mais do que qualquer laboratório político aviltante. E quando Yannick diz que « os Bakongo estão na moda, conquistámos o respeito », além do seu talento para lidar com o sarcasmo, ironizando sobre os clichés e forçando os traços para dizer que os Bakongo sabem abrir as portas apesar dos obstáculos, porque são de um velho povo político que não se deixa enganar por falsas cortesias, ele presta homenagem a uma linhagem de compatriotas que o precederam no longo caminho para a reabilitação. Teta Lando é um deles, denunciou essa discriminação ao longo da sua vida, convido-vos a ouvir e traduzir a sua bela canção intitulada « Ntoyo ». E no fi m de « Bakongo », o apelo de Gilmário Vemba faz-nos concordar: condena veementemente o tribalismo e exalta o ideal de uma Angola fraterna e unida. Então não é a música de Yannick que é problemática, ele só abraçou o que ele já não quer evitar: ser mukongo. Mas é problemático dizer, como Salas Neto, que «… tirando o posto de Presidente da República, quase não há algum outro cargo que não tivesse sido ocupado por um bakongo. De resto, são eles que dominam praticamente tudo que é doce: a diplomacia, os serviços de inteligência, a comunicação social, as universidades, os saborosos postos nas petrolíferas, os partidos políticos, as igrejas, o comércio informal, as medicinas tradicionais e outros sectores ». E não incomodou ninguém. Só que isso faz pensar a outra perigosa acusação que se faz frequentemente contra os mestiços, outros fi lhos de Angola. É isso que é irresponsável, estigmatizar um grupo inteiro de concidadãos (ou um concidadão!). É com pensamento semelhante que Hitler exterminou Judeus na Europa e os Hutus os Tutsis no Ruanda. Aliás, a nossa história terá ainda que elucidar os massacres de 1992 em Luanda.

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