Empresário na África do Sul busca recuperar camiões desviados para Angola

O cidadão de nacionalidade angolana Francisco Daniel Dasala, de 44 anos de idade, empresário no sector de transportes e logística acreditado na África do Sul, diz ter sido aldrabado por dois seus patrícios que desviaram dois camiões para Angola. Apesar de já os ter localizado, os acusados não querem devolver os camiões e dizem ter “costas largas”

Há 20 anos que Francisco Daniel Dasala trabalha no sector de transportes e armazenamento de mercadoria na África do Sul. Dado o tempo de experiência, o cidadão angolano é tido como referência neste tipo de negócio, pelo que facilmente fazia sociedade com quem quisesse estrear-se no mercado sul-africano.

Foi assim que, em 2014, foi-lhe apresentado por um amigo o cidadão Sudeni Manuel. Este cidadão estava disposto a investir no sector do transporte de mercadoria, mas por não ter as condições legais decidiu unir-se a Francisco. Fizeram um acordo de cavalheiros, compraram um camião de marca Volvo, o atrelado e começaram a trabalhar.

Por coincidência, o primeiro frete foi transportar mercadorias diversas para Angola. Sudeni Manuel veio com o camião e o motorista da empresa (trabalhador de nacionalidade sul-africana) e, tão logo se fez e a entrega da mercadoria ao proprietário, reteve o veículo e trocou a matrícula sulafricana por uma angolana. “Como ele conseguiu uma nova matrícula? Não sei.

O certo é que desde aquele ano, até ao momento, o camião está em Angola, no Zango II, a trabalhar, e ele não mo quer devolver. Tentei várias vezes conversar com ele para acharmos um meio-termo, não mostrou flexibilidade. Disse que podia fazer queixa dele onde quisesse, que não daria em nada por ser alguém influente”, conta. Francisco não quer colocar-se em confusão, aliás disse não ser por causa de um camião que vai pôr em causa a sua reputação.

O que o leva, insistentemente, a pedir ao então sócio a devolução do camião ou o pagamento de parte do seu investimento, é o facto de o veículo estar registado na África do Sul, em nome de Francisco, e no sistema aparecer a funcionar, pelo que lhe estão a ser cobrados todos os impostos. De dívida com Estado, contraída através do camião Volvo, tem o equivalente a 10 mil dólares, que se não forem pagos nos próximos tempos poderá afectar o normal funcionamento da sua empresa, na África do Sul.

A cada dia que passa a dívida vai aumentando. “Estou a tentar uma solução com ele desde o ano passado, e nada. Para ver se consigo tirar o meu nome no sistema do Estado, trouxe um documento que ele tinha de assinar, mas mesmo assim não quer. Não consigo perceber por que razão ele quer me criar dois prejuízos. Na última conversa que tivemos, pessoalmente, disse-me para ir queixar-me onde quiser que, aqui, ninguém lhe faz nada”, sublinhou.

O segundo camião

Coincidência ou não, também em 2014, conheceu José Horácio Capitango, outro conterrâneo que, tal como Sudeni, queria investir no sector. Comprou-se o camião de marca Scania, legalizou-se a sua circulação, receberam uma encomenda para Angola e postos aqui foi dado outro destino ao veículo. O camião está neste momento entre o Cuando Cubango e Benguela, a ser usado no transporte de madeiras. Tem estado a conversar com ele, via telefone, para chegarem a um acordo e até ao momento nada foi feito. A última conversa que tiveram foi em Fevereiro do corrente ano, na qual Francisco disse que está em Angola e não pode regressar para a África do Sul sem resolver este problema, uma vez que este camião quem o financiou foi um empresário sul-africano.

O camião foi comprado com um empréstimo bancário e o empresário sul-africano tem de pagar a dívida. Assim, todos os dias aquele empresário procura saber de Francisco como está a situação, aliás várias vezes o sul-africano mostrou estar a desconfiar de Francisco, uma vez que tem a mesma nacionalidade que a dos burladores. “Estou com a reputação manchada diante do meu amigo sul-africano, estou em dívida com ele e não posso sair de Angola sem resolver este problema. Já tentei com o meu advogado na África do Sul, mas não foi possível porque os camiões e os acusados estão aqui, e devia ser tudo tratado com os advogados aqui”, lamentou.

O entrevistado desconfia que Sudeni e José Horácio se conhecem, pois não é normal que os dois camiões, que por acaso foram entregues na mesma altura, tenham o mesmo destino. Acredita piamente que os dois terão planeado tudo aqui em Angola e, apesar de terem chegado à África do Sul em momentos diferentes, fizeram a mesmíssima coisa.

O veículo de marca Scania, por ter custado mais em relação ao de marca Volvo, tem a dívida com impostos a serem pagos ao Estado avaliada em 100 mil dólares. É também, segundo o interlocutor, uma dívida que a cada dia que passa vai aumentando.

“Vamos processá-lo por calúnia e difamação”

Em contacto com Sudeni Manuel e José Horácio a história contada foi outra. Sudeni diz que o camião é dele, apenas o deu a Francisco para gerir e por ver que este (o empresário) não estava a cumprir o que tinham acordado inicialmente, tomou a decisão de receber o seu camião e trazê-lo para Angola. Trouxe o camião com o objectivo de o colocar a trabalhar e voltar à África do Sul, mas quando chegou aqui “o Sr. Chimuko prendeu o carro, porque o Chico tinha um litígio com ele. O carro não é dele, simplesmente pus o carro em nome dele para trabalhar na sua empresa”, disse.

O interlocutor questiona por que razão só agora Francisco está a preocupar-se com o camião, depois de passarem muitos anos. “Se o carro realmente é de Francisco ele teria vindo mais cedo”. “Eu comprei esse carro em 2015, por 35 mil dólares. Eu já disse não ao Chico, que ele tem de ser coerente. Não é a dívida do camião que está a fazer com que ele não volte a ter a vida normalizada na África do Sul, ele tem outras dívidas”, reforçou.

Esse não é assunto para levar à imprensa, segundo Sudeni, e ele avisou que vai fazer uma participação à Polícia contra Francisco, por calúnia e difamação. Sudeni disse ainda que conversou com Francisco e mostrouse disposto a resolver o problema das dívidas contraídas com o Estado sul-africano. Tem vontade de resolver isso porque quer que o seu camião volte à África do Sul, mas, infelizmente, por já ter dado dinheiro a certas pessoas e ter sido aldrabado, está com receios.

O camião esteve parado durante 3 anos, foi Sudeni quem o consertou, e não o quer dar a Francisco de “mãos beijadas” por não confiar nele, dadas as suas outras dívidas. Quem também disse que vai accionar um advogado para processar Francisco é José Horácio Capitango, outro cidadão que também está a ser acusado de se ter apropriado de um camião. José disse que foi ele quem pediu a Francisco que comprasse um camião, enviou-lhe o dinheiro e este decidiu comprar a crédito.

“Ele não entregou o dinheiro que lhe dei, para o pagamento da primeira prestação, ao dono do camião. Pedi-lhe o número do dono do camião para que pagasse directamente, mas não aceitou. Assim, não terminei o pagamento”, conta.

Como o azar não vem só, o camião de José Horácio Capitango teve um acidente e até agora está a pagar os danos causados, avaliados em dois milhões e 500 mil de Kwanzas. O camião está retido até que termine de pagar os danos. Tenciona reparar o camião e depois de pagar os danos devolver a Francisco, mas com uma condição: que este lhe devolva a primeira parte do pagamento feito por José Horácio para o dono do camião. “Sem ele devolver o dinheiro que comeu, não entrego o camião”, disse.

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