“Não é com o intervencionismo que a economia vai crescer, como aconselha o FMI ”

O FMI volta a rever em baixa o crescimento da economia mundial, segundo o mais recente “World Economic Outlook”, produzido depois das Assembleias Anuais das organizações de Bretton Woods, realizado a semana passada. O economista Yuri Quixina, que participou no evento, refuta as razões avançadas pelo FMI e apresenta o seu parecer

Das Assembleias Anuais do FMI e do BM resultaram da divulgação do “World Economic Outlook”, que aponta a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China como principal razão do abrandamento da economia de ambos os países e da economia mundial. Você tem o mesmo parecer, já que participou nas sessões?

As reuniões foram muito interessantes, particularmente do grupo em que participei. Debatemos sobre vários temas, entre os quais, a desigualdade, alterações climáticas e corrupção. O grande debate foi a revisão da perspectiva económica do Fundo Monetário Internacional. Eu era o único mestre do grupo, no meio de Phd’s, pelo que foi uma grande experiência discutir com pessoas que do ponto de vista de investigação estão muito avançadas. Respondendo à sua pergunta, sobre a actualização das previsões do FMI, espera-se que a economia mundial cresça apenas 3% este ano, sendo a quinta vez consecutiva que revê em baixa a previsão e um abrandamento de 0,6 pontos percentuais, face a 2018. Ao contrário do que acontecia em 2017, quando todos os blocos económicos cresciam de forma sincronizada, agora é a vez de todos abrandarem em uníssono.

Quais são os principais factores desse abrandamento, na perspectiva do FMI, a par da guerra comercial entre a China e os EUA?

Segundo os debates que tivemos e o anúncio final do FMI, as razões desse abrandamento deve- se essencialmente à guerra comercial e ao agravamento das disputas comerciais que se alastrou aos outros blocos eco- O FMI volta a rever em baixa o crescimento da economia mundial, segundo o mais recente “World Economic Outlook”, produzido depois das Assembleias Anuais das organizações de Bretton Woods, realizado a semana passada. O economista Yuri Quixina, que participou no evento, refuta as razões avançadas pelo FMI e apresenta o seu parecer nómicos. Os riscos geopolíticos, a necessidade da redução da dívida chinesa, a introdução de novos sistemas de controlo de emissão de automóveis, são os outros factores apontados pelo FMI. Sobre este último factor, já havíamos reflectido aqui no Economia Real, que essa teoria de combate às alterações climáticas tem um custo muito grande para o crescimento económico e está a afectar o mercado da indústria automóvel da europa. Esse é o diagnóstico do FMI.

E que caminhos o FMI e o BM apontam para a saída da crise?

O Fundo entende que a solução da desaceleração do crescimento da economia mundial passa por vários factores. Começa por recomendar aos países com margem orçamental como a Alemanhã e a Holanda que devem aproveitar as taxas de juros negativas, para investir em infra-estruturas e no capital humano. O FMI não fica por aí.A economista-chefe, Gita Gopinath que conduziu os trabalhos, disse, por exemplo, que não havia margens de erros nas políticas e que havia uma necessidade urgente de os governos tomarem medidas para estimularem o crescimento via orçamental, caso o crescimento seja inferior ao que se prevê agora. Por outras palavras, o que a economista- chefe defendeu foi intervencionismo para estimular o crescimento económico.

Quais seriam os caminhos, no seu entender, já que refuta a perspectiva do FMI?

Não estou de acordo nem com a solução nem com o diagnóstico do FMI. Foi a minha opinião nos debates entre académicos. Primeiro, essa desaceleração da economia mundial deve nos levar a repensar as soluções implementadas depois da crise de 2008, supostamente para tirar a economia da crise. A economia não saiu da crise, ela estava camuflada. Desde 2010 até hoje a economia mundial sempre esteve abaixo de 3,7%. O crescimento da economia mundial depois de 2008 foi alimentado por dívida. A dívida no mundo está a aumentar e as taxas de juros dos bancos centrais já estão negativas.

Que solução?

Em 2012 não havia guerra comercial entre a China e os EUA, nem Trump existia. Em 2013 crescemos 3,5% e o governo norte-americano não era dirigido por Donald Trump. Em 2015 o crescimento foi de 3,4%. A economia mundial sempre cresceu de forma moderada e esse factores aludidos pelo FMI não existam na altura.

Então quais eram os factores do abrandamento?

Vou continuar a dizer que os factores não eram o Trump, nem Seul, nem Japão. O problema era excesso de política monetária não convencional, o mundo tem muito dinheiro e está a criar bolha, o dinheiro não está a ser direccionado para o sector produtivo.

O mundo não alterou o comportamento de consumir e gastar, depois de 2008. Solução: não é com o intervencionismo que a economia vai crescer. E o FMI aconselha a gastar a mais.

 

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