“Os adversários do Presidente são as forças de bloqueio”

Isaías Samakuva em réplica ao “estado da Nação” de João Lourenço, adverte o Titular do Poder Executivo que a oposição ao seu trabalho está dentro da sua própria força política. “Estas forças não estão na UNITA, estão no seio do MPLA”, afirmou

O líder do maior partido na Oposição angolana reagiu ao discurso sobre o estado da Nação proferido pelo Chefe de Estado Angolano a 15 de Outubro na abertura do ano parlamentar. Samakuva começou por relembrar que João Lourenço, no início do seu mandato fizera “uma aposta cada vez mais séria no sector social, implementando políticas públicas que respondam o melhor possível aos anseios e expectativas dos cidadãos, mesmo num contexto de crise financeira global”. Segundo o líder da UNITA, naquela altura, a escolha de João Lourenço foi saudada e considerada de muita “coragem, a vontade de mudança”, tendo por isso dado o benefício da dúvida ao estadista angolano. Entretanto, agora, passados dois anos, “continuamos a não perceber ainda as reais intenções do Senhor Presidente da República! Será que o Senhor Presidente da República quer mesmo salvar Angola e os angolanos mas no percurso foi bloqueado ou sabotado, ou o seu interesse maior é manter o MPLA no poder?”, interrogou.

Segundo o presidente da UNITA, não obstante a forte vontade que João Lourenço manifestou de melhorar a vida dos angolanos, a Nação ficou mais empobrecida nestes dois anos e “a força com que o Presidente tinha começado parece ter esmorecido”. “As famílias não estão a aguentar o aumento constante do preço da fuba de milho, do arroz, do trigo e do feijão, os quatro produtos da reserva alimentar definida pelo Executivo. O preço do pão, da água e até do saldo da UNITEL também não param de subir, numa altura em que os gastos supérfluos do Governo continuam a aumentar e não são fiscalizados”. Isaías Samakuva serve-se de cálculos feitos por economistas para afirmar no seu discurso que mais de 70% da população jovem está desempregada ou ocupada em empregos precários, ao passo que mais de 42% da população global é pobre. “O país não tem dinheiro e a autoridade cambial não consegue parar o aumento constante do preço do Euro e do Dólar. O dinheiro que o Estado tinha foi roubado e mais de metade do dinheiro que entra, ou seja, cerca de 51%, é sacrificado para pagar juros e amortizações de uma dívida que o povo soberano de Angola e seus representantes legítimos não fiscalizam nem controlam”, acusa o presidente da UNITA na sua réplica. Samakuva, reitera a acusação de que pelo menos 25% da divida nacional é falsa, e para reforçar as suas convicções cita a actual ministra das Finanças, que em tempos idos afirmara que no âmbito da auditoria à divida se tinha detectado que uma grande percentagem dela não era “verdadeira” e por isso mesmo ao pagá-la “os angolanos estão a financiar novos roubos aos cofres do Estado”. Diante dos indicadores, Samakuva lança um alerta: “tudo indica que a crise vai agudizarse porque não se fiscaliza a execução orçamental do Executivo, não se alterou a cultura dos dispêndios, não se melhorou a qualidade da despesa pública e o País continua a endividar-se sem parar, sendo que a dívida pública atingiu já o equivalente a 90% do produto interno bruto”. Para ele, a crise económica e financeira que o país vive só será ultrapassada a médio prazo se, a partir de agora, o Presidente da República “se afastar decididamente da oligarquia que capturou o Estado e passar a governar para a cidadania”.

“Estado angolano está capturado”

Para não variar, o líder da UNITA lança farpas ao seu arquirrival ao afirmar que a raiz de tudo o que está mal na estrutura e no funcionamento do Estado é o facto de “o partido-Estado ter sido capturado por uma oligarquia que, com base na política de acumulação primitiva de capital, construiu monopólios e cartéis para controlar a economia, subverter a soberania popular e dominar Angola”.

Samakuva disse que as forças de bloqueio “assustaram-se” mas não devolveram o dinheiro roubado, nem mesmo diante de processos crime que começaram a marcar passos “nos gabinetes da justiça”, aliás, processos estes que levaram as “forças de bloqueio a entraram nas tocas, no seu ninho”, e consequentemente as medidas de políticas correctivas para a estabilização da economia afectaram mais negativamente os parcos rendimentos dos cidadãos do que “os milionários rendimentos da oligarquia.

Os preços sobem todos os dias, os salários não crescem, o desemprego aumenta e o Kwanza desvalorizou 43% em relação ao Dólar americano” “Como sobremesa, surgiu o IVA, talvez num momento pouco amistoso”, ironiza o líder do maior partido na Oposição angolana.

Para ele “as forças de bloqueio” que estão disseminadas no Governo, nos tribunais, na banca, na academia, em todo o lado e “saíram da toca, reorganizaram-se e querem atacar. Há relatos de que sabotam as estratégias do Presidente, enganam o Presidente, fornecem-lhe informações falsas, ora sobre o nível de execução de programas aprovados, ora sobre o apetrechamento de mediatecas, ora sobre a situação financeira e social do país real”. Samakuva acusa que “estas forças querem aproveitar-se dos efeitos nocivos dos roubos que eles orquestraram e da recessão económica que eles mesmo alimentaram para denegrir a imagem do Presidente da República e minar a sua autoridade”.

Nem mesmo os seus pares na Oposição foram poupados por Samakuva, que afirma que “nesse processo de resistência à nova orientação política do país, as forças de bloqueio reconfiguraram as alianças e procuraram novos aliados, alguns dos quais ancorados nas próprias estruturas do poder do Estado e também no seio dos partidos da Oposição e da sociedade civil”.

“O país está perante uma nova manifestação da luta de classes

Para Isaías Samakuva, pela primeira vez na sua história o país enfrenta uma nova “luta de classes” que não se confunde com as fronteiras partidárias. “A crise é uma via de dois sentidos: dum lado da estrada os patriotas que pretendem resgatar a Pátria e servir o povo; do outro lado, as forças de bloqueio, que caminham pela via sinuosa do fracasso”.

Isaías Samakuva fez questão de enfatizar que não proferia o seu discurso apenas na condição de líder da UNITA, mas também na de Conselheiro da República, porque, segundo ele, “todos os patriotas são aliados do Senhor Presidente da República na concretização efectiva das mudanças necessárias para o resgate da Pátria e na criação de riqueza suficiente para assegurar o bem-estar dos angolanos e o desenvolvimento do país”.

Propostas de Samakuva

O líder da UNITA propõe que o combate à corrupção ganhe um novo fôlego para possibilitar que a transformação estrutural da economia angolana responda às necessidades do desenvolvimento.

Refere-se às “privatizações e confiscos para a recuperação de activos” como boa medida, mas que se pode estender para mais. “As 195 empresas e activos listados para privatizar representam apenas uma parte, porque são conhecidos e estavam registados na contabilidade da Sonangol, que serviu de tesouraria para pagar a respectiva aquisição”, pelo que o Estado devia estender os seus tentáculos e confiscar tudo o que aparentemente terá sido edificado ou adquirido às custas de fundos públicos no país e no estrangeiro.

Samakuva criticou ainda a falta de “tomada de posição do PR” em relação à instituição das autarquias, à assistência sólida aos antigos combatentes e ex-militares, bem como a uma maior e melhor liberdade de informação, expressão e de imprensa.

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