A burocracia no crédito pode reduzir o descaminho do dinheiro”

Em entrevista exclusiva a OPAÍS, o secretário de Estado da Economia, Sérgio Santos, valorizou o potencial económico da província da Huíla, tendo em atenção o seu papel na diversificação económica e no fomento às exportações. Sublinha que “há casos em que a burocracia no crédito aos empresários pode ser justificável para se evitar “desvio” de dinheiro

 

Miguel Kitari, enviado ao Lubango

Esteve presente no Fórum Investe Huíla. O que esta província pode representar no processo de diversificação económica em curso no país?

Temos na Huíla um conjunto de vantagens. Sabemos que além da componente agro-pecuária, a Huíla tem o maior efectivo de gado bovino do país, mais de um milhão e 700 mil cabeças. Esta província pode produzir muita carne. Precisamos que os investidores olhem para a oportunidade de termos aqui não só um matadouro para servir essa região, precisamos melhorar a genética do gado, investir na transformação dos produtos da carne e chegar aos grandes mercados. A Huíla também tem uma vantagem muito grande em recursos minerais. É uma potência em rochas ornamentais e é uma porta para a exportação. O turismo é outra das potencialidades que não podemos deixar de citar. A Huíla é uma região que oferece muitas oportunidades aos empresários, diferentes das oportunidades do sector petrolífero, que podem construir-se em ganhos assinaláveis para Angola.

Apesar desta potencialidade que acaba de citar, os empresários locais e não só reclamam contra alguma burocracia na operacionalização dos créditos…

Os empresários precisam de organizar- se. E sentimos que aqui temos que apoiá-los para estarem melhor organizados. Isso implica que eles devem ter bons projectos, bem elaborados, viáveis, bancáveis. Uma empresa que não estiver bem organizada não terá acesso ao crédito.

Além da organização de que fala, os empresários reclamam contra o excesso de burocracia. Quer comentar?

O excesso de burocracia no tema do financiamento acaba até por ser necessário, porque já tivemos momentos em que se deu dinheiro e houve desvio de fundos, pois estes empresários não estavam organizados. Portanto, agora afigura-se necessário verificar se a empresa é séria, se tem capacidade para realizar os projectos que apresenta. Muitas delas não têm condições e não vão ter acesso ao crédito.

É o caso da província da Huíla?

Aqui temos empresários organizados. Temos associações empresariais muito fortes. Precisamos de ajudá-los no sentido de terem os projectos bem elaborados e trabalharmos com os bancos para que conheçam estes projectos. Durante este trimestre vamos fazer visitas com os bancos directamente aos empresários, para que os bancos conheçam quais são os empresários que possuem projectos com viabilidade económica e capacidade para os realizar. Precisamos também que os empresários encontrem parceiros que saibam fazer as coisas, parceiros que possam constituir mais-valia. Por exemplo, para produzir carne, é preciso saber, não basta crer. Para explorar rochas ornamentais e exportar é preciso saber. E nós vamos ajudar no estabelecimento de parcerias entre empresários nacionais e estrangeiros, assim como no acesso ao crédito.

Falou da carne com alguma insistência, um produto de que o Executivo pretende reduzir a importação. Há um apoio directo do Ministério da Economia ao empresariado que actua neste sector?

Sim, temos um apoio directo. O tema do apoio à produção de carne é uma das prioridades do Ministério da Economia, e todo o sector da agro-pecuária. Estamos igualmente a trabalhar com a Associação de Criadores de Gado do Sul de Angola para fazermos visitas aos criadores e vermos a possibilidade de financiamento com os bancos e, finalmente, queremos encontrar investidores que tenham capacidade de estabelecer parceria com nacionais e que possam fazer funcionar a cadeia de valores no sector agro-pecuário.

Noutra vertente, o último relatório do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) acaba por demonstrar que as empresas estatais, sobretudo a TAAG, não estão bem. O que se passa?

A TAAG faz parte do plano de privatizações. Portanto, já temos uma solução definida para este caso concreto. É o melhor caminho, pois deixará de ser um activo que cria perdas para o Estado, passando a ser um activo financiado com recursos de privados. Imagine a TAAG juntar-se a outra empresa de nivel mundial… Vai ser uma solução, de certeza.

Por que razão as grandes empresas angolanas não corresponderam às expectativas iniciais?

As empresas públicas devem ser transferidas para o sector privado. Não é papel do Estado cuidar de empresas, salvo aquelas que se afiguram importantes para cuidar do bem público e servir o cidadão. As empresas públicas, em alguns casos, estão a ocupar um espaço que é dos privados, espaço esse que devem deixar para os privados. Os privados, nesta fase inicial, terão de ser acompanhados, protegidos, sobretudo por causa da concorrência das grandes empresas que chegam de outras partes do mundo. É este o caminho que temos estado a traçar.

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