Nicolau Gomes Spencer morreu há 48 anos

Num dia como o de amanhã, 26 de Outubro, do não muito distante ano de 1971, morria em combate, na Frente Leste, o nacionalista Nicolau Gomes Spencer “Muan Ndozy”, comandante e comissário político da guerrilha do MPLA. Completam-se, pois, 48 anos desde a sua morte na sequência de combates contra as tropas coloniais

 

Descendente de pai cabo- verdiano e mãe de Cabinda, ai nasceu, em Lândana, e viveu a infância e parte da juventude até seguir estudos religiosos em instituições católicas, fora de Cabinda, estudos que viria a abandonar na parte final para abraçar a luta de libertação nacional. No processo da luta, empenhou- se de corpo e alma, tendo convivido com camaradas de quem recordam estórias bonitas que a filha Brigite Gomes conta ao “OPAÍS” relatos dos antigos companheiros de causa, porque Brigite nasceu no ano de 1972, alguns meses depois da morte do pai. Conta que desde muito cedo foi posta ao corrente da sua condição de órfã quer pelos familiares quer pelos amigos do comandante Nicolau Gomes Spencer. “

Os amigos do meu pai sempre me diziam quando íam a casa onde eu vivia ou em qualquer lugar onde eu estivesse, faziam questão de falar comigo, recordavam, ficavam emocionados e eu fui crescendo a saber que não tinha pai”, disse, sublinhando que a primeira vez que soube desta realidade triste contava os seus oito anos. A forte formação religiosa adquirida no seminário católico forjou em Nicolau Gomes Spencer um carácter altruísta e uma cultura peculiar que era muito admirada pelos seus companheiros. “O tio Spil (já falecido), a camarada Dinda, a Irene Neto, a filha do primeiro presidente, disse-me que ele era muito inteligente e gostava de dançar. Gozava de muita confiança do presidente Neto e, por isso, esteve em muitas missões a representar o movimento.”

Este reconhecimento das suas qualidades ímpares vem também de dentro da Igreja Católica, cujos colegas de carteira, hoje feitos bispos, alguns, a procuram para falar do pai. Para surpresa grata, Brigite disse que nos anos 90 manteve contacto com seminaristas que tomaram conhecimento da sua passagem pelo seminário e manifestaram-se interessados em conhecê-la, o que a deixa com dois sentimentos irreconciliáveis.

“Sinto-me feliz porque vê-se que o meu pai deixou boas referências, boas recordações no seio dos camaradas de trincheira. Entretanto, também sinto-me muito triste, porque até hoje não consigo preencher este vazio que carrego há anos. Eu perdi o meu pai e não é fácil não ter pai”, mas disse que procura preencher esse vazio recorrendo ao conforto dos amigos de Nicolau Gomes Spencer que a tratam com muito carinho.

Homem de cultura

Muan Ndozy era um homem de letras, desde logo compreensível pela sua formação religiosa de alto nível. Nas horas vagas tinha como companhia a caneta e o papel aonde vertia versos muitos, que um dia Costa Andrade Ndunduma recolheu e publicou num livro com o título “Poesia de Nicolau Gomes Spencer”.

Mas os seus versos, as suas estrofes, estão imortalizados no hino do MPLA de que foi o autor. “O que eu sei é que foi realizado um concurso e das várias propostas apresentadas a letra do meu pai venceu”, lembra. A admiração, o respeito que Nicolau Gomes Spencer granjeou juntos dos camaradas de causa viria a materializar-se com a atribuição do seu nome à Escola de Oficiais Inter-Armas Comandante Nicolau Gomes Spencer “Muan Ndozy”na província do Huambo, no dia 8 de Julho de 1976, na presença do Presidente Agostinho Neto, Iko Carreira, Jacob João Caetano “Monstro Imortal”, assessores cubanos e outros. Nesse dia, internaram os primeiros 1200 alunos que frequentaram os cursos das mais variadas especialidades militares.

Além deste reconhecimento, o nome de Nicolau Gomes Spencer foi ainda atribuído a uma rua em Luanda, a uma escola em Cabinda e ainda a uma outra em Malanje. A título póstumo foi promovido ao grau militar de tenente-general e outorgado com as mais altas distinções militares e políticas do Estado e do MPLA, ou seja medalhas do primeiro grau.

Um sonho

Trabalhar na construção de um museu sobre a luta de libertação nacional para nele se retratar tudo o que aconteceu durante aquele período sem se tirar qualquer vantagem, para se resgatar a história da luta de libertação nacional. “É um sonho de há muitos anos trabalhar na construção desse museu, para retratarmos tudo o que se passou, para deixarmos um legado, para resgatarmos enquanto temos tempo, enquanto todas estas pessoas que participaram ainda estão cá connosco, senão vamos perder”, disse, assumindo que é, por natureza,. Brigite diz mesmo que se o museu físico demorar pode lançar a aposta num museu virtual, usando as vantagens oferecidas pelas tecnologias de informação. É preciso perpetuar a memória dos que partiram para que Angola fosse livre de quaisquer formas de opressão.

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