Os desempregados da crise

Onde estão os (500 mil) empregos? Esta é a pergunta a que muitos angolanos querem ver respondida, desde que lhes foi prometido trabalho, em época de campanha eleitoral, pelo actual Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço. A verdade é que o número de desempregados aumentou com o agudizar da crise económica e financeira e, embora o Instituto Nacional de Estatística apresente uma taxa de desemprego fixada nos 29%, há quem acredite que o número é bem maior. Todos os dias há um novo “desempregado da crise”

Por:Romão Brandão

Duzentos e setenta e dois mil Kwanzas era o salário que J. P. R., de 47 anos, ganhava há dois anos, quando exercia o cargo de tesoureiro de uma empresa de importação e exportação de alimentos, no Grafanil-Bar. Até antes de ser surpreendido com a triste notícia de que o patrão estava a ficar sem condições de garantir o stock, com as constante escassez de divisas, a vida dele e da sua família ia muito bem. J. P. R. apenas aceitou falar com a nossa equipa sob a condição de não ser identificado, porque tem vergonha da actividade que agora exerce, depois de cinco anos a “ganhar bem”, como diz, na empresa que faliu.

Nos primeiros anos desde que decidiu começar a fazer de taxista foi vítima de muita chacota por parte dos vizinhos e amigos, aliás, muitos hoje não sabem que ele continua no serviço de táxi. Conhecemos este interlocutor na praça do Ramiros, enquanto esperava por clientes numa enorme fila de táxis que vão até à comunidade do Buraco. A lotação do veículo é por ordem de chegada e cada passageiro paga 600 a 500Kz por viagem. Ele prefere fazer táxi bem longe da sua zona de residência (Grafanil- Bar, município de Viana), pelas razões explicadas anteriormente.

“Aqui ninguém me conhece e não tem muita confusão como transportar mercadorias no mercado do KM30- Viana, tal como fazia anteriormente. É melhor fazer algo que dá dinheiro e sustento para a família do que ficar a lamentar por falta de emprego”, defende. J. P. R. é um dos “desempregados da crise” que viu o serviço de táxi como refúgio e que não se importa de ganhar 100 ou 50 mil Kwanzas por mês (fora os custos de manutenção da viatura e o dinheiro do patrão), mesmo depois de ter auferido salário maior.

É do Toyota Corola vermelho que tira o dinheiro para sustentar a mulher e cinco filhos. Sorriu quando nos contou que os seus colegas de táxi, na praça do Ramiros, não sabem que ele tem formação técnica média de contabilidade e gestão, nem que vive no Grafanil-Bar. É uma informação que procura ocultar porque tem fé de que a empresa em que trabalhou venha a ressuscitar, uma vez que tem mantido contacto com o dono e este mostra positivismo também com a implementação do IVA.

Quase quatro milhões de cidadãos desempregados

O último inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatística, que durou três meses de recolha, aponta para um total de 3.938.006 de desempregados, o que corresponde a 29% de taxa de desemprego até o II Trimestre de 2019. Segundo aquela instituição, a taxa de desemprego apresentada nesta FIR (Folha de Informação Rápida) é a taxa no sentido amplo1, de acordo com as recomendações da OIT para países em vias de desenvolvimento. Por outro lado, para permitir a comparação internacional, os resultados apresentados cobrem a população de 15 ou mais anos de idade.

A taxa de desemprego na população com 15 ou mais anos de idade foi estimada em 29,0% (estimada em 3,9 milhões de pessoas) e a taxa de emprego em 61,8% (estimada em 9, 6 milhões de pessoas). Ou seja, contas feitas, existem perto de 4 milhões de angolanos sem emprego. Durante os primeiros 3 meses de recolha (Abril a Junho) dos 10.944 agregados previstos, foram inquiridos cerca de 10.301 agregados familiares para o Inquérito ao Emprego em Angola (IEA) de 2019.

Angola e África do Sul ocupam a terceira posição dos países da SADC com a maior taxa de desemprego, ambos com uma taxa de desemprego de 29%. A primeira posição é ocupada pela República Democrática do Congo, com uma taxa de desemprego de 46,1%, a mais alta da região. A Namíbia está em segundo lugar com 33,4% de desempregados, de acordo com dados do Gabinete de Estudos Económicos e Financeiros do Banco BAI, citando a Trading Economics.

O desemprego no género feminino afecta 2.151.839 pessoas e no masculino afecta 1.786.167. Pelo que se regista, o número de desempregados é maior que as ofertas de emprego, por isso registou-se, no mês de Setembro, na Feira de Oportunidades de Emprego, Estágio e Formação Profissional (FOEEFP), em Luanda, uma enorme multidão em busca de uma oportunidade. A FOEEFP foi a prova clara do quanto os angolanos estão ávidos por um emprego. O Instituto Angolano da Juventude, que assumiu a organização da referida feira, na voz do seu director, Jofre dos Santos, disse ao jornal OPAÍS que mais de 50 mil pessoas visitaram o certame e concorriam para 1000 vagas.

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