Direcção provincial admite haver exploração infantil na agricultura familiar em Benguela

A definição do problema inquieta alguns e nem todos olham para ele da mesma forma, chamando-lhe uma “questão cultural”. Todavia, o Gabinete Provincial da Família e Igualdade do Género reconheceu, no Fórum Provincial da Mulher Rural, que há “exploração do trabalho infantil” na agricultura familiar praticada em Benguela. Um problema que dizem lutar para resolver

O trabalho infantil forçado é uma realidade visível em Angola e em Benguela não é diferente. Basta sair à rua para ver- se crianças a pedir dinheiro, lavar carros, carregar pesos… Tudo, para receberem “uns trocos”.

Forçados pelos progenitores, são agredidos fisicamente em casa se não apresentarem o dinheiro previsto. Outros, entrevistados por OPAÍS, em Benguela, preferem “a vida fácil” de trabalhar e dormir na rua, por gostarem do dinheiro.

Deste modo, a exploração infantil existente nos meios rurais, na realização do trabalho agrícola com os pais, é vista, na grande maioria das vezes, como “tradição”, pois, os seus pais cresceram da mesma forma. Leonor Fundanga, directora do Gabinete Provincial da Família e Igualdade do Género, declarou que estão a par do esforço desmedido que milhares de crianças experimentam diariamente, ao ajudarem os pais nas lavras, sendo “exploração infantil”.

Quando quem educa desconhece…

A dona Angelina tem 62 anos. Nascida no Chongoroi, por lá vive até hoje. Diz que não se lembra da sua vida antes da agricultura porque, basicamente, “nasceu” na lavra e trabalha nisso desde pequena.

A cidadã tem seis filhos e educou- os da mesma forma que foi educada: crescer a trabalhar na terra. Mesmo para os já adultos, ser agricultor é também a única profissão que conhecem, desde pequeninos.

Como esse exemplo, principalmente nos municípios do interior de Benguela, há imensos. Uma vez que, a maioria da população residente sobrevive da agricultura, portanto, é uma multiplicação em massa, milhares e milhares, num ciclo vicioso.

Para João Januário, presidente da União Nacional dos Camponeses Angolanos, em Benguela, este fenómeno tende ainda a passar por despercebido, devido às mentalidades, são muito difíceis de mudar, mesmo para as técnicas agrícolas, referiu.

“Tradicionalmente, no meio rural, quando falamos da produção agrícola familiar, a mão-de-obra é a família. Assistimos que a criança cresce com aquele entusiasmo de participar na actividade agrícola da sua família”, conjecturou.

“De manhã vai à escola, no regresso recebe o gado que o irmão que estuda à tarde, por exemplo, foi apascentar e o outro irmão foi ajudar o pai” a preparar a terra para semear.

Ciente da problemática, anuiu dizendo que, a criança não está preparada, biologicamente, para esse esforço, nem para acarretar tais responsabilidades. Por conseguinte, deve-se trabalhar com as comunidades “nas consciências dos homens, paulatinamente”, reflectiu.

“O país perde com isso…”, diz psicóloga

Mestre em Psicologia da Educação, Alice Rasgado defende que, apesar da interpretação cultural, para a ciência e saúde não há dúvidas, por mais que julgue estar a ajudar os pais, há exploração infantil na agricultura familiar.

O ser humano rege-se mediante várias fases vividas e a infância é primordial. Quando mal estruturada, “queimando-se etapas”, haverá consequências psicológicas, sociais e económicas consideráveis para o indivíduo, seus pares, sociedade e país.

Lamentavelmente, a criança cresce sem ser criança, pois, a seguir à escola deveria ter a “tranquilidade intelectual, emocional”, para, após alimentar-se e descansar, fazer as tarefas da escola e brincar. Porque brincar é importante.

Logo, a especialista acredita ser imperativo mudarem-se mentalidades tradicionalistas, que dizem que as crianças estão simplesmente a ajudar os pais na lavra porque foi assim que estes foram educados, e os seu pais, avós, bisavós…

O ciclo vicioso tem de ser quebrado, segundo a psicóloga. Começando- se por um processo de consciencialização dos pais e parentes, mas também da própria criança, que desconhece o direito que lhe está a ser roubado.

Porque uma rapariga ou rapaz que toma um pequeno-almoço fraco ou inexistente, caminha quilómetros para ir e voltar da escola e à tarde vai para o campo trabalhar, está a sacrificar o seu desenvolvimento cognitivo.

A criança chega à escola fatigada, diariamente, fruto do esforço no campo, na tarde anterior. Assim, nunca terá o aproveitamento escolar expectável. Logo, habilita- se a um futuro decadente e “o país perde com isso”, lamentou.

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