“Sem Estado mínimo não vamos melhorar o ambiente de negócio”

Angola caiu quatro lugares no Doing Bussiness. O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, defende que a solução passa por emagrecer o governo. O economista também considera irrealista a previsão de crescimento económico em 1,8% no próximo ano. Acompanhe a análise semanal da economia, feita no Economia Real da Rádio Mais

A semana passada foi historicamente liberal, desde o regime cambial liberal a personalidades apresentadas liberais-moderadas. Quais são as várias correntes do liberalismo?

Estou muito feliz, porque a tendência de Angola é o liberalismo. Até pessoas que nunca foram liberais e hoje se assumem liberais, é bom. Fico feliz. Penso que falta para essas pessoas estudarem a ideologia com profundidade. Há correntes que se fundamentaram no liberalismo, hoje no mundo temos várias escolas, mas a escola que está na moda é a austríaca. Existem os clássicos e os anarco-capitalistas, que defendem Estado zero. São liberais anarquistas. Já o liberalismo clássico não defende Estado zero, porque é das maiores conquistas da humanidade, segundo Alfred Marshall.

E quais são as características de um liberal moderado?

Não sei. Eu sou mesmo liberal, defendo a não intervenção do Estado na economia. O Estado não pode ter empresa, não pode eliminar as nossas escolhas. Quando o Estado intervém o povo se torna escravo e o Estado o dono do povo.

Na edição passada ficou por partilhar connosco o pensamento da sabedoria económica que teve quando participou das Assembleias Anuais do FMI e BM. O que eles pensam sobre o rumo da economia mundial?

São várias curiosidades que descobri. Descobri que o FMI não é liberal, é intervencionista. Defende políticas fiscais, aumento do imposto e do orçamento, defende, em suma, intervenção do Estado na economia. Podemos dar outro nome, mas não é liberal.

Não será liberal moderado?

Não gosto muito de rótulos, gostamos de inventar título. É a prática. A outra questão que chamou a minha atenção é a presença massiva de asiáticos no fórum. Nas universidades dos Estado Unidos tem muitos indianos e chineses. Isso obedece a uma estratégia. A média dos economistas presentes no fórum defende o intervencionismo, é so vermos as conclusões.

Você disse aqui no Economia Real que a crise começaria depois da entrada do FMI: afinal você é economista ou profeta?

Sou economista e os economistas fazem previsões com base nos dados disponíveis. Eu tinha dados que apontavam que viveríamos essa situação no ano passado, este ano e no próximo. O futuro faz-se hoje.

Cerca de um ano depois o BNA altera o denominado regime de câmbio fixo e adopta o regime liberal. Que implicações essa medida tem sobre as famílias e empresas?

É triste porque já falávamos disso. O melhor caminho para resolver o problema era liberalizar o mercado em tempo oportuno. Em 2016 já falamos sobre isso, mas não nos ouviram. Tem que vir alguém de fora para mudar algumas coisas. Mas é normal, porque não tínhamos liberais na equipa económica. Desde 1975 até hoje, o câmbio sempre foi controlado por vários economistas que passaram pelo nosso governo. Foram os mesmos que amarravam o câmbio. Medida certa, no tempo errado.

Que implicações…

Vamos ter flutuação controlada, porque o banco central vai continuar a controlar o mercado de câmbio. Há enormes desvantagens e vantagens, porque a moeda tem três preços. A inflação – sempre que há inflação os salários desvalorizam e as pessoas perdem o poder de compra. A taxa de juros, já começou a aumentar e a concessão de crédito pode ficar mais cara. Pode comprometer os vários programas públicos em curso. Agora, a primeira vantagem é a consciencialização do povo. O povo começa a perceber que vivíamos uma vida que não era nossa. Esse Kwanza forte que tínhamos era falso, camuflado por intervenção cambial. Ai o povo começa a compreender que tínhamos uma matriz económica errada.

A proposta de orçamento para 2020 está feita e prevê um crescimento de 1,8%. Que economia teremos com esse crescimento?

Primeiro, é um orçamento alarmante. Os pressupostos que vi aqui são muito alarmantes. Em crise não há bons orçamentos, porque há sempre necessidade.

Então onde está o alarme?

Está em alguns dados. A crise económica e financeira de Angola começa e acaba no OGE, porque as contas públicas constituem um problema estrutural da nossa economia. A previsão do quadro macroeconómico do país previsto no orçamento, que aponta o crescimento do PIB para 1,8%, contrário ao do FMI, que prevê 1,2%. Esse 1,8% é baseado no crescimento do sector do petróleo e gás, que se espera venha a crescer 1,5% e não petrolífero 1,9%. Mas a licitação de novos blocos petrolíferos não tem resultado no ano seguinte. Isso é uma contradição. Por isso, a previsão de crescer 1,8% é irrealista.

Angola caiu quatro lugares no Doing Business. Que implicações isso tem sobre os esforços de atracção de investimento directo estrangeiro?

Não somos os únicos no ranking do Doing Business, estou a ver alguns membros do Excutivo a reclamarem que não pode, porque estamos a fazer reformas. Os outros também estão afazer. O Doing Business é uma corrida, quem corre mais ganha. E quem corre mais é aquele que tem pouco peso, você tem um Estado gordo e eu mínimo, quem chega primeiro à meta? Sem Estado mínimo não vamos melhorar o ambiente de negócio.

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