Savimbi é o seguro e a juventude o alvo da UNITA

Raul Danda pretende reduzir o número de lugares no Comité permanente, Katchiungo quer uma UNITA mais voltada para a cidadania, Sakala diz que o partido está consolidado, Adalberto diz que incomoda o MPLA e Numa quer que se olhe para a África dos excluídos. Alguns dos pontos mais importantes num debate em que a única alfinetada foi a de Adalberto da Costa Júnior a Raul Danda sobre a militância ininterrupta

Os cinco candidatos ao lugar de presidente da UNITA protagonizaram ontem, na TV Zimbo, o primeiro debate eleitoral televisivo em Angola. O debate foi igualmente emitido por todas as estações da rede de rádios da Media Nova, a Rádio Mais, nas províncias de Luanda, Huambo, Benguela e Huíla.

No programa conduzido pelo jornalista Amílcar Xavier, ressaltou a ideia de que de todos os candidatos, Raul Danda, Adalberto da Costa Junior, José Pedro Katchiungo, Alcides Sakala e Kamalata Numa, nenhum dos projectos concorrentes se propõe a romper com as bases ideológicas fundamentais da UNITA, o chamado projecto de Mwangai e muito menos com a “presença” tutelar de Jonas Savimbi.

Apesar de Sakala e Danda não se terem alongado neste aspecto, os outros três candidatos esforçaram- se por piscar o olho aos jovens, com Adalberto a defender uma mudança geracional quer na UNITA, quer no Governo; Katchiungo a defender um pacto de cidadania com a juventude “sacrificada, mas não perdida”, e Kamalata Numa a dirigir- se, logo no início aos integrantes da selecção de sub 17 em futebol que na Terça-feira se apurou aos oitavos de final da Copa do Mundo que decorre no Brasil.

Num outro ponto, que obriga à alteração dos estatutos da UNITA, sobre o candidato a Presidente da República, que actualmente indica o presidente do partido, todos disseram tratar-se de uma discussão interna que vem de trás. Sakala diz tratar-se de uma discussão que reforça a democracia e a unidade do partido, principalmente agora que “o MPLA está em crise e em declínio”.

Para Numa, neste aspecto, tanto faz, o congresso que decida, se o candidato será o líder do partido ou se pode ser outra figura, mas afirma: “Estaríamos melhor se o candidato fosse outro que não o presidente do partido”.

Adalberto da Costa Júnior, neste assunto avança um pouco mais, propondo directas para a escolha do cabeça de lista.

“Savimbi foi mal compreendido”

A afirmação é de Kamalata Numa, que se disse ter sido mais comissário político do que militar das FALA, o antigo braço armado do partido, e por isso mesmo diz-se longe da figura de radical que lhe imputam, apesar de ser homem, para cumprir as suas missões.

Savimbi, para Numa, não era o problema de Angola, “como a sociedade nota hoje”. Para acrescentar que tal como Savimbi, sempre defendeu a luta estando dentro das instituições. E revelou que em 2012, quando a UNITA esteve prestes a desistir das eleições gerais, ele, articulou com os seus companheiros para a participação, lembrado uma reunião na sede do S. Paulo, em Luanda, decisiva, em que foi o único orador, porque a luta política deve ser feita dentro das instituições do Estado.

Idade biológica versus idade ideológica

Alcides Sakala, o mais velho entre os candidatos, falou da sua militância antiga, tendo recebido resposta de Numa, que integrou o comando estratégico aos 25 anos de idade e esteve nos momentos mais decisivos da história da UNITA e de Angola, referindo esta experiência como um trunfo para o partido.

Adalberto aproveitou a deixa para dizer que tem quarenta e quatro anos de militância ininterrupta, uma alfinetada a Danda, que a meio do caminho tinha abandonado a UNITA. Este, por sua vez, retorquiu que o tinha feito, com outros camaradas, a mando de Jonas Savimbi, para evitar problemas aquando do abandono de outros de cabinda, como Toni Fernandes e Nzau Puna.

Katchiungo, apesar de ser o mais novo de todos (55 anos o que lhe valeu uma indirecta de Sakala que o julgava na casa dos trinta), disse ser quem tem mais tempo na direcção do partido, que integrou com apenas dezasseis anos de idade. E puxou dos galões: tirando os acordos de Alvor (para a Independência), quando ainda criança e a conversa entre Samakuva e João Lourenço sobre as exéquias de Jonas Savimbi, esteve em todas as outras negociações de alto nível com o Governo. Autarquias

Alcides Sakala nem quer ouvir falar em adiamento das eleições autárquicas indicadas para o ano de 2020, nem que para isso fiantes na vitória da UNITA.

Jogo fechado

Raul Danda disse que o MPLA no parlamento inviabiliza as transmissões televisivas dos debates por receio de se expor, o que considera uma “desonestidade, discutir assuntos e aprovar leis em nome do povo sem que o povo saiba o que se discute”.

Sakala culpou a comunicação social por não cobrir as actividades políticas da UNITA, tal como Danda, aliás, secundando, ambos, Adalberto, que no início do debate justificou a sua ausência da TV Zimbo pela não transmissão em directo dos comícios eleitorais da UNITA.

Numa, por sua vez, falou da intolerância política, disse que teve de fazer uma greve de fome para chamar a atenção para o facto de angolanos morrerem por fazer política e que a escolha de Liberty Chiaka para o Huambo teve dedo seu, e os resultados estão no trabalho que por lá faz. Apesar disso, reconheceu que a Oposição fez pouco para parecer mais aguerrida.

Mais para o fim do debate, Kamalata Numa voltou a falar da necessidade de se apoiar os desmobilizados, referiu fazer parte de uma associação que integra reformados dos exércitos dos movimentos de libertação nacional e das FAA, preocupado pelo facto de “os que lutaram pela paz estarem a morrer a indigência”. E com isso reforçou que as elites africanas estão mais concentradas a construir a África ou Estados herdados do colonialismo que em fortalecer a África dos excluídos, a maioria, com educação, saúde, e infra-estruturas de qualidade, daí o êxodo rural e a criação das periferias pobres.

“Quero ser Presidente em 2022”

A afirmação é de Raul Danda, confiante na vitória no próximo dia 15, no Congresso, e depois, nas autarquias, para ser eleito Presidente da República em 2022.

José Pedro Katchiungo, por sua vez, disse que a UNITA não precisa de ganhar o eleitorado, mas conduzir um movimento de reformas que desbloqueie a mente dos intelectuais, incluindo jornalistas.

Danda voltou à carga para dizer que pretende pelo menos 45 por cento de mulheres na sua direcção, que pretende diminuir o número de membros do Comité Permanente da UNITA (sem avançar números), mas consciente de que nenhum presidente da UNITA será maior do que a UNITA. E atacou João Lourenço, o Presidente da República, acusando-o de estar a andar às apalpadelas (Danda preservará a reserva moral, os mais velhos) e disse ainda que vai lutar pela recuperação do património do partido.

Adalberto da Costa Júnior diz sentir que a sua candidatura incomoda o MPLA e as instituições, referindo o facto de o director do Jornal de Angola ter ido à Rádio Nacional de Angola, segundo disse, lançar ataques pessoais contra si.

Numa, piscando o olho aos militantes, promete uma organização que tenha vida independente do Orçamento Geral do Estado, criando recursos próprios.

Adalberto, no fim do debate, defendeu a reforma do Estado, começando pela Constituição e pela Comissão Nacional Eleitoral para uma nova forma de eleição do Presidente da República, que o obrigue a prestar contas ao Parlamento e ao povo. Por outro lado, defendeu a independência do Banco Nacional de Angola, que por se sentar no Conselho de Ministros, segundo disse, não cumpre o seu papel de regulador da actividade financeira, mas serve o Governo.

Como última palavra, ouvindo os companheiros, José Pedro Katchiungo encontrou neles valias que o levarão a convidá-los a integrar o seu elenco assim que ganhar as eleições de 15 de Novembro e tornar-se no terceiro presidente da história da UNITA.

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