A galinha da minha vizinha

Por: João Rosa Santos 

Não poucas vezes sinto saudades dos meus vizinhos. Antigamente éramos como parentes, poucos menosprezavam as raízes, éramos como um todo, a família, a irmandade em primeiro lugar. Sabíamos construir amizades, estabelecer pontes, superficiais ou insignificantes, mas que num abrir e fechar de olhos, do olá ao bom dia, os abraços e sorrisos, falavam mais alto, alguém novo entrando em nossas vidas, tal como disse o criador. Onde e como vivi, os meus vizinhos sempre foram fixes. Convivíamos de portas abertas, comíamos onde o pitéu mais cedo fosse servido à mesa. Não havia makas até as galinhas se entendiam, mesmo aquelas que, de tão fobadas, optavam por pernoitar à pato na capoeira do vizinho. Lembro-me da galinha mais viva da minha vizinha. Passava o dia no quintal da minha casa, pitava que se fartava e na hora de ovar não saia do cubico dos seus donos. Eram tempos de ninguém chamar nervo, tudo numa boa, ovo de galinha não estragava amizade. Afinal, bem vistas as coisas, “amigo não empata amigo”. Ao que parece, agora tudo mudou, tudo está diferente. Vizinho é tipo gente estranha, o que vale só concorrência, quem grifa, quem “txila” mais, quem está podendo nas máquinas, quem está com a massa. É só se fufular. Quem manda pode, quem tem voz é só tossir, quem não aguenta que se sarne, quem não se organizou que se lamente, empreender é coisa de visão, abre o olho aqui, tira acolá, todo resto são diversos. Há muito boa gente que se muda de casa por não ir com a cara do vizinho, que inventa trinta por uma linha, o que queima para sorrir, que levanta muros, descaracteriza condomínios porque não vou com a cara do vizinho, têm inveja, é xiranga, não dá para lhe dar confiança. No antigamente, vizinho não era assim, cara de pau, era benevolente, todos compreendiam, aturavam, curtiam entre silêncios mesmo no meio de parcas palavras. Hoje mais do que ontem, com tristeza, sinto saudades da galinha da minha vizinha, do reconforto do meu passado, das recordações que mesmo sem se dar muita importância fazem parte da minha essência, ainda mais hoje, quando nos quintais quase já não há galinheiros.

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